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domingo, 23 de janeiro de 2011

"Reminiscências... de uma Amélia anarquista"

Hoje, chegou em minhas mãos, no final da Santa Missa das 10h30, um livreto, presente da Sra. Helena Tieghi, paroquiana da Dom Bosco do Alto da Lapa. Trata-se de uma auto-biografia de sua mãe, Dona Amélia Fedel Tieghi, já falecida: "Reminiscências... de uma Amélia anarquista".

Diante desse gênero, confesso não me haver animado a lê-lo prontamente. Mas o fato de ser algo tão próximo à vida de alguém que muito contribui com a comunidade, o peguei logo depois do almoço para folheá-lo. Não o larguei antes que o tivesse lido por completo!

De redação leve e simples, o livro é um verdadeiro presente. Dona Amélia conseguiu ali retratar o cenário muito interessante do bairro da Lapa e da cidade de São Paulo dos inícios do século XX. Para além disso, as coisas que escreveu nos levam a pensar na brevidade e fugacidade da vida, fatos que nos convidam a vivê-la com intensidade e responsabilidade. E, de fato, foi com muita intensidade que me parece ter ela passado por este mundo.

Quero agradecer a querida amiga Helena - a quem conheço - pelo presente (depois, o farei pessoalmente!), mas sobretudo, agradecer Dona Amélia - a quem não tive a graça de conhecer -; sua vida e estilo ensinaram boas coisas a esse jovem padre, nessa tarde de domingo. É exatamente de pessoas assim que o mundo tanto necessita. Deus abençoe as tantas Amélias das quais o mundo, felizmente, ainda dispõe. São presentes...

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Audiência Geral com o Papa [11.11.2009]

Caro amigo,

Nessa manhã, em audiência geral aos peregrinos no Vaticano, o Papa Bento XVI continuou sua série de catequeses. Hoje, ele falou de um importante movimento da Idade Média que, para além do que representou à vida da Igreja, contribuiu em muito à formação da identidade do continente europeu. Tive a graça de, no início desse ano, visitar o lugar onde tudo o que o Papa relatou, teve seu início (prometo dedicar a próxima postagem para algumas fotos que tirei do local quando por lá estive!).

As palavras do Papa são, a meu ver, um grande e profundo convite à reflexão, diante de forças que, recentemente, estão se levantando pela Europa e, creio, ainda demonstrarão seu poder de influência no Brasil, onde aliás, já estão presentes...

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.


Bento XVI
Audiência Geral - Praça de São Pedro
Quarta-feira, 11 de novembro de 2009


Caros irmãos e irmãs,

Nessa manhã, gostaria de vos falar de um movimento monástico que teve grande importância ao longo de toda a Idade Média, do qual eu já fiz algumas referências nas catequeses anteriores. Se trata da Ordem de Cluny, que, nos inícios do século XII, num momento de sua máxima expansão, contava com quase 1.200 mosteiros: um número realmente impressionante! Na cidade de Cluny, há exatos 1.100 anos atrás, no ano de 910, foi fundado um mosteiro confiado aos cuidados do abade Bernão, logo depois da doação de Guilherme, conhecido como "O Piedoso", duque de Aquitânia. Naquele período, o monaquismo ocidental, nascido há alguns séculos atrás com São Bento, estava muito abalado por diversas causas: condições políticas e sociais instáveis devido às contínuas invasões e devastações dos povos que não pertenciam ao mundo europeu, a pobreza cada vez maior e, sobretudo, a dependência das abadias aos senhores feudais que controlavam tudo aquilo que pertencia aos territórios sob seu controle. Em tal contexto, Cluny representou a alma de uma profunda renovação da vida monástica para reconduzi-la aos seus inícios.

