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domingo, 1 de abril de 2012

Domingo de Ramos

Queridos irmãos e irmãs!

O Domingo de Ramos é o grande portal de entrada na Semana Santa, a semana em que o Senhor Jesus caminha até ao ponto culminante da sua existência terrena. Ele sobe a Jerusalém para dar pleno cumprimento às Escrituras e ser pregado no lenho da cruz, o trono donde reinará para sempre, atraindo a Si a humanidade de todos os tempos e oferecendo a todos o dom da redenção. Sabemos, pelos Evangelhos, que Jesus Se encaminhara para Jerusalém juntamente com os Doze e que, pouco a pouco, se foi unindo a eles uma multidão cada vez maior de peregrinos. São Marcos refere que, já à saída de Jericó, havia uma «grande multidão» que seguia Jesus (cf. 10, 46).

Nesta última parte do percurso, tem lugar um acontecimento singular, que aumenta a expectativa sobre aquilo que está para suceder, fazendo com que a atenção geral se concentre ainda mais em Jesus. À saída de Jericó, na beira do caminho, está sentado pedindo esmola um cego, chamado Bartimeu. Quando ouve dizer que Jesus de Nazaré estava chegando, começa a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim!» (Mc 10, 47). Procuram silenciá-lo, mas sem sucesso; por fim Jesus manda-o chamar, convidando-o a aproximar-se. «O que queres que Eu te faça?» - pergunta-lhe. E ele: «Mestre, que eu veja!» (v. 51).

Jesus responde: «Vai, a tua fé te curou». Bartimeu recuperou a vista e começou a seguir Jesus pela estrada (cf. v. 52). Depois deste sinal prodigioso precedido pela invocação «Filho de David», de improviso levanta-se um frêmito de esperança messiânica no meio da multidão, fazendo com que muitos se perguntassem: Poderia este Jesus, que caminhava à sua frente para Jerusalém, ser o Messias, o novo David? Porventura teria chegado, com esta sua entrada já iminente na cidade santa, o momento em que Deus iria finalmente restaurar o reino de David?

Também a preparação da entrada, combinada por Jesus com os seus discípulos, ajuda a aumentar esta esperança. Como ouvimos no Evangelho de hoje (cf.Mc 11,1-10), Jesus chega a Jerusalém vindo de Betfagé e do Monte das Oliveiras, isto é, seguindo a estrada por onde deveria vir o Messias. De Betfagé, Ele envia à sua frente dois discípulos, com a ordem de Lhe trazerem um jumentinho que encontrarão no caminho. De fato encontram o jumentinho, soltam-no e levam-no a Jesus. Naquele momento, o entusiasmo apodera-se dos discípulos e também dos outros peregrinos: pegam nos seus mantos e colocam-nos uns sobre o jumentinho e outros estendidos no caminho por onde Jesus passa montado no jumento. Depois cortam ramos das árvores e começam a apregoar expressões do Salmo 118, antigas palavras de bênção dos peregrinos que, naquele contexto, se tornam uma proclamação messiânica: «Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!

Bendito seja o reino que vem, o reino de nosso pai David! Hosana no mais alto dos céus!» (vv. 9-10). Esta aclamação festiva, transmitida pelos quatro evangelistas, é um brado de bênção, um hino de exultação: exprime a convicção unânime de que, em Jesus, Deus visitou o seu povo e que o Messias ansiado finalmente chegou. E todos permanecem lá, numa crescente expectativa da ação que Cristo realizará quando entrar na sua cidade.

Mas qual é o conteúdo, o sentido mais profundo deste grito de júbilo? A resposta é-nos dada pela Escritura no seu conjunto, quando nos lembra que no Messias se cumpre a promessa da bênção de Deus, a promessa feita por Deus originariamente a Abraão, o pai de todos os crentes: «Farei de ti um grande povo e te abençoarei (...). Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra!» (Gn 12, 2-3). Trata-se de uma promessa que Israel mantivera sempre viva na oração, especialmente na oração dos Salmos. Por isso, Aquele que a multidão aclama como o Bendito é, ao mesmo tempo, Aquele em quem será abençoada a humanidade inteira. Assim, na luz de Cristo, a humanidade reconhece-se profundamente unida e, de certo modo, envolvida pelo manto da bênção divina, uma bênção que tudo permeia, tudo sustenta, tudo redime, tudo santifica.

E aqui podemos descobrir uma primeira grande incumbência que nos chega da festa de hoje: o convite a adotar a visão reta sobre a humanidade inteira, sobre os povos que formam o mundo, sobre suas diversas culturas e civilizações. A visão que o crente recebe de Cristo é um olhar de bênção: um olhar sapiencial e amoroso, capaz de captar a beleza do mundo e condoer-se da sua fragilidade.

Nesta visão, manifesta-se o próprio olhar de Deus sobre os homens que Ele ama e sobre a criação, obra das suas mãos. Lemos no Livro da Sabedoria: «De todos tens compaixão, porque tudo podes, e fechas os olhos aos pecados dos mortais, para que se arrependam. Sim, amas tudo o que existe e não desprezas nada do que fizeste; (...) a todos, porém, tratas com bondade, porque tudo é teu, Senhor amigo da vida» (Sb 11, 23-24.26).

Voltando à passagem do Evangelho de hoje, perguntemo-nos: Que pensavam, realmente, em seus corações aqueles que aclamam Cristo como Rei de Israel? Certamente tinham a sua idéia própria do Messias, uma idéia do modo como devia agir o Rei prometido pelos profetas e há muito esperado. Não foi por acaso que a multidão em Jerusalém, poucos dias depois, em vez de aclamar Jesus, grita para Pilatos: «Crucifica-O!», enquanto os próprios discípulos e os outros que O tinham visto e ouvido ficam mudos e confusos. Na realidade, a maioria ficara desapontada com o modo escolhido por Jesus para Se apresentar como Messias e Rei de Israel. É precisamente aqui que se situa o ponto fulcral da festa de hoje, mesmo para nós. Para nós, quem é Jesus de Nazaré? Que idéia temos do Messias, que idéia temos de Deus? Esta é uma questão crucial, que não podemos evitar, até porque, precisamente nesta semana, somos chamados a seguir o nosso Rei que escolhe a cruz como trono; somos chamados a seguir um Messias que não nos garante uma felicidade terrena fácil, mas a felicidade do céu, a bem-aventurança de Deus. Por isso devemos perguntar-nos: Quais são as nossas reais expectativas? Quais são os desejos mais profundos que nos animaram a vir aqui, hoje, celebrar o Domingo de Ramos e iniciar a Semana Santa?

Queridos jovens, aqui reunidos! Em todos os lugares da terra onde a Igreja está presente, este Dia é especialmente dedicado a vós. Por isso, vos saúdo com muito carinho! Que o Domingo de Ramos possa ser para vós o dia da decisão: a decisão de acolher o Senhor e segui-Lo até ao fim, a decisão de fazer da sua Páscoa de morte e ressurreição o sentido da vossa vida de cristãos. Tal é a decisão que leva à verdadeira alegria, como quis recordar na Mensagem aos Jovens para este seu Dia - «Alegrai-vos sempre no Senhor» (Flp 4, 4) -, e como se vê na vida de Santa Clara de Assis, que há oitocentos anos – exatamente no Domingo de Ramos –, movida pelo exemplo de São Francisco e dos seus primeiros companheiros, deixou a casa paterna para consagrar-se totalmente ao Senhor: com dezoito anos, teve a coragem da fé e do amor para se decidir por Cristo, encontrando n’Ele a alegria e a paz.

