terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Da Regra de São Basílio Magno, bispo

"O amor de Deus não é matéria de ensino nem de prescrições. Não aprendemos de outrem a alegrar-nos com a luz, ou a desejar a vida, ou a amar os pais ou educadores. Assim – ou melhor, com muito mais razão –, não se encontra o amor de Deus na disciplina exterior. Mas, quando é criado, o ser vivo, isto é, o homem, a força da razão foi, como semente, inserida nele, uma força que contém em si a capacidade e a inclinação de amar.

Logo que entra na escola dos divinos preceitos, o homem toma conhecimento desta força, apressando-se em cultivá-la com ardor, nutri-la com sabedoria e levá-la à perfeição, com o auxílio de Deus.

Sendo assim, queremos provar vosso empenho em atingir este objetivo. Pela graça de Deus e contando com as vossas preces, nós nos esforçaremos, segundo a capacidade dada pelo Espírito Santo, por suscitar a centelha do amor divino escondida em vós.

Antes de mais nada, nós dele recebemos antecipadamente a força e a capacidade de pôr em prática todos os mandamentos que Deus nos deu. Por isso não nos aflijamos como se nos fosse exigido algo de incomum, nem nos tornemos vaidosos pensando que damos mais do que havíamos recebido. Se usarmos bem destas forças, levaremos uma vida virtuosa; no entanto, mal empregadas, cairemos no pecado.

Ora, o pecado se define como o mau uso, o uso contrário à vontade de Deus daquilo que ele nos deu para o bem. Pelo contrário, a virtude, como Deus a quer, é o desenvolvimento destas faculdades que brotam da consciência reta, segundo o preceito do Senhor.

O mesmo diremos da caridade. Ao recebermos o mandamento de amar a Deus, já possuímos capacidade de amar, plantada em nós desde a primeira criação. Não há necessidade de provas externas: cada qual por si e em si mesmo pode descobri-la. De fato, nós desejamos, naturalmente, as coisas boas e belas, embora, à primeira vista, algumas pareçam boas e belas a uns e não a outros. Amamos também, sem ser necessário que nos ensinem nossos parentes e amigos e temos espontaneamente grande amizade por nossos benfeitores.

O que haverá, pergunto então, de mais admirável do que a beleza divina? Que coisa pode haver mais suave e deliciosa do que a meditação da magnificência de Deus? Que desejo será mais veemente e violento do que aquele inserido por Deus na alma liberta de toda impureza e que lhe faz dizer do fundo do coração: Estou ferida de amor? É na verdade totalmente indescritível o fulgor da beleza de Deus."

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Da Carta de São Clemente I, papa, aos Coríntios


"Com orações e súplicas incessantes, pedimos ao Criador de todas as coisas que conserve íntegro o número de seus eleitos em todo o mundo, por meio de seu amado Filho, Jesus Cristo. Por ele, fomos chamados das trevas para a luz, da ignorância para o conhecimento de seu nome glorioso.

Concedei-nos, Senhor, a graça de esperar em vosso nome, princípio de toda criatura. Abertos os olhos de nosso coração, conheçamos a vós somente, altíssimo entre os altíssimos, santo a repousar entre os santos.

Vós humilhais a arrogância dos soberbos. Arrasais os planos dos pagãos. Elevais os humildes e humilhais os poderosos, fazeis os ricos e os pobres. Levais à morte, salvais e vivificais, único benfeitor dos espíritos e Deus de toda a carne. Vós contemplais os abismos e observais as obras dos homens. Sois o auxílio dos que estão em perigo, salvador dos desesperados, criador e guarda de todas as almas.

Multiplicais os povos pela terra e, entre todos, escolheis aqueles que vos amam, por Jesus Cristo, vosso Filho amado, por quem nos renovais, santificais e cobris de honra. Nós vos rogamos, Senhor, que sejais o nosso “sustentáculo e auxílio”. Libertai os nossos que estão atribulados. Compadecei-vos dos pequeninos. Levantai os caídos. Sustentai os indigentes. Sarai os doentes. Fazei voltar os que se desgarram de vosso povo. Dai de comer aos famintos. Tirai da prisão nossos cativos. Erguei os fracos, confortai os medrosos. Todas as nações vos conheçam, porque só vós sois Deus, e conheçam igualmente a Jesus Cristo, vosso Filho, e com elas também nós, o vosso povo e as ovelhas do vosso rebanho.

