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sábado, 15 de janeiro de 2011

Da Carta aos Coríntios de São Clemente I, Papa


Com decisão firmemo-nos na bênção de Deus e procuremos ver quais os caminhos desta bênção. Com toda a atenção repassemos no espírito aquilo que desde o início se fez. Por que motivo foi abençoado nosso pai Abraão? Não foi por ter realizado a justiça e a verdade pela fé? Isaac, cheio de confiança, embora soubesse o que ia acontecer, de bom grado deixou-se oferecer em sacrifício. Jacó, com humildade, afastou-se de sua terra, por causa do irmão, e partiu para junto de Labão a quem serviu. Por isso lhe foram dados os doze cetros de Israel.

Se alguém considerar honestamente, um a um, os dons concedidos através de Abraão, entenderá a sua grandeza. Porque dele vêm todos os sacerdotes e levitas que servem ao altar de Deus; dele, segundo a carne, veio o Senhor Jesus; dele vieram os reis, príncipes e chefes de cada família de Judá. Isto sem que as outras tribos tenham menor honra, pois o Senhor prometeu a Abraão: a tua posteridade será numerosa como as estrelas do céu.

Todos esses alcançaram glória e majestade, não por obras ou ações justas que tenham praticado, mas por vontade do Senhor. Por isso, também nós, chamados por esta vontade, no Cristo Jesus, não nos justificamos a nós mesmos por causa de nossa sabedoria, ou inteligência, ou piedade, ou ações que tenhamos feito pela santidade do coração, mas apenas pela fé, pela qual Deus onipotente a todos justificou desde o início. A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Que faremos então, irmãos? Vamos deixar de lado as boas obras e largar a caridade? De jeito nenhum! Que o Senhor não o permita! Mas com zelo e alegre coragem apressemo-nos em realizar tudo o que é bom. Pois o Realizador e Senhor de tudo se alegra com suas obras. Por seu altíssimo e imenso poder estendeu os céus e com incompreensível sabedoria os adornou. Separou a terra das águas que a rodeavam, e, sobre o imóvel fundamento de sua vontade, a firmou. Por sua ordem, os animais que a recobrem começaram a existir. Também, tendo criado o mar e tudo o que nele vive, abraça-os com seu poder.

Acima de tudo, suas puras e santas mãos formaram a criatura por excelência, dotada de inteligência: o homem, selo de sua imagem. Pois assim falou Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança; e Deus criou o homem, homem e mulher os criou. Terminadas todas essas obras, louvou-as e as abençoou, dizendo: Crescei e multiplicai-vos. Reparemos que todos os justos, se adornaram de boas obras, e o próprio Senhor, adornando-se, alegrou-se com a beleza de sua criação. Diante, pois, de tal modelo, caminhemos atentos à sua vontade e façamos com todas as nossas forças a obra da justiça.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Discurso contra os Gentios (Santo Atanásio) - Continuação


Nada há absolutamente de quanto existe que não tenha sido feito nele e por ele. O Teólogo no-lo ensina pelas palavras: No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada se fez (Jo 1,1).

O musicista, com uma harpa bem afinada, combina artisticamente os sons graves com os agudos e os médios, de modo a produzir uma só harmonia. Assim também, a Sabedoria de Deus, empunhando todo o universo como uma harpa, conjuga as coisas aéreas com as terrenas e as celestes com as aéreas, ligando o todo com suas partes.

Assim, dirigindo tudo por um aceno de sua vontade, produz um só universo, um universo com sua ordem cheia de beleza e de harmonia. Entretanto ele mesmo, Verbo de Deus, permanece sempre imóvel junto do Pai, enquanto tudo se move dentro da força da respectiva natureza, segundo o agrado do Pai. Por seu dom, tudo vive e se mantém conforme sua natureza, compondo assim, por ele, uma admirável harmonia, verdadeiramente divina.

Só por comparação podemos entender uma realidade tão imensa! Por exemplo: num coro numeroso, com muitos homens, mulheres, crianças, velhos e adolescentes, sob a direção de um só, todos cantam conforme sua capacidade e estado, homem como homem, criança como criança, velho como velho, jovem como jovem. No entanto, todos formam uma só harmonia. Outro exemplo: como nossa alma, ao mesmo tempo, move nossos sentidos segundo suas propriedades. Na presença de alguma coisa, todos eles se movimentam: os olhos vêem, os ouvidos escutam, as mãos tocam, o olfato percebe, o paladar prova e mesmo os outros membros muitas vezes agem, por exemplo, os pés caminham. Assim acontece nas coisas naturais. Estas são imagens, embora fraquíssimas, que nos ajudam a perceber as realidades mais altas.

Na verdade, num instante, um só aceno do Verbo de Deus rege todas as coisas ao mesmo tempo, de forma que cada ser realiza o que lhe é próprio e todos em conjunto perfazem uma só harmonia.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Discurso contra os Gentios (Santo Atanásio)


O Pai santíssimo de Cristo – sem comparações mais excelente do que toda a criatura – como ótimo criador, tudo governa, dispõe e faz convenientemente o que lhe parece justo, por sua sabedoria e por seu Verbo, Cristo, nosso Senhor e Salvador. Assim é bom que tudo tenha sido e venha a ser feito como vemos. Que ele o tenha querido assim, ninguém pode duvidar. Porque, se o movimento dos seres criados se fizesse desordenadamente e o mundo girasse ao acaso, com toda a razão se negaria crédito ao que declaramos. Mas, se com medida, sabedoria e ciência o mundo foi criado e enriquecido de toda beleza, não há como fugir que este criador e aperfeiçoador é o próprio Verbo de Deus.