Em Cluny, a observância da Regra de São Bento foi restaurada com a introdução de algumas adaptações já existentes em outros reformadores. De uma maneira especial, se queria garantir o papel central que a Liturgia deve ocupar na vida cristã. Os monges cluniacenses se dedicavam com amor e grande dedicação à celebração da Liturgia das Horas, ao canto dos Salmos, às procissões da devoção popular e àquelas solenes, mas, sobretudo, à celebração da Santa Missa. Promoveram a música sacra; quiseram que a arquitetura e a arte contribuíssem para a beleza e para a solenidade dos ritos; enriqueceram o calendário litúrgico de celebrações especiais como, por exemplo, no início de dezembro, a Comemoração dos fiéis defuntos, que também nós celebramos há alguns dias atrás; incrementaram o culto à Virgem Maria. Tanta importância dedicada à liturgia se deve ao fato de que os monges de Cluny acreditavam que ela era uma participação à liturgia do céu. Sentiam-se responsáveis por interceder junto ao altar de Deus pelos vivos e pelos mortos, já que um grande número de fiéis lhes pediam com insistência de serem recordados em suas orações. Justamente para isso é que Guilhermo, o Piedoso, havia desejado o surgimento de uma abadia em Cluny. No antigo documento da fundação do mosteiro, se lê: “Declaro que, com esta doação, seja construído um mosteiro em honra aos santos apóstolos Pedro e Paulo e que lá se reúnam monges que vivam segundo a Regra de São Bento (...), que se fomente um venerável refúgio de oração e se procure com toda força e íntimo ardor a vida celeste, e constantemente sejam elevadas ao Senhor orações, invocações e súplicas". Para conservar e alimentar esse clima de oração, a regra cluniacense valorizou a importância do silêncio, disciplina a qual os monges se submetiam com prazer, certos de que a pureza da virtude que desejavam conquistar, lhes exigia um íntimo e constante recolhimento. Não nos surpreende que bem cedo uma fama de santidade tomou conta do mosteiro de Cluny e que muitas outras comunidades monásticas quiseram imitar seus hábitos. Muitos príncipes e Papas pediram aos abades de Cluny que difundissem suas reformas, à medida em que se formava uma grande rede de mosteiros ligados àquela abadia, seja por meio de vínculos jurídicos propriamente ditos, seja por meio de uma ligação de natureza carismática. Se formava assim uma Europa do espírito nas várias regiões da França, Itália, Espanha, Alemanha e Hungria.

O sucesso de Cluny foi assegurado, antes de tudo, pela elevada espiritualidade que se cultivava ali, mas também por outras condições que lhe favoreciam o crescimento. Diverso de tudo que havia acontecido até então, o mosteiro de Cluny e suas comunidades foram reconhecidos independentes da jurisdição dos Bispos locais e subordinados diretamente à autoridade do Romano Pontífice. Isso implicava uma ligação especial com a sede de Pedro e, graças justamente à proteção e ao encorajamento dos Pontífices, os ideais de pureza e fidelidade, perseguidos pela reforma cluniacense, puderam se difundir rapidamente. Além disso, os abades eram eleitos sem nenhuma interferência da parte das autoridades civis, diferentemente do que acontecia em outros lugares. Pessoas realmente dignas se sucederam na condução de Cluny e na de suas comunidades monásticas: o abade Odão de Cluny, de quem falei em uma catequese há dois meses atrás, e outras grandes personalidades, como Emardo, Maiolo, Odilão e sobretudo Hugo, o Grande, os quais prestaram seu serviço por longo período, assegurando estabilidade à reforma iniciada e à sua difusão. Além de Odão, são venerados como santos Maiolo, Odilão e Hugo.

A reforma cluniacense produziu efeitos positivos não somente na purificação e no reflorescer da vida monástica, mas também na vida de toda a Igreja universal. De fato, o desejo de uma perfeição evangélica representou um estímulo no combate a dois graves males que atingiam a Igreja daquele período: a simonia, isto é, a aquisição de cargos pastorais por dinheiro e a imoralidade do clero secular. Os abades de Cluny, com sua autoridade espiritual, os monges cluniacenses que se tornaram Bispos, alguns deles até mesmo Papas, foram protagonistas dessa imponente ação de renovação espiritual. E os frutos não faltaram: o celibato sacerdotal voltou a ser valorizado e vivido e, na ascensão aos ofícios eclesiásticos, foram introduzidos procedimentos mais transparentes.

Significativos também foram os benefícios oferecidos à sociedade pelos mosteiros inspirados na reforma cluniacense. Numa época em que somente as instituições eclesiásticas cuidavam dos indigentes, a caridade foi praticada com empenho. Em todas as casas, a hospedaria acolhia os viajantes e peregrinos mais necessitados, os padres e religiosos em viagem e, sobretudo, os pobres que vinham pedir comida e abrigo por algum tempo. Importantes também foram outras duas instituições, típicas da civilização medieval, promovidas por Cluny: as assim chamadas “tempos de Deus” e a “paz de Deus”. Numa época fortemente marcada pela violência e pelo espírito de vingança, com os "tempos de Deus" eram assegurados longos períodos de paz, em ocasião de determinadas festas religiosas ou de alguns dias da semana. Com a "paz de Deus" se pedia, sob pena de uma censura canônica, respeito às pessoas desamparadas e aos lugares sagrados.