Queridos irmãos e irmãs, dois sentimentos nos animem particularmente nestes dias: o louvor, como fizeram aqueles que acolheram Jesus em Jerusalém com o seu «Hosana»; e a gratidão, porque, nesta Semana Santa, o Senhor Jesus renovará o dom maior que se possa imaginar: dar-nos-á a sua vida, o seu corpo e o seu sangue, o seu amor. Mas um dom assim tão grande exige que o retribuamos adequadamente, ou seja, com o dom de nós mesmos, do nosso tempo, da nossa oração, do nosso viver em profunda comunhão de amor com Cristo que sofre, morre e ressuscita por nós. Os antigos Padres da Igreja viram um símbolo de tudo isso num gesto das pessoas que acompanhavam Jesus na sua entrada em Jerusalém: o gesto de estender os mantos diante do Senhor. O que devemos estender diante de Cristo – diziam os Padres - é a nossa vida, ou seja, a nós mesmos, em sinal de gratidão e adoração. Para concluir, escutemos o que diz um desses antigos Padres, Santo André, Bispo de Creta: «Em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de arbustos que alegram o olhar por pouco tempo, mas depressa perdem o seu vigor, prostremo-nos nós mesmos aos pés de Cristo, revestidos da sua graça, ou melhor, revestidos d’Ele mesmo (…); sejamos como mantos estendidos a seus pés (…), para oferecermos ao vencedor da morte não já ramos de palmeira, mas os troféus da sua vitória. Agitando os ramos espirituais da alma, aclamemo-Lo todos os dias, juntamente com as crianças, dizendo estas santas palavras: “Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel”» (PG 97, 994). Amém! (Papa Bento XVI, aos 1º de abril de 2012)

sábado, 15 de janeiro de 2011

Da Carta aos Coríntios de São Clemente I, Papa


Com decisão firmemo-nos na bênção de Deus e procuremos ver quais os caminhos desta bênção. Com toda a atenção repassemos no espírito aquilo que desde o início se fez. Por que motivo foi abençoado nosso pai Abraão? Não foi por ter realizado a justiça e a verdade pela fé? Isaac, cheio de confiança, embora soubesse o que ia acontecer, de bom grado deixou-se oferecer em sacrifício. Jacó, com humildade, afastou-se de sua terra, por causa do irmão, e partiu para junto de Labão a quem serviu. Por isso lhe foram dados os doze cetros de Israel.

Se alguém considerar honestamente, um a um, os dons concedidos através de Abraão, entenderá a sua grandeza. Porque dele vêm todos os sacerdotes e levitas que servem ao altar de Deus; dele, segundo a carne, veio o Senhor Jesus; dele vieram os reis, príncipes e chefes de cada família de Judá. Isto sem que as outras tribos tenham menor honra, pois o Senhor prometeu a Abraão: a tua posteridade será numerosa como as estrelas do céu.

Todos esses alcançaram glória e majestade, não por obras ou ações justas que tenham praticado, mas por vontade do Senhor. Por isso, também nós, chamados por esta vontade, no Cristo Jesus, não nos justificamos a nós mesmos por causa de nossa sabedoria, ou inteligência, ou piedade, ou ações que tenhamos feito pela santidade do coração, mas apenas pela fé, pela qual Deus onipotente a todos justificou desde o início. A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Que faremos então, irmãos? Vamos deixar de lado as boas obras e largar a caridade? De jeito nenhum! Que o Senhor não o permita! Mas com zelo e alegre coragem apressemo-nos em realizar tudo o que é bom. Pois o Realizador e Senhor de tudo se alegra com suas obras. Por seu altíssimo e imenso poder estendeu os céus e com incompreensível sabedoria os adornou. Separou a terra das águas que a rodeavam, e, sobre o imóvel fundamento de sua vontade, a firmou. Por sua ordem, os animais que a recobrem começaram a existir. Também, tendo criado o mar e tudo o que nele vive, abraça-os com seu poder.

Acima de tudo, suas puras e santas mãos formaram a criatura por excelência, dotada de inteligência: o homem, selo de sua imagem. Pois assim falou Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança; e Deus criou o homem, homem e mulher os criou. Terminadas todas essas obras, louvou-as e as abençoou, dizendo: Crescei e multiplicai-vos. Reparemos que todos os justos, se adornaram de boas obras, e o próprio Senhor, adornando-se, alegrou-se com a beleza de sua criação. Diante, pois, de tal modelo, caminhemos atentos à sua vontade e façamos com todas as nossas forças a obra da justiça.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Discurso contra os Gentios (Santo Atanásio) - Continuação


Nada há absolutamente de quanto existe que não tenha sido feito nele e por ele. O Teólogo no-lo ensina pelas palavras: No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada se fez (Jo 1,1).

O musicista, com uma harpa bem afinada, combina artisticamente os sons graves com os agudos e os médios, de modo a produzir uma só harmonia. Assim também, a Sabedoria de Deus, empunhando todo o universo como uma harpa, conjuga as coisas aéreas com as terrenas e as celestes com as aéreas, ligando o todo com suas partes.

Assim, dirigindo tudo por um aceno de sua vontade, produz um só universo, um universo com sua ordem cheia de beleza e de harmonia. Entretanto ele mesmo, Verbo de Deus, permanece sempre imóvel junto do Pai, enquanto tudo se move dentro da força da respectiva natureza, segundo o agrado do Pai. Por seu dom, tudo vive e se mantém conforme sua natureza, compondo assim, por ele, uma admirável harmonia, verdadeiramente divina.

Só por comparação podemos entender uma realidade tão imensa! Por exemplo: num coro numeroso, com muitos homens, mulheres, crianças, velhos e adolescentes, sob a direção de um só, todos cantam conforme sua capacidade e estado, homem como homem, criança como criança, velho como velho, jovem como jovem. No entanto, todos formam uma só harmonia. Outro exemplo: como nossa alma, ao mesmo tempo, move nossos sentidos segundo suas propriedades. Na presença de alguma coisa, todos eles se movimentam: os olhos vêem, os ouvidos escutam, as mãos tocam, o olfato percebe, o paladar prova e mesmo os outros membros muitas vezes agem, por exemplo, os pés caminham. Assim acontece nas coisas naturais. Estas são imagens, embora fraquíssimas, que nos ajudam a perceber as realidades mais altas.

Na verdade, num instante, um só aceno do Verbo de Deus rege todas as coisas ao mesmo tempo, de forma que cada ser realiza o que lhe é próprio e todos em conjunto perfazem uma só harmonia.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Discurso contra os Gentios (Santo Atanásio)


O Pai santíssimo de Cristo – sem comparações mais excelente do que toda a criatura – como ótimo criador, tudo governa, dispõe e faz convenientemente o que lhe parece justo, por sua sabedoria e por seu Verbo, Cristo, nosso Senhor e Salvador. Assim é bom que tudo tenha sido e venha a ser feito como vemos. Que ele o tenha querido assim, ninguém pode duvidar. Porque, se o movimento dos seres criados se fizesse desordenadamente e o mundo girasse ao acaso, com toda a razão se negaria crédito ao que declaramos. Mas, se com medida, sabedoria e ciência o mundo foi criado e enriquecido de toda beleza, não há como fugir que este criador e aperfeiçoador é o próprio Verbo de Deus.

Afirmo que o Verbo do Deus do universo e de todo o bem é o Deus vivo e eficaz que existe por si próprio. Distinto de todo o criado, ele é o próprio e único Verbo do Pai de bondade, por cuja providência o mundo inteiro, por ele feito, é iluminado. Ele, que é o bom Verbo do bom Pai, estabeleceu a ordem de todas as coisas, uniu entre si os contrários, compondo assim grande harmonia. Este único e unigênito é Deus: a bondade que procede do Pai, como de fonte do bem, e adorna, dispõe e mantém todo o universo.

Aquele que por seu eterno Verbo tudo fez, fazendo existir as criaturas cada qual conforme a própria natureza, não permitiu que elas se movessem arbitrariamente, a fim de que não retornassem ao nada; por isso, ele, que é o bem, por meio do seu Verbo, Deus como ele, governa e conserva toda a criação. Deste modo, a criação, iluminada pelo governo, providência e administração do Verbo, pode permanecer firme e manter- se coesa. Portanto, a criação, obra do Verbo do Pai – Verbo que é o próprio ser – dele participa e é por ele auxiliada, a fim de não cessar de existir, o que aconteceria, caso não fosse guardada pelo Verbo, que é a imagem do Deus invisível, primogênito de toda criatura. Por ele e nele tudo existe, tanto as coisas visíveis quanto as invisíveis. Ele é também a cabeça da Igreja, como ensinam os ministros da verdade nas Sagradas Escrituras.

Por conseguinte, este todo-poderoso e santíssimo Verbo do Pai, penetrando em tudo, desdobra por toda a parte as suas forças, e ilumina todas as coisas visíveis e invisíveis. Em si mesmo contém e abraça todas, de modo que não deixa nada alheio a seu poder, mas em tudo e por tudo, a cada um em particular e a todos em conjunto concede a vida e a proteção.

Santo Atanásio (*295 - +373)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Do Tratado contra as Heresias, de Santo Irineu, bispo

"Ninguém pode conhecer o Pai sem o Verbo de Deus, isto é, sem o Filho que o revela. Também não se conhece o Filho sem a vontade do Pai. O Filho faz a vontade do Pai, pois o Pai o envia. O Filho é enviado e vem a nós. Assim o Pai, que é para nós invisível e incognoscível, torna-se conhecido por seu próprio Verbo.

Ora, só o Pai conhece seu Verbo, como o manifestou o Senhor. Por isto o Filho nos leva ao conhecimento do Pai mediante a sua própria encarnação. Com efeito, a manifestação do Filho é o
conhecimento do Pai.