Afirmo que o Verbo do Deus do universo e de todo o bem é o Deus vivo e eficaz que existe por si próprio. Distinto de todo o criado, ele é o próprio e único Verbo do Pai de bondade, por cuja providência o mundo inteiro, por ele feito, é iluminado. Ele, que é o bom Verbo do bom Pai, estabeleceu a ordem de todas as coisas, uniu entre si os contrários, compondo assim grande harmonia. Este único e unigênito é Deus: a bondade que procede do Pai, como de fonte do bem, e adorna, dispõe e mantém todo o universo.

Aquele que por seu eterno Verbo tudo fez, fazendo existir as criaturas cada qual conforme a própria natureza, não permitiu que elas se movessem arbitrariamente, a fim de que não retornassem ao nada; por isso, ele, que é o bem, por meio do seu Verbo, Deus como ele, governa e conserva toda a criação. Deste modo, a criação, iluminada pelo governo, providência e administração do Verbo, pode permanecer firme e manter- se coesa. Portanto, a criação, obra do Verbo do Pai – Verbo que é o próprio ser – dele participa e é por ele auxiliada, a fim de não cessar de existir, o que aconteceria, caso não fosse guardada pelo Verbo, que é a imagem do Deus invisível, primogênito de toda criatura. Por ele e nele tudo existe, tanto as coisas visíveis quanto as invisíveis. Ele é também a cabeça da Igreja, como ensinam os ministros da verdade nas Sagradas Escrituras.

Por conseguinte, este todo-poderoso e santíssimo Verbo do Pai, penetrando em tudo, desdobra por toda a parte as suas forças, e ilumina todas as coisas visíveis e invisíveis. Em si mesmo contém e abraça todas, de modo que não deixa nada alheio a seu poder, mas em tudo e por tudo, a cada um em particular e a todos em conjunto concede a vida e a proteção.

Santo Atanásio (*295 - +373)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Do Tratado contra as Heresias, de Santo Irineu, bispo

"Ninguém pode conhecer o Pai sem o Verbo de Deus, isto é, sem o Filho que o revela. Também não se conhece o Filho sem a vontade do Pai. O Filho faz a vontade do Pai, pois o Pai o envia. O Filho é enviado e vem a nós. Assim o Pai, que é para nós invisível e incognoscível, torna-se conhecido por seu próprio Verbo.

Ora, só o Pai conhece seu Verbo, como o manifestou o Senhor. Por isto o Filho nos leva ao conhecimento do Pai mediante a sua própria encarnação. Com efeito, a manifestação do Filho é o
conhecimento do Pai.

Na verdade, tudo nos é revelado pelo Verbo. O Pai revelou o Filho para se dar a conhecer a todos por meio dele. Mais ainda: a fim de acolher, em toda justiça, para a ressurreição eterna, os que nele crêem. Crer nele é viver segundo sua vontade. De fato, o Verbo já revela o Deus criador pela própria criação; pelo mundo, o Senhor que o construiu; pela criatura plasmada, o artífice que a plasmou; e pelo Filho, o Pai que o gerou.

Destas coisas todos falam do mesmo modo, mas não crêem todos do mesmo modo. Pela lei e os profetas, o Verbo, igualmente, anunciava-se a si e ao Pai. Todo o povo do mesmo modo o ouviu, mas não creram todos do mesmo modo. Pelo Verbo, tornado visível e palpável, o Pai se revelou, embora nem todos cressem nele do mesmo modo. Todos, porém, viram o Pai no Filho.

A realidade invisível que se manifestava no Filho era o Pai, e a realidade visível na qual o Pai se revelou era o Filho. O Filho tudo perfaz do princípio ao fim para o Pai, e sem ele ninguém pode conhecer a Deus. O conhecimento do Pai é o Filho. O conhecimento do Filho pertence ao Pai e é
revelado pelo Filho.

Por este motivo, o Senhor dizia: Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai; nem o Pai a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho revelar. Revelar não se refere apenas ao futuro como se o Verbo só tivesse começado a revelar o Pai quando nasceu de Maria. De fato, o Verbo se encontra universalmente e em todo o tempo.

No início, sendo o Filho presente à sua criatura, ele revela o Pai a todos a quem o Pai quer, quando quer e como quer. Em tudo e por tudo, há um só Deus, o Pai, e um só Verbo, o Filho, e um só Espírito e uma única salvação para todos os que nele crêem."

Santo Irineu, bispo (*130 +202)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Da Regra de São Basílio Magno, bispo

"O amor de Deus não é matéria de ensino nem de prescrições. Não aprendemos de outrem a alegrar-nos com a luz, ou a desejar a vida, ou a amar os pais ou educadores. Assim – ou melhor, com muito mais razão –, não se encontra o amor de Deus na disciplina exterior. Mas, quando é criado, o ser vivo, isto é, o homem, a força da razão foi, como semente, inserida nele, uma força que contém em si a capacidade e a inclinação de amar.

Logo que entra na escola dos divinos preceitos, o homem toma conhecimento desta força, apressando-se em cultivá-la com ardor, nutri-la com sabedoria e levá-la à perfeição, com o auxílio de Deus.

Sendo assim, queremos provar vosso empenho em atingir este objetivo. Pela graça de Deus e contando com as vossas preces, nós nos esforçaremos, segundo a capacidade dada pelo Espírito Santo, por suscitar a centelha do amor divino escondida em vós.

Antes de mais nada, nós dele recebemos antecipadamente a força e a capacidade de pôr em prática todos os mandamentos que Deus nos deu. Por isso não nos aflijamos como se nos fosse exigido algo de incomum, nem nos tornemos vaidosos pensando que damos mais do que havíamos recebido. Se usarmos bem destas forças, levaremos uma vida virtuosa; no entanto, mal empregadas, cairemos no pecado.

Ora, o pecado se define como o mau uso, o uso contrário à vontade de Deus daquilo que ele nos deu para o bem. Pelo contrário, a virtude, como Deus a quer, é o desenvolvimento destas faculdades que brotam da consciência reta, segundo o preceito do Senhor.