Na consciência dos povos da Europa se incrementava, assim, aquele processo de longa gestação, que portaria ao reconhecimento, sempre mais claro, de dois elementos fundamentais para a construção da sociedade, isto é, o valor da pessoa humana e o bem primário da paz. Além disso, como acontecia com outras fundações monásticas, os mosteiros cluniacenses dispunham de amplas propriedades que, cultivadas, contribuíram para o desenvolvimento da economia. Ao lado do trabalho manual, não faltaram também algumas atividades tipicamente culturais do monaquismo medieval como as escolas para as crianças, o desenvolvimento das bibliotecas, os lugares destinados à transcrição de livros.

Desse modo, há mil anos atrás, quando era em pleno desenvolvimento o processo de formação da identidade européia, a experiência cluniacense, presente em vastas regiões do continente, ofereceu sua importante e preciosa contribuição. Chamou à atenção o primado dos bens do espírito; manteve viva a tensão em direção às coisas de Deus; inspirou e favoreceu iniciativas e instituições para a promoção de valores humanos; educou para um espírito de paz. Caros irmãos e irmãs, oremos para que todos aqueles que tem um autêntico humanismo no coração e trabalham pelo futuro da Europa, saibam redescobrir, valorizar e defender o rico patrimônio cultural e religioso destes séculos.

(tradução livre, exclusiva para esse blog)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Audiência Geral com o Papa [04.11.2009]

Caros amigos,

Nessa manhã, em audiência geral aos peregrinos no Vaticano, o Papa Bento XVI continuou sua série de catequeses. Hoje, dando prosseguimento à história do desenvolvimento da teologia, o Papa tratou de uma disputa ocorrida no século XII. Embora longo, tenho certeza de que, o texto tem muito a ensinar para a Igreja dos dias de hoje. Abaixo, segue o discurso do Papa, na íntegra.

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.


Bento XVI
Audiência Geral - Praça de São Pedro
Quarta-feira, 04 de novembro de 2009


Queridos irmãos e irmãs,

Na última catequese, apresentei as características principais da teologia monástica e da teologia escolástica do século XII, que poderemos de certo modo chamar "teologia do coração" e "teologia da razão". Entre os representantes de uma e de outra corrente teologia se desenvolveu um debate amplo e, muitas vezes, inflamado, simbolicamente representado pela controvérsia entre São Bernardo de Claraval e Abelardo.

Para compreender o confronto entre esses dois grandes mestres, é necessário recordar que a teologia é a procura de uma compreensão racional, na medida do possível, dos mistérios da Revelação cristã acolhidos pela fé - fides quaerens intellectum - a busca da inteligibilidade da fé, para usar uma expressão tradicional, concisa e precisa. Ora, enquanto São Bernardo, típico representante da teologia monástica, coloca o acento na primeira parte da definição, isto é, na fé, Abelardo, que é um escolástico, insiste sobre a segunda parte, ou seja, o intellectus, a compreensão por meio da razão. Para Bernardo, a fé em si mesma é dotada de uma certeza interior fundada no testemunho das Escrituras e nos ensinamentos dos Padres da Igreja. A fé é também reforçada pelo testemunho dos santos e pela inspiração do Espírito Santo na alma de cada um dos fiéis. Em caso de dúvidas e ambiguidades, ela é protegida e iluminada pelo exercício do Magistério da Igreja. Assim, Bernardo encontra dificuldades em concordar com Abelardo e, mais ainda, com todos os que submetiam a verdade da fé ao exame crítico da razão; um exame que comportava, na opinião dele, um grave perigo, o intelectualismo, a relativização da verdade, o questionamento das verdades da fé. Nesse modo de agir, Bernardo via uma audácia que beirava a crueldade, fruto do orgulho da inteligência humana, que pensa poder "capturar" o mistério de Deus. Em sua carta, entristecido, escreve assim: "A mente humana toma conta de tudo, não deixando mais nada à fé. Enfrenta aquilo que está acima de si mesma, examina aquilo que lhe é superior, invade o mundo de Deus, altera os mistérios da fé, em vez de iluminá-los; aquilo que é fechado e obscuro, não o abre, mas o esvazia, e o que não é viável por si mesmo, o desconsidera e se recusa a crer nele"