Na verdade, tudo nos é revelado pelo Verbo. O Pai revelou o Filho para se dar a conhecer a todos por meio dele. Mais ainda: a fim de acolher, em toda justiça, para a ressurreição eterna, os que nele crêem. Crer nele é viver segundo sua vontade. De fato, o Verbo já revela o Deus criador pela própria criação; pelo mundo, o Senhor que o construiu; pela criatura plasmada, o artífice que a plasmou; e pelo Filho, o Pai que o gerou.

Destas coisas todos falam do mesmo modo, mas não crêem todos do mesmo modo. Pela lei e os profetas, o Verbo, igualmente, anunciava-se a si e ao Pai. Todo o povo do mesmo modo o ouviu, mas não creram todos do mesmo modo. Pelo Verbo, tornado visível e palpável, o Pai se revelou, embora nem todos cressem nele do mesmo modo. Todos, porém, viram o Pai no Filho.

A realidade invisível que se manifestava no Filho era o Pai, e a realidade visível na qual o Pai se revelou era o Filho. O Filho tudo perfaz do princípio ao fim para o Pai, e sem ele ninguém pode conhecer a Deus. O conhecimento do Pai é o Filho. O conhecimento do Filho pertence ao Pai e é
revelado pelo Filho.

Por este motivo, o Senhor dizia: Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai; nem o Pai a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho revelar. Revelar não se refere apenas ao futuro como se o Verbo só tivesse começado a revelar o Pai quando nasceu de Maria. De fato, o Verbo se encontra universalmente e em todo o tempo.

No início, sendo o Filho presente à sua criatura, ele revela o Pai a todos a quem o Pai quer, quando quer e como quer. Em tudo e por tudo, há um só Deus, o Pai, e um só Verbo, o Filho, e um só Espírito e uma única salvação para todos os que nele crêem."

Santo Irineu, bispo (*130 +202)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Da Regra de São Basílio Magno, bispo

"O amor de Deus não é matéria de ensino nem de prescrições. Não aprendemos de outrem a alegrar-nos com a luz, ou a desejar a vida, ou a amar os pais ou educadores. Assim – ou melhor, com muito mais razão –, não se encontra o amor de Deus na disciplina exterior. Mas, quando é criado, o ser vivo, isto é, o homem, a força da razão foi, como semente, inserida nele, uma força que contém em si a capacidade e a inclinação de amar.

Logo que entra na escola dos divinos preceitos, o homem toma conhecimento desta força, apressando-se em cultivá-la com ardor, nutri-la com sabedoria e levá-la à perfeição, com o auxílio de Deus.

Sendo assim, queremos provar vosso empenho em atingir este objetivo. Pela graça de Deus e contando com as vossas preces, nós nos esforçaremos, segundo a capacidade dada pelo Espírito Santo, por suscitar a centelha do amor divino escondida em vós.

Antes de mais nada, nós dele recebemos antecipadamente a força e a capacidade de pôr em prática todos os mandamentos que Deus nos deu. Por isso não nos aflijamos como se nos fosse exigido algo de incomum, nem nos tornemos vaidosos pensando que damos mais do que havíamos recebido. Se usarmos bem destas forças, levaremos uma vida virtuosa; no entanto, mal empregadas, cairemos no pecado.

Ora, o pecado se define como o mau uso, o uso contrário à vontade de Deus daquilo que ele nos deu para o bem. Pelo contrário, a virtude, como Deus a quer, é o desenvolvimento destas faculdades que brotam da consciência reta, segundo o preceito do Senhor.

O mesmo diremos da caridade. Ao recebermos o mandamento de amar a Deus, já possuímos capacidade de amar, plantada em nós desde a primeira criação. Não há necessidade de provas externas: cada qual por si e em si mesmo pode descobri-la. De fato, nós desejamos, naturalmente, as coisas boas e belas, embora, à primeira vista, algumas pareçam boas e belas a uns e não a outros. Amamos também, sem ser necessário que nos ensinem nossos parentes e amigos e temos espontaneamente grande amizade por nossos benfeitores.

O que haverá, pergunto então, de mais admirável do que a beleza divina? Que coisa pode haver mais suave e deliciosa do que a meditação da magnificência de Deus? Que desejo será mais veemente e violento do que aquele inserido por Deus na alma liberta de toda impureza e que lhe faz dizer do fundo do coração: Estou ferida de amor? É na verdade totalmente indescritível o fulgor da beleza de Deus."

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Da Carta de São Clemente I, papa, aos Coríntios


"Com orações e súplicas incessantes, pedimos ao Criador de todas as coisas que conserve íntegro o número de seus eleitos em todo o mundo, por meio de seu amado Filho, Jesus Cristo. Por ele, fomos chamados das trevas para a luz, da ignorância para o conhecimento de seu nome glorioso.

Concedei-nos, Senhor, a graça de esperar em vosso nome, princípio de toda criatura. Abertos os olhos de nosso coração, conheçamos a vós somente, altíssimo entre os altíssimos, santo a repousar entre os santos.

Vós humilhais a arrogância dos soberbos. Arrasais os planos dos pagãos. Elevais os humildes e humilhais os poderosos, fazeis os ricos e os pobres. Levais à morte, salvais e vivificais, único benfeitor dos espíritos e Deus de toda a carne. Vós contemplais os abismos e observais as obras dos homens. Sois o auxílio dos que estão em perigo, salvador dos desesperados, criador e guarda de todas as almas.

Multiplicais os povos pela terra e, entre todos, escolheis aqueles que vos amam, por Jesus Cristo, vosso Filho amado, por quem nos renovais, santificais e cobris de honra. Nós vos rogamos, Senhor, que sejais o nosso “sustentáculo e auxílio”. Libertai os nossos que estão atribulados. Compadecei-vos dos pequeninos. Levantai os caídos. Sustentai os indigentes. Sarai os doentes. Fazei voltar os que se desgarram de vosso povo. Dai de comer aos famintos. Tirai da prisão nossos cativos. Erguei os fracos, confortai os medrosos. Todas as nações vos conheçam, porque só vós sois Deus, e conheçam igualmente a Jesus Cristo, vosso Filho, e com elas também nós, o vosso povo e as ovelhas do vosso rebanho.

Por vossas obras manifestastes a perene constituição do mundo. Vós, Senhor, criastes o globo terrestre. Sois fiel para com todas as gerações, justo nos julgamentos, admirável de força e de magnificência. Sois cheio de sabedoria ao criar e prudente em firmar as coisas criadas. Sois bom em tudo quanto é visível, fiel para com aqueles que em vós confiam, benigno e misericordioso. Perdoai nossas infidelidades e injustiças, nossos pecados e delitos.

Não acuseis de pecado vossos servos e vossas servas, mas purificai-nos em vossa verdade e conduzi nossos passos para caminharmos com piedade, justiça e simplicidade de coração, fazendo tudo o que é bom e agradável a vossos olhos e diante de nossos pastores. Sobretudo, Senhor, mostrai-nos vossa face e possamos nós gozar dos bens na paz à sombra de vossa mão poderosa; por vosso braço estendido sejamos livres de todo pecado; guardai-nos daqueles que nos odeiam sem motivo.

Dai-nos concórdia e paz, a nós e a todos os habitantes da terra, como as destes a nossos antepassados, que piedosamente vos invocavam na fé e na verdade. Unicamente vós podeis agir assim e ainda maiores benefícios realizar em nosso favor. Nós vos louvamos pelo pontífice e protetor de nossas vidas, Jesus Cristo. Por ele glória e majestade a vós agora, por todas as gerações e por todos os tempos. Amém."

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Eu creio - Parte 1

Muitas vezes e de muitas partes, recebo pedidos para postar alguns comentários às expressões que aparecem na profissão de fé da Igreja. Geralmente, após rezarem o "creio em Deus Pai...", não são poucos aqueles que se perguntam a respeito do significado das palavras que dizem. Tentaremos nas próximas postagens explicar - de maneira sintética e clara - o significado básico daquilo em que afirmamos acreditar.

Antes porém, vale a pena fazer algumas observações que podem ajudar a quem deseja entender melhor a fé. Quando usamos essa palavra podemos nos referir, minimamente, a duas realidades distintas, mas que se complementam: a fé na qual eu creio e a fé com a qual eu creio.

A fé na qual eu creio nos leva a considerar o conteúdo daquilo em que cremos, ou seja, tudo quanto Deus, em seu desígnio de amor, quis revelar e que nos foi transmitido pela Igreja. É basicamente disso que trataremos nas postagens seguintes.