O mesmo diremos da caridade. Ao recebermos o mandamento de amar a Deus, já possuímos capacidade de amar, plantada em nós desde a primeira criação. Não há necessidade de provas externas: cada qual por si e em si mesmo pode descobri-la. De fato, nós desejamos, naturalmente, as coisas boas e belas, embora, à primeira vista, algumas pareçam boas e belas a uns e não a outros. Amamos também, sem ser necessário que nos ensinem nossos parentes e amigos e temos espontaneamente grande amizade por nossos benfeitores.

O que haverá, pergunto então, de mais admirável do que a beleza divina? Que coisa pode haver mais suave e deliciosa do que a meditação da magnificência de Deus? Que desejo será mais veemente e violento do que aquele inserido por Deus na alma liberta de toda impureza e que lhe faz dizer do fundo do coração: Estou ferida de amor? É na verdade totalmente indescritível o fulgor da beleza de Deus."

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Da Carta de São Clemente I, papa, aos Coríntios


"Com orações e súplicas incessantes, pedimos ao Criador de todas as coisas que conserve íntegro o número de seus eleitos em todo o mundo, por meio de seu amado Filho, Jesus Cristo. Por ele, fomos chamados das trevas para a luz, da ignorância para o conhecimento de seu nome glorioso.

Concedei-nos, Senhor, a graça de esperar em vosso nome, princípio de toda criatura. Abertos os olhos de nosso coração, conheçamos a vós somente, altíssimo entre os altíssimos, santo a repousar entre os santos.

Vós humilhais a arrogância dos soberbos. Arrasais os planos dos pagãos. Elevais os humildes e humilhais os poderosos, fazeis os ricos e os pobres. Levais à morte, salvais e vivificais, único benfeitor dos espíritos e Deus de toda a carne. Vós contemplais os abismos e observais as obras dos homens. Sois o auxílio dos que estão em perigo, salvador dos desesperados, criador e guarda de todas as almas.

Multiplicais os povos pela terra e, entre todos, escolheis aqueles que vos amam, por Jesus Cristo, vosso Filho amado, por quem nos renovais, santificais e cobris de honra. Nós vos rogamos, Senhor, que sejais o nosso “sustentáculo e auxílio”. Libertai os nossos que estão atribulados. Compadecei-vos dos pequeninos. Levantai os caídos. Sustentai os indigentes. Sarai os doentes. Fazei voltar os que se desgarram de vosso povo. Dai de comer aos famintos. Tirai da prisão nossos cativos. Erguei os fracos, confortai os medrosos. Todas as nações vos conheçam, porque só vós sois Deus, e conheçam igualmente a Jesus Cristo, vosso Filho, e com elas também nós, o vosso povo e as ovelhas do vosso rebanho.

Por vossas obras manifestastes a perene constituição do mundo. Vós, Senhor, criastes o globo terrestre. Sois fiel para com todas as gerações, justo nos julgamentos, admirável de força e de magnificência. Sois cheio de sabedoria ao criar e prudente em firmar as coisas criadas. Sois bom em tudo quanto é visível, fiel para com aqueles que em vós confiam, benigno e misericordioso. Perdoai nossas infidelidades e injustiças, nossos pecados e delitos.

Não acuseis de pecado vossos servos e vossas servas, mas purificai-nos em vossa verdade e conduzi nossos passos para caminharmos com piedade, justiça e simplicidade de coração, fazendo tudo o que é bom e agradável a vossos olhos e diante de nossos pastores. Sobretudo, Senhor, mostrai-nos vossa face e possamos nós gozar dos bens na paz à sombra de vossa mão poderosa; por vosso braço estendido sejamos livres de todo pecado; guardai-nos daqueles que nos odeiam sem motivo.

Dai-nos concórdia e paz, a nós e a todos os habitantes da terra, como as destes a nossos antepassados, que piedosamente vos invocavam na fé e na verdade. Unicamente vós podeis agir assim e ainda maiores benefícios realizar em nosso favor. Nós vos louvamos pelo pontífice e protetor de nossas vidas, Jesus Cristo. Por ele glória e majestade a vós agora, por todas as gerações e por todos os tempos. Amém."

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Audiência Geral com o Papa [18.11.2009]

Bento XVI
Audiência Geral - Sala Paulo VI (Vaticano)
Quarta-feira, 11 de novembro de 2009



Queridos irmãos e irmãs!

Na catequese da semana passada, eu apresentei alguns aspectos da teologia medieval. Mas a fé cristã, profundamente enraizada nos homens e mulheres daqueles tempos, não deu origem somente a obras-primas da literatura teológica, do pensamento e da fé. Também inspirou uma das maiores criações artísticas da civilização universal: as catedrais, a verdadeira glória da Idade Média cristã. De fato, por quase três séculos, a partir do início do século XI, se testemunhou na Europa um extraordinário fervor artístico. Um antigo cronista descreve o entusiasmo e o trabalho árduo da época: “Aconteceu que em todo o mundo, especialmente na Itália e na Gália, se começou a reconstruir as igrejas, apesar de que muitas, ainda estando em bom estado, não tivessem necessidade de restauração. Era como uma disputa entre um povo e outro; ninguém acreditava que o mundo, sacudindo os trapos velhos, quisesse se revestir por inteiro do manto branco de novas igrejas. Enfim, quase todas as igrejas catedrais, um grande número de igrejas monásticas, e mesmo algumas capelas do interior foram então restauradas pelos fiéis” (Rodolfo, o glaubro, Historiarum 3,4).