Para Bernardo, a teologia tem um único objetivo: promover a experiência íntima e viva de Deus. A teologia é, portanto, um auxílio para amar sempre mais e melhor o Senhor... Nesse caminho, existem diversos graus que Bernardo descreve com detalhes até o ponto mais alto, quando a alma do fiel se inebria nos vértices do amor. A alma humana pode alcançar ainda na terra aquela união mística com o Verbo Divino, união que Bernardo descreve como as "núpcias espirituais". O Verbo Divino a visita, elimina suas últimas resistências, a ilumina, a inflama e a transforma. Em tal união mística, a alma goza de uma grande serenidade e doçura, e canta a seu esposo um hino de alegria. Como eu recordei na catequese dedicada à vida de São Bernardo (21.10.2009), a teologia para ele só pode se alimentar da oração contemplativa, em outras palavras da união afetiva do coração e da mente com Deus.

Abelardo, que é precisamente aquele que introduziu o termo "teologia" no sentido que nós o entendemos hoje, se põe em uma perspectiva diversa. Nascido na Bretanha, na França, este famoso professor do século XII, era dotado de uma inteligência vivíssima e a sua vocação era o estudo. Ele primeiro se ocupou com a filosofia e depois aplicou os resultados obtidos com essa disciplina à teologia, da qual foi mestre na cidade mais culta daquela época, Paris, e depois nos mosteiros onde morou. Ele foi um orador brilhante: suas palestras foram seguidas por uma multidão de alunos. De espírito religioso, mas com uma personalidade inquieta, a sua vida foi cheia de supresas: contestou seus professores, teve um filho com uma mulher culta e inteligente, Eloísa. Muitas vezes se meteu em polêmica com seus colegas teólogos, sofreu também condenações eclesiásticas, mas morreu em plena comunhão com a Igreja, a cuja autoridade ele se submeteu com espírito de fé. São Bernardo mesmo contribuiu para algumas condenações de algumas doutrinas de Abelardo no sínodo provincial de Sens, no ano de 1140, e também pediu a intervenção do papa Inocêncio II. O abade de Claraval contestava, como já dissemos, o método demais intelectualista de Abelardo que, ao seu parecer, reduzia a fé a uma mera opinião a respeito da verdade revelada. Os temores de Bernardo não eram infundados e eram condivididos por outros pensadores daquele tempo. Na verdade, o uso excessivo da filosofia enfraqueceu a doutrina trinitária de Abelardo e, dessa forma, a sua idéia de Deus. No campo moral, seus ensinamentos eram cheios de ambiguidade: ele insistiu em considerar a intenção do indivíduo como a única fonte para descrever a bondade ou a maldade dos atos morais, desconsiderando o significado objetivo e o valor moral das ações: um subjetivismo perigoso. Este é, como sabemos, um tema de grande atualidade para a nossa época, em que a cultura é muitas vezes marcada por uma tendência crescente do relativismo ético: somente o eu decide aquilo que é bom para si. Não podemos nos esquecer, porém, os grandes méritos de Abelardo que, tinha muitos discípulos e contribuiu de modo muito significativo para o desenvolvimento da teologia escolástica, destinada a expressar-se de modo mais maduro e seguro no século seguinte. Também não devemos subestimar algumas de suas idéias como, por exemplo, quando ele diz que tradições religiosas não-cristãs, estão preparadas para acolher a Cristo, o Verbo Divino.