Mas, ao falar da iniciativa amorosa de Deus que se revela, é impossível não tratarmos da necessária resposta que somos chamados a dar a Ele. Daí nasce a fé com a qual eu creio. Nesse sentido, ela é antes de tudo uma graça infundida por Deus no coração dos fiéis que requer uma adesão pessoal e livre a tudo quanto o Senhor nos revelou. Com isso, já é possível perceber que ao lado do "eu creio", há sempre um "nós cremos"; isso porque apesar de uma adesão pessoal, nós sempre cremos com toda a Igreja e dentro dela.



Na próxima postagem, falaremos sobre a primeira parte de nossa profissão de fé: "Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra". Procuraremos analisar o significado dessa afirmação, sempre numa atitude orante que nos leva a repetir as palavras do Evangelho: "Senhor, eu creio, mas aumentai a minha fé" (cf. Mc 9, 24; Lc 17,5).

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Nossa Senhora da Conceição Aparecida

"O que a fé católica crê a respeito de Maria fundamenta-se no que ela crê a respeito de Cristo, mas o que a fé ensina sobre Maria, por sua vez, ilumina sua fé em Cristo" (Catecismo da Igreja Católica, nº 487)


Acolhei, ó Deus, as preces e oferendas apresentadas em honra de Maria, Mãe de Jesus Cristo, vosso Filho; concedei que elas vos sejam agradáveis e nos tragam a graça da vossa proteção. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.

Deus te alcançou! - Conclusão

Se compreender que Deus não só quis se revelar a nós, mas que o fez tão somente por amor, é uma notícia que nos deixa realmente muito feliz, melhor ainda é saber que essa demonstração de amor, essa tão boa notícia alcança um momento ainda mais forte em Jesus, o Cristo.

Jesus, o Cristo, é o Filho de Deus feito homem, a única e excelsa Palavra do Pai, perfeita e insuperável. Ele é a manifestação perfeita de Deus, o ato de amor mais sublime por todo o ser humano. Basta reconhecer que nele, o divino se encontra com o humano de maneira absolutamente perfeita e bela!

Podemos concluir, portanto, essa série de postagens sobre o modo como Deus se revela a nós, afirmando que Jesus é a plenitude dessa Revelação, é tudo quanto podemos e precisamos conhecer do mistério de Deus. No entanto, o mistério que nos foi dado conhecer, ainda não foi explicitado por completo. E eis a tarefa da Igreja para todos os séculos: captar todo o alcance do mistério de Deus em Jesus Cristo e anunciá-lo aos homens de todos os tempos.


Além de um belo caminho a percorrer, é também uma tarefa desafiadora. É, sobretudo, uma missão, em cuja aventura não há como nos negar em apostarmos nossa vida inteira. Eu quero apostar a minha! E você?

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

domingo, 3 de outubro de 2010

Deus te alcançou! - Parte 2

Na verdade, desde o princípio Deus se deu a conhecer de uma maneira prodigiosa. Quando criou o mundo, Ele proporcionou aos homens um permanente testemunho de si. De fato, desde a mais longínqua estrela do universo até o mais profundo dos oceanos, tudo fala da existência de Deus! Mas não é só isso! Deus manifestou, de maneira toda especial, o mistério de sua pessoa aos nossos primeiros pais (cf. Gn 1,26), convidando-os a uma íntima comunhão com Ele, revestindo-os de uma graça incomparável!

E nem mesmo o pecado foi capaz de interromper essa Revelação de Deus. Apesar de termos perdido sua amizade, Ele não nos abandonou à sentença de morte que merecíamos, mas nos propôs muitas vezes alianças de amor com Ele.

Assim foi nos tempos de Noé (cf. Gn 9, 12-13): a aliança que Deus estabelece com ele e com toda sua descendência marca o início da ação divina para salvar a todos do pecado. Foi assim também com Abraão (cf. Gn 12,3): para unir a humanidade que havia se dispersado, Deus o chama para torná-lo pai desse novo povo. E quando esse povo foi escravizado pelos egípcios, Deus os liberta por meio de Moisés, estabelecendo com ele uma outra aliança no alto do Monte Sinai (cf. Ex 19,5).

Por meio dos profetas, Deus foi formando seu povo na esperança da salvação, na expectativa de uma nova aliança, não mais como as anteriores, mas de uma aliança que fosse eterna, diante da qual pecado algum pudesse romper. Essa aliança definitiva, Deus a estabeleceu quando enviou seu próprio Filho. É isso que lemos na carta aos hebreus: "Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos, por meio dos profetas, aos nossos pais, agora, nesses últimos dias, Deus nos falou por meio de seu Filho" (Hb 1,1-2).


Jesus é, portanto, a expressão máxima da aliança de amor entre Deus e os homens. Ele é a manifestação plena do mistério de Deus. O título dessas nossas postagens é "Deus te alcançou!". Pois bem. Podemos dizer com propriedade que Deus nos alcançou, de verdade, em Jesus! Deus nos encontrou em Jesus! Por isso é que no início do Evangelho de João, nós recordamos: "a Palavra de Deus se fez homem e veio habitar no meio de nós!" (Jo 1,14).

Já agradeceu a Deus por isso, hoje? Mãos à obra...

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Deus te alcançou! - Parte 1

Começamos essa pequena série de postagens com uma alegre notícia: Deus se deu a conhecer! Sim, isso mesmo! Por um misterioso desígnio de amor, embora habite em uma luz inacessível (cf. 1Tm 6,16), Deus revela o mistério de sua pessoa a todo o ser humano, doando-se a todos e a cada um.

E Deus assim o faz porque quer nos tornar capazes de conhecê-lo, amá-lo e de responder às suas iniciativas de amor, de um modo muito maior e mais perfeito do que seríamos capazes pelas nossas próprias forças.

E como Deus se revela aos seres humanos? Bem, na verdade, Ele se comunica de modo gradual, numa pedagogia que favoreça seu acolhimento por parte de todo o ser humano. Dessa forma, Deus se revelou por etapas ao longo de toda a história, cuja plenitude se encontra na revelação de Jesus Cristo, o Filho de Deus que se fez ser humano e veio habitar no meio de nós (cf. Jo 1,14).



De fato, "Deus quis, na sua bondade e sabedoria, se revelar a si mesmo e manifestar o mistério de sua vontade: os homens têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina por meio de Cristo, Verbo Encarnado, no Espírito Santo" (Dei Verbum, 2)

A partir da próxima postagem, analisaremos as etapas desse processo amoroso que encontra, em Jesus, seu momento mais sublime.

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Deus está ao teu alcance! - Conclusão

Dissemos, anteriormente, que todo ser humano pode conhecer a Deus a partir de suas próprias capacidades. Na verdade, isso somente é possível justamente pelo fato de que o homem foi criado "à imagem e semelhança de Deus" (cf. Gn 1,27).

Porém, é verdade também que nas condições em que se encontra, o homem enfrenta muitas dificuldades para conhecer a Deus apenas pelo uso da própria razão. Por isso Deus, em seu desígnio de amor, vem em socorro dessa busca, revelando-se ao ser humano, levando-o a conhecer o mistério acerca dele mesmo.

Sim, é verdade! Deus se revelou a todos os seres humanos. Se quiser trilhar o caminho que o leva ao encontro com Deus, além de fazer o uso de sua razão, o homem deverá acolher a revelação de Deus na fé. Daí que podemos entender a beleza e o alcance das palavras com as quais o saudoso Papa João Paulo II iniciou um importante documento, publicado em 1998: "A fé e a razão são como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, pudesse chegar também à verdade plena sobre si mesmo." (Fides et Ratio, 4).

Nesse sentido, se é certo afirmar que "Deus está ao teu alcance", é ainda mais certo dizer que, na verdade, "Deus (já) te alcançou". Ou ainda melhor: Deus só está ao teu alcance porque, antes mesmo que você existisse, Ele já te havia alcançado!

Que tal agradecê-Lo por isso no dia de hoje?

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Deus está ao teu alcance! - Parte 2

Na última postagem, nos recordamos da imagem de um artista que deixa suas marcas na obra que cria, para explicarmos porque está presente no coração humano um profundo desejo de Deus. Vimos também que realizar tal desejo é a único caminho para sermos felizes de verdade.

Hoje queremos falar de outra boa notícia. É que existem algumas "vias de acesso" que facilitam a busca que realizamos de Deus nessa vida. E para saber quais são, o princípio é o mesmo daquele aplicado ao artista. Como saber se tal obra-prima é realmente daquele grande pintor? Pelos "vestígios" que ele deixou na obra que fez...