Vários fatores contribuíram para este ressurgimento da arquitetura religiosa. Em primeiro lugar, as condições históricas mais favoráveis, tais como uma maior segurança política, acompanhada de um aumento constante da população e do desenvolvimento progressivo das cidades, do comércio e da riqueza. Além disso, os arquitetos identificaram soluções técnicas mais aprimoradas para aumentar o tamanho dos prédios, garantindo-lhes, ao mesmo tempo, a imponência e a majestade. Mas foi principalmente devido ao ardor e ao zelo espiritual do monaquismo em plena expansão que foram elevados igrejas e mosteiros, onde a liturgia podia ser celebrada com dignidade e solenidade e os fiéis podiam fazer uma pausa para a oração, atraídos pela veneração das relíquias de santos, razão das incessantes peregrinações. Assim nasceram as igrejas e catedrais romanas, caracterizadas pela largueza no comprimento dos corredores, para acomodar os numerosos fiéis; grandes igrejas, com paredes espessas, arcos de pedra e de linhas simples e essenciais. Uma novidade é a introdução das esculturas. Sendo as igrejas romanas, o lugar da oração monástica e do culto dos fiéis, os escultores, ao invés de se preocuparem com a perfeição técnica, se importavam de modo especial com a finalidade educativa de suas obras. Já que deviam inspirar nas almas fortes impressões, sentimentos que capazes de encorajá-las a abandonar o vício, o mal e a praticar a virtude, o bem, o tema recorrente era a representação de Cristo como o juiz universal, cercado pelos personagens do Apocalipse. Normalmente são os portais de igrejas romanas que oferecem esta ilustração para enfatizar que Cristo é a porta que leva ao céu. Os fiéis, cruzando o limiar do edifício sagrado, entram num tempo e num espaço diferentes daqueles da vida cotidiana. Acima da porta da igreja, estão os fiéis em Cristo, soberano, justo e misericordioso, representavam o antegozo da bem-aventurança eterna que os fiéis em Cristo podiam sentir na celebração da liturgia e em atos de piedade realizados no interior do edifício sagrado.

Nos séculos XII e XIII, a começar do norte da França, se difundiu outro tipo de arquitetura na construção de edifícios sagrados, o gótico, com duas novidades em relação ao romano, ou seja, o impulso vertical e o brilho. As catedrais góticas demonstravam uma síntese de fé e arte harmoniosamente expressa por meio da linguagem universal e fascinante da beleza, que ainda hoje impressiona. Graças à introdução dos grandes arcos que repousam sobre fortes pilares, foi possível aumentar significativamente a altura dos edifícios. O impulso em direção ao alto queria convidar à oração e era, ele mesmo, uma oração.

A catedral gótica procurava, dessa forma, traduzir em suas linhas arquitetônicas, o anseio das almas para Deus. Além disso, com as novas soluções técnicas adotadas, as paredes externas podiam ser perfuradas e decoradas com vitrais. Em outras palavras, as janelas se tornavam grandes imagens luminosas, bem próprias para educar o povo na fé. Nelas - cena por cena – eram narradas a vida de um santo, uma parábola ou outras passagens bíblicas. Dos vitrais saíam uma cascata de luz que se derramava sobre os fiéis para lhes contar a história da salvação e para envolvê-los nessa história.

Outro mérito das catedrais góticas é o fato de que da construção e decoração, tão diferente, mas harmoniosa, participou toda a comunidade cristã e civil: humildes e poderosos, analfabetos e doutores, porque nesta casa comum todos eram instruídos na fé. A escultura gótica fez das catedrais uma “Bíblia em pedra”, representada por episódios do Evangelho e ilustrando os conteúdos do ano litúrgico, do Natal à glorificação do Senhor. Naqueles séculos, além disso, se difundia cada vez mais a percepção da humanidade do Senhor e os sofrimentos de sua paixão vinham retratados de forma realista: o Cristo sofredor (Christus patiens) tornou-se uma imagem querida por todos e própria para inspirar compaixão e arrependimento dos pecados.

Os fiéis que lotavam as catedrais góticas também gostavam de encontrar expressões artísticas dos santos, modelos de vida cristã e intercessores junto a Deus. E não faltaram manifestações “seculares” de sua existência; apareciam, aqui e ali, representações vindas dos campos, das ciências e das artes. Tudo era orientado e oferecido a Deus no lugar onde se celebrava a liturgia. Podemos compreender melhor o significado que vinha atribuído a uma catedral gótica, considerando o texto gravado no portão central da Saint-Denis, em Paris: “Peregrino, quem quer louvar a beleza dessa porta, não se deixe deslumbrar por seu ouro, nem por sua magnificência, mas sim por seu duro trabalho. Aqui reluz uma obra famosa, mas queira Deus que esta famosa obra que reluz faça brilhar os espíritos, para que com a verdade que ilumina se encaminhem à verdadeira luz, onde Cristo é a verdadeira porta”.

Queridos irmãos e irmãs, gostaria ainda de destacar dois elementos do estilo romano e gótico, úteis também para nós. O primeiro: as obras-primas da Europa dos séculos passados são incompreensíveis se não se levar em conta a alma religiosa que as inspiraram. Um artista que sempre afirmou o encontro entre a estética e a fé, Marc Chagall, escreveu que “por séculos, os pintores molhavam seus pincéis naquele alfabeto colorido que era a Bíblia.” Quando a fé, especialmente celebrada na liturgia, encontra a arte, se cria uma profunda sintonia, para que ambos possam e queiram falar de Deus, tornando visível o invisível. Gostaria de compartilhar isso no encontro com os artistas em 21 de novembro, repetindo para eles aquela proposta de amizade entre a espiritualidade cristã e a arte, ansiada pelos meus venerados predecessores, especialmente os Servos de Deus Paulo VI e João Paulo II. O segundo elemento: a força do estilo romano e o esplendor das catedrais góticas nos lembram que a via pulchritudinis, o caminho da beleza, é um caminho privilegiado e fascinante para aproximar-nos do mistério de Deus. Que é a beleza, que os escritores, poetas, músicos, artistas contemplaram e traduziram em sua língua, senão o reflexo do esplendor do Verbo eterno feito carne? Agostinho diz: “Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar difuso e suave. Interroga a beleza do céu, interroga a ordem das estrelas, interroga o sol, que ilumina o dia com seu esplendor; interroga a lua, que com o seu brilho, suaviza a escuridão da noite. Consulta os animais que se movem nas águas, que caminham pela terra, que voam pelo ar: almas que se escondem, corpos que se mostram; guias visíveis e invisíveis. Interroga-os! Todos responderão: Olha para nós, somos belos! São conhecidos por causa de sua beleza. Esta beleza mutável, quem a criou, se não a Beleza imutável?” (Sermo CCXLI, 2: PL 38, 1134).