O que podemos aprender nós, hoje, do confronto, de tons frequentemente fortes, entre Bernardo e Abelardo e, em geral, entre a teologia monástica e aquela escolástica? Primeiro de tudo, creio que nos mostra a utilidade e a necessidade de uma saudável discussão teológica na Igreja, especialmente quando os assuntos discutidos não foram definidos pelo Magistério que, por sua vez, continua sendo uma referência incontornável. São Bernardo, mas também Abelardo, sempre reconheceram sem exitação a autoridade. Além disso, as condenações que Abelardo sofreu nos recorda que deve haver um equilíbrio entre o que chamamos de princípios arquitetônicos dados a nós pela Revelação e que conservam, portanto, sempre uma prioritária importância, e aquelas interpretações sugeridas pela filosofia, ou seja, pela razão, e que têm um papel importante, mas instrumental. Quando este equilíbrio entre a arquitetura e os instrumentos de interpretação é esquecido, a reflexão teológica corre o risco de ser afetada por erros e é, então, que do Magistério se espera aquele necessário serviço à verdade que lhe caracteriza. Além disso, é bom salientar que dentre os motivos que levaram Bernardo a "tomar partido" contra Abelardo e solicitar a intervenção do Magistério, estava aquele de salvar os fiéis simples e humildes, que devem ser defendidos quando correm o risco de serem confundidos ou desviados por opiniões muito pessoais e por argumentos teológicos duvidosos, que podem comprometer a sua fé.

Gostaria de recordar, enfim, que o confronto teológico entre Bernardo e Abelardo terminou com uma plena reconciliação entre os dois, por meio da mediação de um de seus amigos, o abade de Cluny, Pedro, o venerável, de quem falei em uma das catequeses anteriores (14.10.2009). Abelardo mostrou humildade em reconhecer seus erros e Bernardo usou de grande bondade. Prevaleceu em ambos o que deve realmente estar no centro, quando nasce uma controvérsia teológica: salvar a fé da Igreja e fazer triunfar a verdade na caridade. Que esta seja, ainda hoje, a virtude com a qual se discute na Igreja, tendo sempre como meta a busca da verdade.


(tradução livre, exclusiva para esse blog)

domingo, 11 de outubro de 2009

Seguir Jesus requer nadar contra a maré! - Parte 2

Caro amigo,

Nesse domingo (11/10), o Papa Bento XVI voltou a falar que seguir Jesus requer saber nadar contra a maré. Exatamente há um mês atrás ele utilizava a mesma expressão aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro (cf. também postagem do dia 11/09). Dessa vez, o discurso se dirigiu aos fiéis reunidos para a canonização de cinco novos santos para a Igreja.

Penso que esta seja a grande graça que precisamos aprender a pedir a Deus em nosso dias. De modo especial, os jovens precisam ser agraciados com a coragem de testemunhar seu amor pelo Senhor, mesmo em situações onde isso implique ser "diferente" dos demais!

Abaixo, segue notícia extraída de um site da internet. Apesar do site não ser de origem confessional, muito me alegrou o modo como noticiaram o evento.

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.



Papa Bento XVI canoniza cinco novos santos

CIDADE DO VATICANO, 11 OUT (ANSA) - O papa Bento XVI canonizou neste domingo cinco novos santos católicos em uma cerimônia realizada na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

São eles o polonês Zygmunt Szczesny Felinski, fundador da Congregação das Irmãs Franciscanas da Família de Maria; a francesa Marie de la Croix, criadora da Congregação das Irmãzinhas dos Pobres; o padre belga Jozef Damian de Veuster, que dedicou sua vida à assistência de pessoas com hanseníase no Havaí; e os espanhóis Rafael Arnaiz Baron, religioso da ordem trapista, considerado um dos grandes místicos do século XX, e Francisco Coll y Guitart, fundador da Congregação das Irmãs Dominicanas da Anunciação de Nossa Senhora.

A Eucaristia foi celebrada por nove arcebispos, 14 bispos e 20 sacerdotes. Bento XVI mencionou os exemplos de vida de todos os beatos, dando ênfase a seus feitos em favor do próximo e pelo amor a Deus. A perfeição dos santos, disse o Papa, "na lógica da fé às vezes humanamente incompreensível, não consiste em colocar a si mesmo no centro, mas em optar por andar contra a corrente, vivendo segundo o Evangelho". "Estas pessoas mantiveram um sincero desejo de alcançar a vida eterna conduzindo uma honesta e virtuosa vida terrena", complementou.

Cerca de 50 mil fiéis acompanharam a missa, que foi assistida também por autoridades dos países de origem dos novos santos. Estiveram presentes o rei belga, Alberto II, e a rainha Paola, o presidente da Polônia, Lech Kaczynski, o primeiro-ministro francês, François Fillon, e o chanceler espanhol, Miguel Angel Moratinos. Em nome do governo dos Estados Unidos, nação à qual pertence o Havaí, participaram o embaixador junto à Santa Sé, Miguel Umberto Diaz, e o senador havaiano Daniel Kahikina Akaka.