Onde podemos encontrar os "vestígios" de Deus? Em primeiro lugar, no mundo. Sim, o mundo, obra de suas mãos! Quem diante da beleza da natureza (a imensidão do mar, a paisagem do alto de uma montanha, o nascer ou pôr do sol, por exemplo), não concluiu ser impossível que um cenário tão pleno de ordem e harmonia possa ser apenas produto de um "big-bang" inicial, mas, no fundo, é reflexo de amor de Deus Criador? (cf. Rm 1, 19-20) Além disso, quem de nós não se maravilhou diante da beleza do mistério que se esconde em cada pessoa humana e que ciência alguma é capaz de conhecê-lo em sua totalidade?

Na verdade, tanto o mundo como o ser humano manifestam que não possuem seu princípio e seu fim em si mesmos, ou seja, a beleza e grandeza que revelam nos permitem admitir que não eles são produtos do acaso, mas devem sua origem à Alguém que lhes é superior, ao mesmo tempo em que encontraram seu sentido de ser no mesmo Alguém que lhes deu a origem.

Estamos chamando Deus de "Alguém", justamente para deixar claro que somos capazes, pela nossa própria capacidade em reconhecer seus vestígios, de reconhecer a existência de um Deus absolutamente pessoal. Deus não é uma energia ou uma espécie de força cósmica, mas é uma pessoa, um ser que ama e que manifesta seu amor em tudo aquilo que criou!

No dia de hoje, deixemos que o Amor nos contemple!

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Deus está ao teu alcance! - Parte 1

É triste observar que Deus, no discurso de muita gente, não passa de uma vaga idéia, muito distante das situações do cotidiano de suas vidas. Belas são as palavras do salmista que reconhece exatamente o contrário: "Senhor, tu me sondas e me conheces (...) Para onde irei para estar longe do teu espírito? Para onde fugirei para ficar longe de tua face? Se eu subir aos ceús, ali estás; se eu descer ao abismo, lá te encontrarei." (Sl 139, 1.7-8)

Ao mesmo tempo que tem dificuldade de reconhecê-lo junto de si, o homem experimenta que não se basta, que necessita de algo que o transcenda para completá-lo. O problema é que não reconhecendo que só Deus pode completá-lo, acaba por buscar essa plenitude em outros lugares e endereços. Não foi isso que reconheceu Santo Agostinho em sua própria vida? De fato, olhando para suas próprias buscas, ele reconheceu: "Tu estavas dentro de mim e eu te buscava fora. Eu, deformado, buscava as belas formas de tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo." (Confissões)

O desejo de Deus está inscrito no mais profundo do coração humano. Isso porque o ser humano foi criado por Ele e para Ele. Não é verdade que todo o artista deixa suas marcas na obra que nasce de suas mãos? Ao criar o ser humano, também Deus imprimiu em seu íntimo as marcas da vida divina. Por isso, quando busca a Deus, o homem encontra a verdade sobre si mesmo. E é justamente nessa verdade que o homem encontra a felicidade.

Que tal pensarmos nisso hoje?
Que tal enviar essa mensagem para alguém especial?

Deus abençoe teu dia!
Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.



Senhor, obrigado por nos ter criado à tua imagem e semelhança!
Muito obrigado por nos ter feito de modo maravilhoso!
Nós te louvamos por nos comunicar a sua vida divina
e por nos chamar a viver em comunhão contigo.
Louvores a Ti, Senhor!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Audiência Geral com o Papa [18.11.2009]

Bento XVI
Audiência Geral - Sala Paulo VI (Vaticano)
Quarta-feira, 11 de novembro de 2009



Queridos irmãos e irmãs!

Na catequese da semana passada, eu apresentei alguns aspectos da teologia medieval. Mas a fé cristã, profundamente enraizada nos homens e mulheres daqueles tempos, não deu origem somente a obras-primas da literatura teológica, do pensamento e da fé. Também inspirou uma das maiores criações artísticas da civilização universal: as catedrais, a verdadeira glória da Idade Média cristã. De fato, por quase três séculos, a partir do início do século XI, se testemunhou na Europa um extraordinário fervor artístico. Um antigo cronista descreve o entusiasmo e o trabalho árduo da época: “Aconteceu que em todo o mundo, especialmente na Itália e na Gália, se começou a reconstruir as igrejas, apesar de que muitas, ainda estando em bom estado, não tivessem necessidade de restauração. Era como uma disputa entre um povo e outro; ninguém acreditava que o mundo, sacudindo os trapos velhos, quisesse se revestir por inteiro do manto branco de novas igrejas. Enfim, quase todas as igrejas catedrais, um grande número de igrejas monásticas, e mesmo algumas capelas do interior foram então restauradas pelos fiéis” (Rodolfo, o glaubro, Historiarum 3,4).

Vários fatores contribuíram para este ressurgimento da arquitetura religiosa. Em primeiro lugar, as condições históricas mais favoráveis, tais como uma maior segurança política, acompanhada de um aumento constante da população e do desenvolvimento progressivo das cidades, do comércio e da riqueza. Além disso, os arquitetos identificaram soluções técnicas mais aprimoradas para aumentar o tamanho dos prédios, garantindo-lhes, ao mesmo tempo, a imponência e a majestade. Mas foi principalmente devido ao ardor e ao zelo espiritual do monaquismo em plena expansão que foram elevados igrejas e mosteiros, onde a liturgia podia ser celebrada com dignidade e solenidade e os fiéis podiam fazer uma pausa para a oração, atraídos pela veneração das relíquias de santos, razão das incessantes peregrinações. Assim nasceram as igrejas e catedrais romanas, caracterizadas pela largueza no comprimento dos corredores, para acomodar os numerosos fiéis; grandes igrejas, com paredes espessas, arcos de pedra e de linhas simples e essenciais. Uma novidade é a introdução das esculturas. Sendo as igrejas romanas, o lugar da oração monástica e do culto dos fiéis, os escultores, ao invés de se preocuparem com a perfeição técnica, se importavam de modo especial com a finalidade educativa de suas obras. Já que deviam inspirar nas almas fortes impressões, sentimentos que capazes de encorajá-las a abandonar o vício, o mal e a praticar a virtude, o bem, o tema recorrente era a representação de Cristo como o juiz universal, cercado pelos personagens do Apocalipse. Normalmente são os portais de igrejas romanas que oferecem esta ilustração para enfatizar que Cristo é a porta que leva ao céu. Os fiéis, cruzando o limiar do edifício sagrado, entram num tempo e num espaço diferentes daqueles da vida cotidiana. Acima da porta da igreja, estão os fiéis em Cristo, soberano, justo e misericordioso, representavam o antegozo da bem-aventurança eterna que os fiéis em Cristo podiam sentir na celebração da liturgia e em atos de piedade realizados no interior do edifício sagrado.

Nos séculos XII e XIII, a começar do norte da França, se difundiu outro tipo de arquitetura na construção de edifícios sagrados, o gótico, com duas novidades em relação ao romano, ou seja, o impulso vertical e o brilho. As catedrais góticas demonstravam uma síntese de fé e arte harmoniosamente expressa por meio da linguagem universal e fascinante da beleza, que ainda hoje impressiona. Graças à introdução dos grandes arcos que repousam sobre fortes pilares, foi possível aumentar significativamente a altura dos edifícios. O impulso em direção ao alto queria convidar à oração e era, ele mesmo, uma oração.

A catedral gótica procurava, dessa forma, traduzir em suas linhas arquitetônicas, o anseio das almas para Deus. Além disso, com as novas soluções técnicas adotadas, as paredes externas podiam ser perfuradas e decoradas com vitrais. Em outras palavras, as janelas se tornavam grandes imagens luminosas, bem próprias para educar o povo na fé. Nelas - cena por cena – eram narradas a vida de um santo, uma parábola ou outras passagens bíblicas. Dos vitrais saíam uma cascata de luz que se derramava sobre os fiéis para lhes contar a história da salvação e para envolvê-los nessa história.

Outro mérito das catedrais góticas é o fato de que da construção e decoração, tão diferente, mas harmoniosa, participou toda a comunidade cristã e civil: humildes e poderosos, analfabetos e doutores, porque nesta casa comum todos eram instruídos na fé. A escultura gótica fez das catedrais uma “Bíblia em pedra”, representada por episódios do Evangelho e ilustrando os conteúdos do ano litúrgico, do Natal à glorificação do Senhor. Naqueles séculos, além disso, se difundia cada vez mais a percepção da humanidade do Senhor e os sofrimentos de sua paixão vinham retratados de forma realista: o Cristo sofredor (Christus patiens) tornou-se uma imagem querida por todos e própria para inspirar compaixão e arrependimento dos pecados.