Queridos irmãos e irmãs, o Senhor nos ajude a reencontrar o caminho da beleza como uma das vias, talvez a mais atraente e fascinante, para conseguir encontrar e amar a Deus.

(tradução livre, exclusiva para esse blog)

sábado, 14 de novembro de 2009

O Sacramento da Confirmação

Por que o Sacramento do Crisma tem que ser ministrado pelo Bispo e não por um padre como os outros sacramentos?
(Graça, São Paulo)

Olá, Graça!
Obrigado por visitar o blog e pela pergunta!

Para responder à sua pergunta, em primeiro lugar, é necessário conhecer qual a natureza do ministério episcopal e de sua missão na Igreja, ou seja, em outras palavras, quem é o bispo e qual a sua função junto ao povo de Deus. Para isso, lhe indico a leitura de um trecho de um importante documento da Igreja:

Constituição Dogmática Lumen Gentium, 20. 24-27


Por aqui, o que podemos dizer em rápidas palavras, é que o Bispo, enquanto sucessor dos apostólos, tem a missão de ensinar, santificar e governar a porção do povo de Deus confiada a seus cuidados. Ora, um sucessor dos apóstolos, em sua missão de santificar, é o primeiro ministro não somente do Sacramento da Confirmação, mas de todos os Sacramentos da Igreja.

Acontece que, com o passar do tempo, já nos primeiríssimos séculos da vida da Igreja, o contínuo aumento do número de fiéis e o rápido crescimento das estruturas eclesiais foram tornando praticamente impossível o exercício do ministério episcopal em primeira pessoa. Daí que também foram sendo delineadas as missões do presbítero (padre) e do diácono como aqueles que colaboram diretamente com a missão do Bispo. Mas, então, por que no caso da administração dos Sacramentos, apenas alguns (Ordem e Confirmação, por exemplo) acabaram ficando reservados exclusivamente ao Bispo? Para responder a essa pergunta, precisamos, além de saber a natureza e missão do ministério episcopal, entender o que cada um desses Sacramentos significa, para então compreendermos a estreita ligação entre o Bispo e a administração dos mesmos.

No caso do Sacramento da Confirmação, ele faz parte dos Sacramentos da Iniciação Cristã (= Batismo, Eucaristia e Confirmação), sem os quais, como o nome sugere, não se pode dizer que o fiel foi devidamente iniciado na fé cristã. A Confirmação aprofunda e consolida a graça batismal e "tem como efeito unir aqueles que o receberam, mais intimamente à Igreja, às suas origens apostólicas e à sua missão de dar testemunho de Cristo" (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1313).


Ora, se o Sacramento da Confirmação "tem como efeito unir aquele que o recebe mais intimamente à Igreja", é o Bispo - que fazendo as vezes de Cristo, Pastor da Igreja, e desempenhando suas funções - a pessoa mais indicada para presidir tal Sacramento.

Além disso, se o mesmo Sacramento "tem como efeito unir aquele que o recebe (...) às origens apostólicas (da Igreja)", é o Bispo - como legítimo sucessor dos Apóstolos - a pessoa que evidencia a apostolicidade da Igreja no momento da celebração.

Por fim, se o Sacramento da Confirmação "tem como efeito unir aquele que o recebe (...) à missão (da Igreja) de dar o testemunho de Cristo", é o Bispo - enquanto pastor daquela Igreja local, em união com toda Igreja universal - aquele que, por excelência, envia, em nome de Cristo, o fiel confirmado em missão "até os confins da terra" (Cf. At 1,8).

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Audiência Geral com o Papa [11.11.2009]

Caro amigo,

Nessa manhã, em audiência geral aos peregrinos no Vaticano, o Papa Bento XVI continuou sua série de catequeses. Hoje, ele falou de um importante movimento da Idade Média que, para além do que representou à vida da Igreja, contribuiu em muito à formação da identidade do continente europeu. Tive a graça de, no início desse ano, visitar o lugar onde tudo o que o Papa relatou, teve seu início (prometo dedicar a próxima postagem para algumas fotos que tirei do local quando por lá estive!).

As palavras do Papa são, a meu ver, um grande e profundo convite à reflexão, diante de forças que, recentemente, estão se levantando pela Europa e, creio, ainda demonstrarão seu poder de influência no Brasil, onde aliás, já estão presentes...

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.


Bento XVI
Audiência Geral - Praça de São Pedro
Quarta-feira, 11 de novembro de 2009


Caros irmãos e irmãs,

Nessa manhã, gostaria de vos falar de um movimento monástico que teve grande importância ao longo de toda a Idade Média, do qual eu já fiz algumas referências nas catequeses anteriores. Se trata da Ordem de Cluny, que, nos inícios do século XII, num momento de sua máxima expansão, contava com quase 1.200 mosteiros: um número realmente impressionante! Na cidade de Cluny, há exatos 1.100 anos atrás, no ano de 910, foi fundado um mosteiro confiado aos cuidados do abade Bernão, logo depois da doação de Guilherme, conhecido como "O Piedoso", duque de Aquitânia. Naquele período, o monaquismo ocidental, nascido há alguns séculos atrás com São Bento, estava muito abalado por diversas causas: condições políticas e sociais instáveis devido às contínuas invasões e devastações dos povos que não pertenciam ao mundo europeu, a pobreza cada vez maior e, sobretudo, a dependência das abadias aos senhores feudais que controlavam tudo aquilo que pertencia aos territórios sob seu controle. Em tal contexto, Cluny representou a alma de uma profunda renovação da vida monástica para reconduzi-la aos seus inícios.