Por vossas obras manifestastes a perene constituição do mundo. Vós, Senhor, criastes o globo terrestre. Sois fiel para com todas as gerações, justo nos julgamentos, admirável de força e de magnificência. Sois cheio de sabedoria ao criar e prudente em firmar as coisas criadas. Sois bom em tudo quanto é visível, fiel para com aqueles que em vós confiam, benigno e misericordioso. Perdoai nossas infidelidades e injustiças, nossos pecados e delitos.

Não acuseis de pecado vossos servos e vossas servas, mas purificai-nos em vossa verdade e conduzi nossos passos para caminharmos com piedade, justiça e simplicidade de coração, fazendo tudo o que é bom e agradável a vossos olhos e diante de nossos pastores. Sobretudo, Senhor, mostrai-nos vossa face e possamos nós gozar dos bens na paz à sombra de vossa mão poderosa; por vosso braço estendido sejamos livres de todo pecado; guardai-nos daqueles que nos odeiam sem motivo.

Dai-nos concórdia e paz, a nós e a todos os habitantes da terra, como as destes a nossos antepassados, que piedosamente vos invocavam na fé e na verdade. Unicamente vós podeis agir assim e ainda maiores benefícios realizar em nosso favor. Nós vos louvamos pelo pontífice e protetor de nossas vidas, Jesus Cristo. Por ele glória e majestade a vós agora, por todas as gerações e por todos os tempos. Amém."

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Eu creio - Parte 1

Muitas vezes e de muitas partes, recebo pedidos para postar alguns comentários às expressões que aparecem na profissão de fé da Igreja. Geralmente, após rezarem o "creio em Deus Pai...", não são poucos aqueles que se perguntam a respeito do significado das palavras que dizem. Tentaremos nas próximas postagens explicar - de maneira sintética e clara - o significado básico daquilo em que afirmamos acreditar.

Antes porém, vale a pena fazer algumas observações que podem ajudar a quem deseja entender melhor a fé. Quando usamos essa palavra podemos nos referir, minimamente, a duas realidades distintas, mas que se complementam: a fé na qual eu creio e a fé com a qual eu creio.

A fé na qual eu creio nos leva a considerar o conteúdo daquilo em que cremos, ou seja, tudo quanto Deus, em seu desígnio de amor, quis revelar e que nos foi transmitido pela Igreja. É basicamente disso que trataremos nas postagens seguintes.

Mas, ao falar da iniciativa amorosa de Deus que se revela, é impossível não tratarmos da necessária resposta que somos chamados a dar a Ele. Daí nasce a fé com a qual eu creio. Nesse sentido, ela é antes de tudo uma graça infundida por Deus no coração dos fiéis que requer uma adesão pessoal e livre a tudo quanto o Senhor nos revelou. Com isso, já é possível perceber que ao lado do "eu creio", há sempre um "nós cremos"; isso porque apesar de uma adesão pessoal, nós sempre cremos com toda a Igreja e dentro dela.



Na próxima postagem, falaremos sobre a primeira parte de nossa profissão de fé: "Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra". Procuraremos analisar o significado dessa afirmação, sempre numa atitude orante que nos leva a repetir as palavras do Evangelho: "Senhor, eu creio, mas aumentai a minha fé" (cf. Mc 9, 24; Lc 17,5).