Os fiéis que lotavam as catedrais góticas também gostavam de encontrar expressões artísticas dos santos, modelos de vida cristã e intercessores junto a Deus. E não faltaram manifestações “seculares” de sua existência; apareciam, aqui e ali, representações vindas dos campos, das ciências e das artes. Tudo era orientado e oferecido a Deus no lugar onde se celebrava a liturgia. Podemos compreender melhor o significado que vinha atribuído a uma catedral gótica, considerando o texto gravado no portão central da Saint-Denis, em Paris: “Peregrino, quem quer louvar a beleza dessa porta, não se deixe deslumbrar por seu ouro, nem por sua magnificência, mas sim por seu duro trabalho. Aqui reluz uma obra famosa, mas queira Deus que esta famosa obra que reluz faça brilhar os espíritos, para que com a verdade que ilumina se encaminhem à verdadeira luz, onde Cristo é a verdadeira porta”.

Queridos irmãos e irmãs, gostaria ainda de destacar dois elementos do estilo romano e gótico, úteis também para nós. O primeiro: as obras-primas da Europa dos séculos passados são incompreensíveis se não se levar em conta a alma religiosa que as inspiraram. Um artista que sempre afirmou o encontro entre a estética e a fé, Marc Chagall, escreveu que “por séculos, os pintores molhavam seus pincéis naquele alfabeto colorido que era a Bíblia.” Quando a fé, especialmente celebrada na liturgia, encontra a arte, se cria uma profunda sintonia, para que ambos possam e queiram falar de Deus, tornando visível o invisível. Gostaria de compartilhar isso no encontro com os artistas em 21 de novembro, repetindo para eles aquela proposta de amizade entre a espiritualidade cristã e a arte, ansiada pelos meus venerados predecessores, especialmente os Servos de Deus Paulo VI e João Paulo II. O segundo elemento: a força do estilo romano e o esplendor das catedrais góticas nos lembram que a via pulchritudinis, o caminho da beleza, é um caminho privilegiado e fascinante para aproximar-nos do mistério de Deus. Que é a beleza, que os escritores, poetas, músicos, artistas contemplaram e traduziram em sua língua, senão o reflexo do esplendor do Verbo eterno feito carne? Agostinho diz: “Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar difuso e suave. Interroga a beleza do céu, interroga a ordem das estrelas, interroga o sol, que ilumina o dia com seu esplendor; interroga a lua, que com o seu brilho, suaviza a escuridão da noite. Consulta os animais que se movem nas águas, que caminham pela terra, que voam pelo ar: almas que se escondem, corpos que se mostram; guias visíveis e invisíveis. Interroga-os! Todos responderão: Olha para nós, somos belos! São conhecidos por causa de sua beleza. Esta beleza mutável, quem a criou, se não a Beleza imutável?” (Sermo CCXLI, 2: PL 38, 1134).

Queridos irmãos e irmãs, o Senhor nos ajude a reencontrar o caminho da beleza como uma das vias, talvez a mais atraente e fascinante, para conseguir encontrar e amar a Deus.

(tradução livre, exclusiva para esse blog)

sábado, 14 de novembro de 2009

O Sacramento da Confirmação

Por que o Sacramento do Crisma tem que ser ministrado pelo Bispo e não por um padre como os outros sacramentos?
(Graça, São Paulo)

Olá, Graça!
Obrigado por visitar o blog e pela pergunta!

Para responder à sua pergunta, em primeiro lugar, é necessário conhecer qual a natureza do ministério episcopal e de sua missão na Igreja, ou seja, em outras palavras, quem é o bispo e qual a sua função junto ao povo de Deus. Para isso, lhe indico a leitura de um trecho de um importante documento da Igreja:

Constituição Dogmática Lumen Gentium, 20. 24-27


Por aqui, o que podemos dizer em rápidas palavras, é que o Bispo, enquanto sucessor dos apostólos, tem a missão de ensinar, santificar e governar a porção do povo de Deus confiada a seus cuidados. Ora, um sucessor dos apóstolos, em sua missão de santificar, é o primeiro ministro não somente do Sacramento da Confirmação, mas de todos os Sacramentos da Igreja.

Acontece que, com o passar do tempo, já nos primeiríssimos séculos da vida da Igreja, o contínuo aumento do número de fiéis e o rápido crescimento das estruturas eclesiais foram tornando praticamente impossível o exercício do ministério episcopal em primeira pessoa. Daí que também foram sendo delineadas as missões do presbítero (padre) e do diácono como aqueles que colaboram diretamente com a missão do Bispo. Mas, então, por que no caso da administração dos Sacramentos, apenas alguns (Ordem e Confirmação, por exemplo) acabaram ficando reservados exclusivamente ao Bispo? Para responder a essa pergunta, precisamos, além de saber a natureza e missão do ministério episcopal, entender o que cada um desses Sacramentos significa, para então compreendermos a estreita ligação entre o Bispo e a administração dos mesmos.

No caso do Sacramento da Confirmação, ele faz parte dos Sacramentos da Iniciação Cristã (= Batismo, Eucaristia e Confirmação), sem os quais, como o nome sugere, não se pode dizer que o fiel foi devidamente iniciado na fé cristã. A Confirmação aprofunda e consolida a graça batismal e "tem como efeito unir aqueles que o receberam, mais intimamente à Igreja, às suas origens apostólicas e à sua missão de dar testemunho de Cristo" (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1313).


Ora, se o Sacramento da Confirmação "tem como efeito unir aquele que o recebe mais intimamente à Igreja", é o Bispo - que fazendo as vezes de Cristo, Pastor da Igreja, e desempenhando suas funções - a pessoa mais indicada para presidir tal Sacramento.

Além disso, se o mesmo Sacramento "tem como efeito unir aquele que o recebe (...) às origens apostólicas (da Igreja)", é o Bispo - como legítimo sucessor dos Apóstolos - a pessoa que evidencia a apostolicidade da Igreja no momento da celebração.

Por fim, se o Sacramento da Confirmação "tem como efeito unir aquele que o recebe (...) à missão (da Igreja) de dar o testemunho de Cristo", é o Bispo - enquanto pastor daquela Igreja local, em união com toda Igreja universal - aquele que, por excelência, envia, em nome de Cristo, o fiel confirmado em missão "até os confins da terra" (Cf. At 1,8).

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Não pecar contra a castidade. Que é isso?

Padre, gostaria de uma explicação maior do 6º mandamento: Não pecar contra a castidade.
(Roberto, 14 anos, São Paulo)

Olá, Roberto!
Obrigado pela visita ao blog e pela pergunta!

Para tentar compreender melhor o 6º mandamento, a primeira pergunta que podemos nos fazer é sobre o que significa a palavra "castidade", já que atualmente, quando ela não é absolutamente esquecida, tem seu significado totalmente desfigurado.

O Catecismo da Igreja Católica define castidade como sendo "a correta integração da sexualidade na pessoa" (CaIC 2337); isso em outras palavras, significa a vivência da sexualidade de maneira verdadeiramente humana.

Mas o que é a sexualidade? A pergunta é simples, mas a resposta é bem complexa. Em todo o caso, a Igreja nos ensina que a sexualidade "diz respeito particularmente à afetividade, à capacidade de amar e de procriar e, de uma maneira geral, à aptidão a criar vínculos de comunhão com os outros (CaIC 2332).

Assim, podemos dizer que uma simples amizade para ser casta, precisa ser um espaço onde os amigos cresçam na comunhão uns com os outros, sem, por exemplo, instrumentalizar ninguém em prol de interesses pessoais. Isso vale, de maneira especial, para o relacionamento amoroso entre homem e mulher: para ser uma relação casta, precisa promover uma verdadeira comunhão, a partir da qual ambos realizem de maneira digna a própria capacidade de amar.


Para crescermos na vivência da castidade, precisamos, em primeiro lugar, procurar viver, pessoalmente, o amor de maneira íntegra, evitando toda espécie de comportamento duplo. Além disso, como a vida casta nos orienta à comunhão, aprendemos com ela a nos doar por inteiro, tornando-se para os outros, testemunhas do amor e da ternura de Deus que se doou inteiramente a nós.

Por fim, toda situação ou comportamento que ofende o amor verdadeiramente humano, ou seja, aquele que se espelha no amor de Deus, fere e ofende a castidade. Obedecer ao sexto mandamento, implica, de um modo geral, rejeitar toda a forma de banalização do amor.