Em Cluny, a observância da Regra de São Bento foi restaurada com a introdução de algumas adaptações já existentes em outros reformadores. De uma maneira especial, se queria garantir o papel central que a Liturgia deve ocupar na vida cristã. Os monges cluniacenses se dedicavam com amor e grande dedicação à celebração da Liturgia das Horas, ao canto dos Salmos, às procissões da devoção popular e àquelas solenes, mas, sobretudo, à celebração da Santa Missa. Promoveram a música sacra; quiseram que a arquitetura e a arte contribuíssem para a beleza e para a solenidade dos ritos; enriqueceram o calendário litúrgico de celebrações especiais como, por exemplo, no início de dezembro, a Comemoração dos fiéis defuntos, que também nós celebramos há alguns dias atrás; incrementaram o culto à Virgem Maria. Tanta importância dedicada à liturgia se deve ao fato de que os monges de Cluny acreditavam que ela era uma participação à liturgia do céu. Sentiam-se responsáveis por interceder junto ao altar de Deus pelos vivos e pelos mortos, já que um grande número de fiéis lhes pediam com insistência de serem recordados em suas orações. Justamente para isso é que Guilhermo, o Piedoso, havia desejado o surgimento de uma abadia em Cluny. No antigo documento da fundação do mosteiro, se lê: “Declaro que, com esta doação, seja construído um mosteiro em honra aos santos apóstolos Pedro e Paulo e que lá se reúnam monges que vivam segundo a Regra de São Bento (...), que se fomente um venerável refúgio de oração e se procure com toda força e íntimo ardor a vida celeste, e constantemente sejam elevadas ao Senhor orações, invocações e súplicas". Para conservar e alimentar esse clima de oração, a regra cluniacense valorizou a importância do silêncio, disciplina a qual os monges se submetiam com prazer, certos de que a pureza da virtude que desejavam conquistar, lhes exigia um íntimo e constante recolhimento. Não nos surpreende que bem cedo uma fama de santidade tomou conta do mosteiro de Cluny e que muitas outras comunidades monásticas quiseram imitar seus hábitos. Muitos príncipes e Papas pediram aos abades de Cluny que difundissem suas reformas, à medida em que se formava uma grande rede de mosteiros ligados àquela abadia, seja por meio de vínculos jurídicos propriamente ditos, seja por meio de uma ligação de natureza carismática. Se formava assim uma Europa do espírito nas várias regiões da França, Itália, Espanha, Alemanha e Hungria.

O sucesso de Cluny foi assegurado, antes de tudo, pela elevada espiritualidade que se cultivava ali, mas também por outras condições que lhe favoreciam o crescimento. Diverso de tudo que havia acontecido até então, o mosteiro de Cluny e suas comunidades foram reconhecidos independentes da jurisdição dos Bispos locais e subordinados diretamente à autoridade do Romano Pontífice. Isso implicava uma ligação especial com a sede de Pedro e, graças justamente à proteção e ao encorajamento dos Pontífices, os ideais de pureza e fidelidade, perseguidos pela reforma cluniacense, puderam se difundir rapidamente. Além disso, os abades eram eleitos sem nenhuma interferência da parte das autoridades civis, diferentemente do que acontecia em outros lugares. Pessoas realmente dignas se sucederam na condução de Cluny e na de suas comunidades monásticas: o abade Odão de Cluny, de quem falei em uma catequese há dois meses atrás, e outras grandes personalidades, como Emardo, Maiolo, Odilão e sobretudo Hugo, o Grande, os quais prestaram seu serviço por longo período, assegurando estabilidade à reforma iniciada e à sua difusão. Além de Odão, são venerados como santos Maiolo, Odilão e Hugo.

A reforma cluniacense produziu efeitos positivos não somente na purificação e no reflorescer da vida monástica, mas também na vida de toda a Igreja universal. De fato, o desejo de uma perfeição evangélica representou um estímulo no combate a dois graves males que atingiam a Igreja daquele período: a simonia, isto é, a aquisição de cargos pastorais por dinheiro e a imoralidade do clero secular. Os abades de Cluny, com sua autoridade espiritual, os monges cluniacenses que se tornaram Bispos, alguns deles até mesmo Papas, foram protagonistas dessa imponente ação de renovação espiritual. E os frutos não faltaram: o celibato sacerdotal voltou a ser valorizado e vivido e, na ascensão aos ofícios eclesiásticos, foram introduzidos procedimentos mais transparentes.

Significativos também foram os benefícios oferecidos à sociedade pelos mosteiros inspirados na reforma cluniacense. Numa época em que somente as instituições eclesiásticas cuidavam dos indigentes, a caridade foi praticada com empenho. Em todas as casas, a hospedaria acolhia os viajantes e peregrinos mais necessitados, os padres e religiosos em viagem e, sobretudo, os pobres que vinham pedir comida e abrigo por algum tempo. Importantes também foram outras duas instituições, típicas da civilização medieval, promovidas por Cluny: as assim chamadas “tempos de Deus” e a “paz de Deus”. Numa época fortemente marcada pela violência e pelo espírito de vingança, com os "tempos de Deus" eram assegurados longos períodos de paz, em ocasião de determinadas festas religiosas ou de alguns dias da semana. Com a "paz de Deus" se pedia, sob pena de uma censura canônica, respeito às pessoas desamparadas e aos lugares sagrados.

Na consciência dos povos da Europa se incrementava, assim, aquele processo de longa gestação, que portaria ao reconhecimento, sempre mais claro, de dois elementos fundamentais para a construção da sociedade, isto é, o valor da pessoa humana e o bem primário da paz. Além disso, como acontecia com outras fundações monásticas, os mosteiros cluniacenses dispunham de amplas propriedades que, cultivadas, contribuíram para o desenvolvimento da economia. Ao lado do trabalho manual, não faltaram também algumas atividades tipicamente culturais do monaquismo medieval como as escolas para as crianças, o desenvolvimento das bibliotecas, os lugares destinados à transcrição de livros.