Após a cerimônia, já durante o Angelus, Bento XVI saudou a presença de um grupo de pessoas que sobreviveram aos ataques de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. O Papa orou para que "o mundo nunca mais assista a semelhantes destruições massivas de vidas humanas inocentes".

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Audiência Geral com o Papa [16.09.2009]

Caros amigos,

Nessa manhã, em audiência geral aos peregrinos no Vaticano, o Papa Bento XVI continuou sua série de catequeses, nas quais tem apresentado figuras muito importantes da história da Igreja. Hoje foi a vez de Simão, o Novo Teólogo. Creio que seja muito opotuno, nos nossos dias, o que nos ensina esse importante monge do século XI. Por isso, abaixo, segue o discurso do Papa, na íntegra.

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

Bento XVI
Audiência Geral - Sala Paulo VI
Quarta-feira, 16 de setembro de 2009




Simão, o Teólogo

Caros irmãos e irmãs,

Hoje refletiremos sobre a figura de um monge oriental, Simão o Novo Teológo, cujos escritos exerceram uma grande influência na teologia e na espiritualidade do Oriente, em particular no tocante à experiência da união mística com Deus. Simão o Novo Teólogo nasceu em 949 em Galatai, na Paflagônia (Ásia Menor), de nobre família. Ainda jovem, se transferiu para Constantinopla para estudar e entrar para o serviço do Imperador. Porém, se sentiu pouco atraído pela carreira civil que se abria aos seus olhos e, sob influência de iluminações que havia experimentado anteriormente, passou a procurar uma pessoa que o orientasse no momento cheio de dúvidas e de perplexidade que vivia e que o ajudasse a progredir no caminho da união com Deus. Encontrou esta guia espiritual em Simão, o Pio (Eulabes), um simples monge do mosteiro de Studios, em Constantinopla, que lhe deu para ler o tratado Lei Espiritual de Marco, o Monge. Naquele texto, Simão o Novo Teólogo encontrou um ensinamento que muito o impressionou: "Se procuras a cura espiritual, seja atento à tua consciência. Tudo isso que ela te diz, faça e encontrarás aquilo que te é útil". Daquele momento em diante - conta ele mesmo - nunca mais se recolheu sem se perguntar à consciência se havia algo de que o censurar.

Simão entrou para o mosteiro de Studios, onde, porém, suas experiências místicas e a sua extraordinária devoção a seu Pai espiritual lhe causaram dificuldades. Transferiu-se para o pequeno convento de São Mamede, sempre em Constantinopla, do qual, depois de três anos, se torna o superior, o abade. Ali, viveu uma intensa união espiritual com Cristo, fato que lhe conferiu grande autoridade. É interessante notar que lhe foi dado o apelido de "Novo Teólogo", apesar da tradição reservar o título de "Teólogo" a duas personalidades: ao evangelista João e a Gregório de Nazianzo. Sofreu incompreensões e o exílio, mas foi reabilitado pelo Patriarca de Constantinopla, Sérgio II.

Simão o Novo Teólogo passou a última fase de sua existência no mosteiro de Santa Marina, onde escreveu grande parte de suas obras, tornando-se sempre mais célebre pelos seus ensinamentos e por seus milagres. Morreu aos 12 de março de 1022.

O mais conhecido de seus discípulos, Niceta Stetatos, que recolheu e copiou os escritos de Simão, lhes preparou uma edição póstuma, redigindo em seguida uma biografia. A obra de Simão compreende nove volumes (divididos em Capítulos Teológicos, Gnósticos e Práticos), três volumes de Catequese endereçados aos monges, dois volumes de Tratados Teológicos e Éticos e um volume de Hinos. Não devemos esquecer de suas numerosas cartas. Todas essas obras encontram um lugar de relevo na tradição monástica oriental até os nossos dias.