A partir desses mínimos conceitos, podemos começar a analisar casos concretos, dos quais podem (e devem!) surgir muitas perguntas do tipo "viver desse jeito, corresponde à uma vida casta?" Perguntar-se sobre isso é atitude fundamental para quem deseja responder com fidelidade ao 6º mandamento. Bem, meu caro Roberto, mas para analisar situações concretas, vou aguardar suas outras perguntas, está bem?

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Audiência Geral com o Papa [11.11.2009]

Caro amigo,

Nessa manhã, em audiência geral aos peregrinos no Vaticano, o Papa Bento XVI continuou sua série de catequeses. Hoje, ele falou de um importante movimento da Idade Média que, para além do que representou à vida da Igreja, contribuiu em muito à formação da identidade do continente europeu. Tive a graça de, no início desse ano, visitar o lugar onde tudo o que o Papa relatou, teve seu início (prometo dedicar a próxima postagem para algumas fotos que tirei do local quando por lá estive!).

As palavras do Papa são, a meu ver, um grande e profundo convite à reflexão, diante de forças que, recentemente, estão se levantando pela Europa e, creio, ainda demonstrarão seu poder de influência no Brasil, onde aliás, já estão presentes...

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.


Bento XVI
Audiência Geral - Praça de São Pedro
Quarta-feira, 11 de novembro de 2009


Caros irmãos e irmãs,

Nessa manhã, gostaria de vos falar de um movimento monástico que teve grande importância ao longo de toda a Idade Média, do qual eu já fiz algumas referências nas catequeses anteriores. Se trata da Ordem de Cluny, que, nos inícios do século XII, num momento de sua máxima expansão, contava com quase 1.200 mosteiros: um número realmente impressionante! Na cidade de Cluny, há exatos 1.100 anos atrás, no ano de 910, foi fundado um mosteiro confiado aos cuidados do abade Bernão, logo depois da doação de Guilherme, conhecido como "O Piedoso", duque de Aquitânia. Naquele período, o monaquismo ocidental, nascido há alguns séculos atrás com São Bento, estava muito abalado por diversas causas: condições políticas e sociais instáveis devido às contínuas invasões e devastações dos povos que não pertenciam ao mundo europeu, a pobreza cada vez maior e, sobretudo, a dependência das abadias aos senhores feudais que controlavam tudo aquilo que pertencia aos territórios sob seu controle. Em tal contexto, Cluny representou a alma de uma profunda renovação da vida monástica para reconduzi-la aos seus inícios.

Em Cluny, a observância da Regra de São Bento foi restaurada com a introdução de algumas adaptações já existentes em outros reformadores. De uma maneira especial, se queria garantir o papel central que a Liturgia deve ocupar na vida cristã. Os monges cluniacenses se dedicavam com amor e grande dedicação à celebração da Liturgia das Horas, ao canto dos Salmos, às procissões da devoção popular e àquelas solenes, mas, sobretudo, à celebração da Santa Missa. Promoveram a música sacra; quiseram que a arquitetura e a arte contribuíssem para a beleza e para a solenidade dos ritos; enriqueceram o calendário litúrgico de celebrações especiais como, por exemplo, no início de dezembro, a Comemoração dos fiéis defuntos, que também nós celebramos há alguns dias atrás; incrementaram o culto à Virgem Maria. Tanta importância dedicada à liturgia se deve ao fato de que os monges de Cluny acreditavam que ela era uma participação à liturgia do céu. Sentiam-se responsáveis por interceder junto ao altar de Deus pelos vivos e pelos mortos, já que um grande número de fiéis lhes pediam com insistência de serem recordados em suas orações. Justamente para isso é que Guilhermo, o Piedoso, havia desejado o surgimento de uma abadia em Cluny. No antigo documento da fundação do mosteiro, se lê: “Declaro que, com esta doação, seja construído um mosteiro em honra aos santos apóstolos Pedro e Paulo e que lá se reúnam monges que vivam segundo a Regra de São Bento (...), que se fomente um venerável refúgio de oração e se procure com toda força e íntimo ardor a vida celeste, e constantemente sejam elevadas ao Senhor orações, invocações e súplicas". Para conservar e alimentar esse clima de oração, a regra cluniacense valorizou a importância do silêncio, disciplina a qual os monges se submetiam com prazer, certos de que a pureza da virtude que desejavam conquistar, lhes exigia um íntimo e constante recolhimento. Não nos surpreende que bem cedo uma fama de santidade tomou conta do mosteiro de Cluny e que muitas outras comunidades monásticas quiseram imitar seus hábitos. Muitos príncipes e Papas pediram aos abades de Cluny que difundissem suas reformas, à medida em que se formava uma grande rede de mosteiros ligados àquela abadia, seja por meio de vínculos jurídicos propriamente ditos, seja por meio de uma ligação de natureza carismática. Se formava assim uma Europa do espírito nas várias regiões da França, Itália, Espanha, Alemanha e Hungria.

O sucesso de Cluny foi assegurado, antes de tudo, pela elevada espiritualidade que se cultivava ali, mas também por outras condições que lhe favoreciam o crescimento. Diverso de tudo que havia acontecido até então, o mosteiro de Cluny e suas comunidades foram reconhecidos independentes da jurisdição dos Bispos locais e subordinados diretamente à autoridade do Romano Pontífice. Isso implicava uma ligação especial com a sede de Pedro e, graças justamente à proteção e ao encorajamento dos Pontífices, os ideais de pureza e fidelidade, perseguidos pela reforma cluniacense, puderam se difundir rapidamente. Além disso, os abades eram eleitos sem nenhuma interferência da parte das autoridades civis, diferentemente do que acontecia em outros lugares. Pessoas realmente dignas se sucederam na condução de Cluny e na de suas comunidades monásticas: o abade Odão de Cluny, de quem falei em uma catequese há dois meses atrás, e outras grandes personalidades, como Emardo, Maiolo, Odilão e sobretudo Hugo, o Grande, os quais prestaram seu serviço por longo período, assegurando estabilidade à reforma iniciada e à sua difusão. Além de Odão, são venerados como santos Maiolo, Odilão e Hugo.

A reforma cluniacense produziu efeitos positivos não somente na purificação e no reflorescer da vida monástica, mas também na vida de toda a Igreja universal. De fato, o desejo de uma perfeição evangélica representou um estímulo no combate a dois graves males que atingiam a Igreja daquele período: a simonia, isto é, a aquisição de cargos pastorais por dinheiro e a imoralidade do clero secular. Os abades de Cluny, com sua autoridade espiritual, os monges cluniacenses que se tornaram Bispos, alguns deles até mesmo Papas, foram protagonistas dessa imponente ação de renovação espiritual. E os frutos não faltaram: o celibato sacerdotal voltou a ser valorizado e vivido e, na ascensão aos ofícios eclesiásticos, foram introduzidos procedimentos mais transparentes.

Significativos também foram os benefícios oferecidos à sociedade pelos mosteiros inspirados na reforma cluniacense. Numa época em que somente as instituições eclesiásticas cuidavam dos indigentes, a caridade foi praticada com empenho. Em todas as casas, a hospedaria acolhia os viajantes e peregrinos mais necessitados, os padres e religiosos em viagem e, sobretudo, os pobres que vinham pedir comida e abrigo por algum tempo. Importantes também foram outras duas instituições, típicas da civilização medieval, promovidas por Cluny: as assim chamadas “tempos de Deus” e a “paz de Deus”. Numa época fortemente marcada pela violência e pelo espírito de vingança, com os "tempos de Deus" eram assegurados longos períodos de paz, em ocasião de determinadas festas religiosas ou de alguns dias da semana. Com a "paz de Deus" se pedia, sob pena de uma censura canônica, respeito às pessoas desamparadas e aos lugares sagrados.

Na consciência dos povos da Europa se incrementava, assim, aquele processo de longa gestação, que portaria ao reconhecimento, sempre mais claro, de dois elementos fundamentais para a construção da sociedade, isto é, o valor da pessoa humana e o bem primário da paz. Além disso, como acontecia com outras fundações monásticas, os mosteiros cluniacenses dispunham de amplas propriedades que, cultivadas, contribuíram para o desenvolvimento da economia. Ao lado do trabalho manual, não faltaram também algumas atividades tipicamente culturais do monaquismo medieval como as escolas para as crianças, o desenvolvimento das bibliotecas, os lugares destinados à transcrição de livros.

Desse modo, há mil anos atrás, quando era em pleno desenvolvimento o processo de formação da identidade européia, a experiência cluniacense, presente em vastas regiões do continente, ofereceu sua importante e preciosa contribuição. Chamou à atenção o primado dos bens do espírito; manteve viva a tensão em direção às coisas de Deus; inspirou e favoreceu iniciativas e instituições para a promoção de valores humanos; educou para um espírito de paz. Caros irmãos e irmãs, oremos para que todos aqueles que tem um autêntico humanismo no coração e trabalham pelo futuro da Europa, saibam redescobrir, valorizar e defender o rico patrimônio cultural e religioso destes séculos.