Desse modo, há mil anos atrás, quando era em pleno desenvolvimento o processo de formação da identidade européia, a experiência cluniacense, presente em vastas regiões do continente, ofereceu sua importante e preciosa contribuição. Chamou à atenção o primado dos bens do espírito; manteve viva a tensão em direção às coisas de Deus; inspirou e favoreceu iniciativas e instituições para a promoção de valores humanos; educou para um espírito de paz. Caros irmãos e irmãs, oremos para que todos aqueles que tem um autêntico humanismo no coração e trabalham pelo futuro da Europa, saibam redescobrir, valorizar e defender o rico patrimônio cultural e religioso destes séculos.

(tradução livre, exclusiva para esse blog)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A música na liturgia

As músicas tem a ver com a celebração? Como saber quais são litúrgicas?
(Leonardo, Caraguatatuba, 15 anos)

Caro Leonardo,

Obrigado pela visita ao blog e pela pergunta!

A primeira coisa que precisamos compreender é que toda a celebração litúrgica é um conjunto harmonioso, onde a música desempenha um papel não somente importante, mas imprescindível. Daí que a utilização de uma música dentro de uma celebração litúrgica deve seguir e respeitar os critérios dessa mesma celebração. Eis a resposta para sua primeira pergunta: sim, toda a música litúrgica tem a ver com a celebração.

Nesse sentido, para saber se uma música é adequada para a celebração, deve-se, em primeiro lugar, procurar compreender o que está sendo celebrado. Se a música ali empregada é fiel à natureza da celebração, podemos dizer que ela é adequada para o momento.

Por isso, todo o músico que deseja prestar um serviço de qualidade à comunidade deve estar preocupado com sua adequada formação litúrgica. Somente compreendendo a natureza e a finalidade da celebração, é que ele saberá identificar as músicas que irão colaborar e enriquecer o momento celebrativo.

Por fim, lhe recordo que existem muitos cursos e livros interessantes sobre o assunto por aí. Sugiro que você se informe em sua paróquia e diocese a respeito. Como exemplo, lhe recomendo a leitura de uma publicação da CNBB que você encontra em qualquer livraria católica: A música litúrgica no Brasil (Estudos da CNBB, nº 79).

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A participação de cada fiel na liturgia

Por que existem orações que só o Padre pode fazer ? E por que isso não é informado à comunidade ?
(Leonardo, Caraguatatuba, 15 anos)

Caro Leonardo,
Obrigado pela visita ao blog e pela pergunta!

Entendi que você esteja falando das orações dentro de uma Celebração Eucarística. De fato, não somente na Santa Missa, mas em outras celebrações litúrgicas, existem orações que são reservadas especialmente ao sacerdote. Na verdade, antes de sabermos a razão dessas orações, é preciso compreender o que nos ensina um importante documento da Igreja sobre a natureza e a importância da liturgia:

"Em todas as celebrações litúrgicas, ministros e fiéis, no desempenho de sua função, façam somente aquilo e tudo aquilo que convém à natureza da ação, de acordo com as normas litúrgicas (... ) Desde cedo, portanto, estejam todos imbuídos do espírito da liturgia e sejam devidamente iniciados no desempenho correto de seus respectivos papéis." (Sacrosanctum Concilium 28-29).

Essa afirmação nos ensina que cada fiel está envolvido de modo pessoal na ação litúrgica e a celebra de acordo com a sua condição. O sacerdote, enquanto presidente da celebração, possui orações que lhe são reservadas porque elas deixam claro qual o papel dele naquele momento. Mas isso acontece também com a assembléia que participa com ele do momento celebrativo; também existem orações reservadas aos fiéis leigos.

Você também pergunta porque isso não é informado à comunidade. Na verdade, há muitos lugares onde a comunidade sabe exatamente, não somente sua função na celebração, como aquela reservada ao sacerdote. Nos lugares onde isso não é muito claro, falta uma formação litúrgica mais adequada. É isso que sugere o mesmo documento que citei anteriormente e que volto a citar, do qual eu lhe recomendo uma atenta leitura. Você poderá encontrá-lo na íntegra nesse endereço eletrônico:

Eis os números que tratam de uma necessária formação litúrgica para todo o povo de Deus:

"A Igreja deseja ardentemente que todos os fiéis participem das celebrações de maneira consciente e ativa, de acordo com as exigências da própria liturgia e por direito e dever do povo cristão, em virtude do batismo... Procure-se por todos os meios, restabelecer e favorecer a participação plena e ativa de todo o povo na liturgia. Ela é a fonte primeira e indispensável do espírito cristão. Os pastores de alma devem, pois, orientar para ela toda sua ação pastoral. Para que isso aconteça, é indispensável que os próprios pastores estejam profundamente imbuídos do espírito e da força da liturgia, tornando-se capazes de ensiná-la aos outros..." (Sacrosanctum Concilium 15)

"Também os fiéis devem participar da liturgia, interior e exteriormente, de acordo com sua idade, condição, gênero de vida e grau de cultura religiosa. Os pastores atuem pacientemente nesse sentido, sabendo que é um dos principais deveres de quem é chamado a dispensar fielmente os mistérios de Deus..." (Sacrosanctum Concilium 19)



Depois de esclarecido isso, um passo interessante será o de estudar as orações que são reservadas ao sacerdote nas ações litúrgicas; são belíssimos meios para compreendermos a vida e a missão de um padre!

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A missa parte por parte

A missa é divida em partes? Qual a mais importante?
(Daniel, 18, Caraguatatuba)

Caro Daniel,

Obrigado pela visita ao blog e pela pergunta!