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Nossa Senhora da Conceição Aparecida

"O que a fé católica crê a respeito de Maria fundamenta-se no que ela crê a respeito de Cristo, mas o que a fé ensina sobre Maria, por sua vez, ilumina sua fé em Cristo" (Catecismo da Igreja Católica, nº 487)


Acolhei, ó Deus, as preces e oferendas apresentadas em honra de Maria, Mãe de Jesus Cristo, vosso Filho; concedei que elas vos sejam agradáveis e nos tragam a graça da vossa proteção. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

Deus te alcançou! - Conclusão

Se compreender que Deus não só quis se revelar a nós, mas que o fez tão somente por amor, é uma notícia que nos deixa realmente muito feliz, melhor ainda é saber que essa demonstração de amor, essa tão boa notícia alcança um momento ainda mais forte em Jesus, o Cristo.

Jesus, o Cristo, é o Filho de Deus feito homem, a única e excelsa Palavra do Pai, perfeita e insuperável. Ele é a manifestação perfeita de Deus, o ato de amor mais sublime por todo o ser humano. Basta reconhecer que nele, o divino se encontra com o humano de maneira absolutamente perfeita e bela!

Podemos concluir, portanto, essa série de postagens sobre o modo como Deus se revela a nós, afirmando que Jesus é a plenitude dessa Revelação, é tudo quanto podemos e precisamos conhecer do mistério de Deus. No entanto, o mistério que nos foi dado conhecer, ainda não foi explicitado por completo. E eis a tarefa da Igreja para todos os séculos: captar todo o alcance do mistério de Deus em Jesus Cristo e anunciá-lo aos homens de todos os tempos.


Além de um belo caminho a percorrer, é também uma tarefa desafiadora. É, sobretudo, uma missão, em cuja aventura não há como nos negar em apostarmos nossa vida inteira. Eu quero apostar a minha! E você?

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

domingo, 3 de outubro de 2010

Deus te alcançou! - Parte 2

Na verdade, desde o princípio Deus se deu a conhecer de uma maneira prodigiosa. Quando criou o mundo, Ele proporcionou aos homens um permanente testemunho de si. De fato, desde a mais longínqua estrela do universo até o mais profundo dos oceanos, tudo fala da existência de Deus! Mas não é só isso! Deus manifestou, de maneira toda especial, o mistério de sua pessoa aos nossos primeiros pais (cf. Gn 1,26), convidando-os a uma íntima comunhão com Ele, revestindo-os de uma graça incomparável!

E nem mesmo o pecado foi capaz de interromper essa Revelação de Deus. Apesar de termos perdido sua amizade, Ele não nos abandonou à sentença de morte que merecíamos, mas nos propôs muitas vezes alianças de amor com Ele.

Assim foi nos tempos de Noé (cf. Gn 9, 12-13): a aliança que Deus estabelece com ele e com toda sua descendência marca o início da ação divina para salvar a todos do pecado. Foi assim também com Abraão (cf. Gn 12,3): para unir a humanidade que havia se dispersado, Deus o chama para torná-lo pai desse novo povo. E quando esse povo foi escravizado pelos egípcios, Deus os liberta por meio de Moisés, estabelecendo com ele uma outra aliança no alto do Monte Sinai (cf. Ex 19,5).

Por meio dos profetas, Deus foi formando seu povo na esperança da salvação, na expectativa de uma nova aliança, não mais como as anteriores, mas de uma aliança que fosse eterna, diante da qual pecado algum pudesse romper. Essa aliança definitiva, Deus a estabeleceu quando enviou seu próprio Filho. É isso que lemos na carta aos hebreus: "Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos, por meio dos profetas, aos nossos pais, agora, nesses últimos dias, Deus nos falou por meio de seu Filho" (Hb 1,1-2).


Jesus é, portanto, a expressão máxima da aliança de amor entre Deus e os homens. Ele é a manifestação plena do mistério de Deus. O título dessas nossas postagens é "Deus te alcançou!". Pois bem. Podemos dizer com propriedade que Deus nos alcançou, de verdade, em Jesus! Deus nos encontrou em Jesus! Por isso é que no início do Evangelho de João, nós recordamos: "a Palavra de Deus se fez homem e veio habitar no meio de nós!" (Jo 1,14).

Já agradeceu a Deus por isso, hoje? Mãos à obra...

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.