(tradução livre, exclusiva para esse blog)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Audiência Geral com o Papa [04.11.2009]

Caros amigos,

Nessa manhã, em audiência geral aos peregrinos no Vaticano, o Papa Bento XVI continuou sua série de catequeses. Hoje, dando prosseguimento à história do desenvolvimento da teologia, o Papa tratou de uma disputa ocorrida no século XII. Embora longo, tenho certeza de que, o texto tem muito a ensinar para a Igreja dos dias de hoje. Abaixo, segue o discurso do Papa, na íntegra.

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.


Bento XVI
Audiência Geral - Praça de São Pedro
Quarta-feira, 04 de novembro de 2009


Queridos irmãos e irmãs,

Na última catequese, apresentei as características principais da teologia monástica e da teologia escolástica do século XII, que poderemos de certo modo chamar "teologia do coração" e "teologia da razão". Entre os representantes de uma e de outra corrente teologia se desenvolveu um debate amplo e, muitas vezes, inflamado, simbolicamente representado pela controvérsia entre São Bernardo de Claraval e Abelardo.

Para compreender o confronto entre esses dois grandes mestres, é necessário recordar que a teologia é a procura de uma compreensão racional, na medida do possível, dos mistérios da Revelação cristã acolhidos pela fé - fides quaerens intellectum - a busca da inteligibilidade da fé, para usar uma expressão tradicional, concisa e precisa. Ora, enquanto São Bernardo, típico representante da teologia monástica, coloca o acento na primeira parte da definição, isto é, na fé, Abelardo, que é um escolástico, insiste sobre a segunda parte, ou seja, o intellectus, a compreensão por meio da razão. Para Bernardo, a fé em si mesma é dotada de uma certeza interior fundada no testemunho das Escrituras e nos ensinamentos dos Padres da Igreja. A fé é também reforçada pelo testemunho dos santos e pela inspiração do Espírito Santo na alma de cada um dos fiéis. Em caso de dúvidas e ambiguidades, ela é protegida e iluminada pelo exercício do Magistério da Igreja. Assim, Bernardo encontra dificuldades em concordar com Abelardo e, mais ainda, com todos os que submetiam a verdade da fé ao exame crítico da razão; um exame que comportava, na opinião dele, um grave perigo, o intelectualismo, a relativização da verdade, o questionamento das verdades da fé. Nesse modo de agir, Bernardo via uma audácia que beirava a crueldade, fruto do orgulho da inteligência humana, que pensa poder "capturar" o mistério de Deus. Em sua carta, entristecido, escreve assim: "A mente humana toma conta de tudo, não deixando mais nada à fé. Enfrenta aquilo que está acima de si mesma, examina aquilo que lhe é superior, invade o mundo de Deus, altera os mistérios da fé, em vez de iluminá-los; aquilo que é fechado e obscuro, não o abre, mas o esvazia, e o que não é viável por si mesmo, o desconsidera e se recusa a crer nele"

Para Bernardo, a teologia tem um único objetivo: promover a experiência íntima e viva de Deus. A teologia é, portanto, um auxílio para amar sempre mais e melhor o Senhor... Nesse caminho, existem diversos graus que Bernardo descreve com detalhes até o ponto mais alto, quando a alma do fiel se inebria nos vértices do amor. A alma humana pode alcançar ainda na terra aquela união mística com o Verbo Divino, união que Bernardo descreve como as "núpcias espirituais". O Verbo Divino a visita, elimina suas últimas resistências, a ilumina, a inflama e a transforma. Em tal união mística, a alma goza de uma grande serenidade e doçura, e canta a seu esposo um hino de alegria. Como eu recordei na catequese dedicada à vida de São Bernardo (21.10.2009), a teologia para ele só pode se alimentar da oração contemplativa, em outras palavras da união afetiva do coração e da mente com Deus.

Abelardo, que é precisamente aquele que introduziu o termo "teologia" no sentido que nós o entendemos hoje, se põe em uma perspectiva diversa. Nascido na Bretanha, na França, este famoso professor do século XII, era dotado de uma inteligência vivíssima e a sua vocação era o estudo. Ele primeiro se ocupou com a filosofia e depois aplicou os resultados obtidos com essa disciplina à teologia, da qual foi mestre na cidade mais culta daquela época, Paris, e depois nos mosteiros onde morou. Ele foi um orador brilhante: suas palestras foram seguidas por uma multidão de alunos. De espírito religioso, mas com uma personalidade inquieta, a sua vida foi cheia de supresas: contestou seus professores, teve um filho com uma mulher culta e inteligente, Eloísa. Muitas vezes se meteu em polêmica com seus colegas teólogos, sofreu também condenações eclesiásticas, mas morreu em plena comunhão com a Igreja, a cuja autoridade ele se submeteu com espírito de fé. São Bernardo mesmo contribuiu para algumas condenações de algumas doutrinas de Abelardo no sínodo provincial de Sens, no ano de 1140, e também pediu a intervenção do papa Inocêncio II. O abade de Claraval contestava, como já dissemos, o método demais intelectualista de Abelardo que, ao seu parecer, reduzia a fé a uma mera opinião a respeito da verdade revelada. Os temores de Bernardo não eram infundados e eram condivididos por outros pensadores daquele tempo. Na verdade, o uso excessivo da filosofia enfraqueceu a doutrina trinitária de Abelardo e, dessa forma, a sua idéia de Deus. No campo moral, seus ensinamentos eram cheios de ambiguidade: ele insistiu em considerar a intenção do indivíduo como a única fonte para descrever a bondade ou a maldade dos atos morais, desconsiderando o significado objetivo e o valor moral das ações: um subjetivismo perigoso. Este é, como sabemos, um tema de grande atualidade para a nossa época, em que a cultura é muitas vezes marcada por uma tendência crescente do relativismo ético: somente o eu decide aquilo que é bom para si. Não podemos nos esquecer, porém, os grandes méritos de Abelardo que, tinha muitos discípulos e contribuiu de modo muito significativo para o desenvolvimento da teologia escolástica, destinada a expressar-se de modo mais maduro e seguro no século seguinte. Também não devemos subestimar algumas de suas idéias como, por exemplo, quando ele diz que tradições religiosas não-cristãs, estão preparadas para acolher a Cristo, o Verbo Divino.

O que podemos aprender nós, hoje, do confronto, de tons frequentemente fortes, entre Bernardo e Abelardo e, em geral, entre a teologia monástica e aquela escolástica? Primeiro de tudo, creio que nos mostra a utilidade e a necessidade de uma saudável discussão teológica na Igreja, especialmente quando os assuntos discutidos não foram definidos pelo Magistério que, por sua vez, continua sendo uma referência incontornável. São Bernardo, mas também Abelardo, sempre reconheceram sem exitação a autoridade. Além disso, as condenações que Abelardo sofreu nos recorda que deve haver um equilíbrio entre o que chamamos de princípios arquitetônicos dados a nós pela Revelação e que conservam, portanto, sempre uma prioritária importância, e aquelas interpretações sugeridas pela filosofia, ou seja, pela razão, e que têm um papel importante, mas instrumental. Quando este equilíbrio entre a arquitetura e os instrumentos de interpretação é esquecido, a reflexão teológica corre o risco de ser afetada por erros e é, então, que do Magistério se espera aquele necessário serviço à verdade que lhe caracteriza. Além disso, é bom salientar que dentre os motivos que levaram Bernardo a "tomar partido" contra Abelardo e solicitar a intervenção do Magistério, estava aquele de salvar os fiéis simples e humildes, que devem ser defendidos quando correm o risco de serem confundidos ou desviados por opiniões muito pessoais e por argumentos teológicos duvidosos, que podem comprometer a sua fé.

Gostaria de recordar, enfim, que o confronto teológico entre Bernardo e Abelardo terminou com uma plena reconciliação entre os dois, por meio da mediação de um de seus amigos, o abade de Cluny, Pedro, o venerável, de quem falei em uma das catequeses anteriores (14.10.2009). Abelardo mostrou humildade em reconhecer seus erros e Bernardo usou de grande bondade. Prevaleceu em ambos o que deve realmente estar no centro, quando nasce uma controvérsia teológica: salvar a fé da Igreja e fazer triunfar a verdade na caridade. Que esta seja, ainda hoje, a virtude com a qual se discute na Igreja, tendo sempre como meta a busca da verdade.


(tradução livre, exclusiva para esse blog)