A resposta a sua questão, a encontramos no início do texto de introdução ao Missal Romano: "A Missa consta, por assim dizer, de duas partes, a saber, a liturgia da palavra e a liturgia eucarística, tão intimamente unidas entre si, que constituem um só ato de culto. De fato, na Missa se prepara tanto a mesa da Palavra de Deus como a do Corpo de Cristo, para ensinar e alimentar os fiéis. Há também alguns ritos que abrem e encerram a celebração." (Introdução Geral ao Missal Romano [IGMR], 28)

Como você mesmo pode ver, entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística, não existe uma parte mais importante, já que estão "intimamente unidas entre si", ou seja, uma não existe sem a outra.

Por fim, abaixo lhe transcrevo um esquema, ainda que geral, mais detalhado da Celebração Eucarística. Porém, lhe recordo que mais importante que saber quais as partes da Santa Missa, é necessário compreender o sentido da celebração como um todo e de cada uma de suas partes.

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.


AS PARTES DA MISSA
(cf. IGMR, 46-90)

Ritos Iniciais
[entrada, saudação ao altar e ao povo reunido, ato penitencial, hino de louvor e oração da coleta];

Liturgia da Palavra
[leituras bíblicas, homilia, profissão de fé e oração universal];

Liturgia Eucarística
[apresentação das oferendas, oração sobre as oferendas, oração eucarística e ritos da comunhão (oração do Senhor, rito da paz, fração do pão, comunhão, oração pós-comunhão)] ;

Ritos finais
[breves comunicações (se necessário), saudação e bênção do sacerdote, despedida do povo e saudação ao altar].

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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Qual a maneira certa: assistir ou participar da Missa?
(Robson, 30 anos, São Paulo)

Caro Robson,

Obrigado pela visita ao blog e pela pergunta!

À medida em que compreendemos a natureza da Santa Missa, não restam dúvidas quanto ao modo como somos chamados a nos portar durante a celebração. Diante de tão grande manifestação de Deus que nos chama a participar de seu sacrifício pela redenção do mundo (cf. 1Cor 11, 23-26), não é possível permanecermos como meros espectadores. A única resposta coerente, portanto, é a de participarmos ativamente do mistério que celebramos.

Procure sempre participar da Missa. É o que ensina o mais importante documento da Igreja sobre o assunto. Abaixo, seguem algumas das muitas de suas citações:

" Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo; por meio dela cantamos ao Senhor um hino de glória com toda a milícia do exército celestial, esperamos ter parte e comunhão com os Santos cuja memória veneramos, e aguardamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória" (Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, n. 08)

"Para assegurar esta eficácia plena, é necessário, porém, que os fiéis celebrem a Liturgia com retidão de espírito, unam a sua mente às palavras que pronunciam, cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão. Por conseguinte, devem os pastores de almas vigiar para que não só se observem, na ação litúrgica, as leis que regulam a celebração válida e lícita, mas também que os fiéis participem nela consciente, ativa e frutuosamente." (SC 11)

"Para fomentar a participação ativa, promovam-se as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, bem como as ações, gestos e atitudes corporais. Não deve deixar de observar-se, a seu tempo, um silêncio sagrado." (SC 30)

"É por isso que a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, ativa e piedosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo mediador, progridam na unidade com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos." (Sc 48)

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Qual a função do Diácono e dos coroinhas?

Qual a função do Diácono e dos coroinhas na celebração?
(Fábio, 28 anos, São Paulo)

Caro Fábio,

Obrigado pela visita ao blog e pela pergunta!

Antes de falarmos sobre a função do Diácono e dos coroinhas na celebração litúrgica, é importante compreendermos melhor a natureza de cada um desses ministérios.

O diaconado é o primeiro grau do Sacramento da Ordem. Por meio da graça sacramental, conferida pela imposição das mãos e oração de um Bispo, o fiel passa a fazer parte do clero, exercendo seu ministério a serviço de Deus e de sua Igreja, como direto colaborador do Bispo diocesano.

Quanto às funções que nascem da recepção desse grau do Sacramento da Ordem, podemos dizer que "é próprio do diácono, segundo for marcado pela competente autoridade, administrar solenemente o Batismo, guardar e distribuir a Eucaristia, assistir e abençoar o Matrimônio em nome da Igreja, levar o viático aos moribundos, ler aos fiéis a Sagrada Escritura, instruir e exortar o povo, presidir ao culto e à oração dos fiéis, administrar os sacramentais, dirigir os ritos do funeral e da sepultura". (Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, n. 29)

Em relação à natureza do ministério do coroinha, vale observar o que foi dito num importante documento emitido pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, órgão ligado diretamente à Santa Sé: "é muito louvável que se conserve o benemérito costume de que crianças ou jovens, denominados normalmente assistentes (coroinhas), estejam presentes e realizem um serviço junto ao altar, similar aos acólitos, mas recebam uma catequese conveniente, adaptada à sua capacidade, sobre esta tarefa. Não se pode esquecer que do conjunto destas crianças, ao longo dos séculos, tem surgido um número considerável de ministros consagrados..." (Instrução Redemptionis Sacramentum, n. 47)

Do entendimento de sua natureza, nasce o elenco das funções de um coroinha que se resume, por sua vez, na assistência ao presbítero durante a celebração litúrgica: nos lugares onde existem acólitos (ministros instituídos ou confiados ao serviço do Altar), os coroinhas acabam complementando a ação deles; onde tais ministros não estão presentes, na prática, os coroinhas acabam realizando suas funções.

Vale ainda dizer que embora o grupo de coroinhas tenha um cunho vocacional direcionado à vida presbiteral, o mesmo documento que acabei de citar (Redemptionis Sacramentaum) abre a possibilidade de que meninas sejam admitidas a esse serviço, desde que o Bispo diocesano assim as autorize.

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Pe. Mauricio Miranda.

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