Simão concentra sua reflexão na presença do Espírito Santo nos batizados e na consciência que eles devem ter de tal realidade espiritual. A vida cristã - ele afirma - é comunhão íntima e pessoal com Deus, a graça divina ilumina o coração do fiel e o conduz à visão mística do Senhor. Nesse sentido, Simão o Novo Teólogo insiste no fato de que o verdadeiro conhecimento de Deus não vem dos livros, mas da experiência interior, da vida espiritual. O conhecimento de Deus nasce do caminho de purificação interior que tem início com a conversão do coração, graças à força da fé e do amor; passa por um profundo arrependimento e dor sincera pelos próprios pecados, para chegar à união com Cristo, fonte de alegria e de paz, invadida pela luz da sua presença em nós. Para Simão, tal experiência da graça divina não constitui um dom excepcional para alguns místicos, mas é fruto do Batismo na existência de todo o fiel que se impenha seriamente.

Um ponto sobre o qual refletir, caros irmãos e irmãs! Este santo monge oriental convoca todos a uma atenção à vida espiritual, à presença escondida de Deus em nós, à sinceridade da consciência e à purificação, à conversão do coração, assim realmente o Espírito Santo se torna presente em nós e nos guia. Se, de fato, com razão nos preocupamos em cuidar de nosso crescimento físico, humano e intelectual, é ainda mais importante não esquecer do crescimento interior que consiste no conhecimento de Deus, no verdadeiro conhecimento, não apenas tomado dos livros, mas do interior, da comunhão com Deus, para experimentar sua ajuda em cada momento e em toda a circusntância. No fundo, é isso que Simão descreve quando narra a própria experiência mística. Já quando jovem, antes de entrar no mosteiro, enquanto prolongava suas orações em casa, invocando o auxílio de Deus para lutar contra as tentações, viu seu quarto encher de luz. Quando, depois, entrou no mosteiro, lhe ofereceram os livros espirituais para a instrução, mas a leitura deles não lhe trazia a paz que procurava. Se sentia - ele conta - como um pobre passarinho sem asas. Aceitou com humildade aquela situação, sem revoltar-se, e então começaram a se multiplicar de novo as visões de luz. Querendo assegurar-se da autenticidade delas, Simão pediu diretamente a Cristo: 'Senhor, és tu mesmo de verdade que estás aqui?". Sentiu ressoar no coração a resposta afirmativa que o consolou plenamente. "Foi aquela, Senhor - esscreveu logo em seguida - a primeira vez que me julgaste, filho pródigo, digno de escutar a tua voz". No entanto, nem aquela revelação o deixou totalmente em paz. Ele se perguntava, ao invés, se mesmo aquela experiência não poderia ser considerada uma ilusão. Um dia, finalmente, aconteceu um fato fundamental para a sua experiência mística. Ele começou a se sentir como um "pobre que ama os irmãos". Via ao seu redor tantos inimigos que queriam feri-lo e lhe fazer o mal, mas isso provocava nele um intenso amor por todos. Como explicar aquilo? Evidentemente, não podia vir dele mesmo um amor assim, mas deveria vir de uma outra fonte. Simão entendeu que vinha de Cristo presente nele e tudo ficou claro: teve a prova segura de que a fonte do amor nele era a presença de Cristo e que ter em si o amor que vai além de minhas intenções pessoais indica que a fonte do amor está em mim. Assim, se por um lado podemos dizer que sem uma certa abertura ao amor, Cristo não entra em nós, por outro lado, Cristo se torna fonte de amor em nós e nos transforma. Caros amigos, esta experiência como nunca continua sendo importante para nós, hoje, para encontrarmos os critérios que nos indicam se estamos realmente próximos de Deus, se Deus está vivo em nós. O amor de Deus cresce em nós se permanecemos unidos a Ele pela oração e na escuta de sua palavra, com a abertura de coração. Somente o amor de Deus nos faz abrir o coração aos outros e nos torna sensíveis às suas necessidades, fazendo-nos considerar todos como irmãos e irmãs, convidando-nos a responder ao ódio com amor e à ofensa com o perdão.

Refletindo sobre a figura de Simão o Novo Teólogo, podemos salientar um outro elemento de sua espiritualidade. No caminho de vida ascética por ele proposto e vivido, a grande atenção e concentração do monge na experiência interior confere ao Pai espiritual do mosteiro uma importância essencial. O mesmo jovem Simão, como dissemos, tinha encontrado um diretor espiritual que o ajudou muito, pelo qual conservou grandíssima estima, a ponto de reservar-lhe, mesmo depois da morte, uma veneração também pública. Eu gostaria de dizer que pemanece válido para todos - sacerdotes, pessoas consagradas e leigos, e especialmente para os jovens - o convite a recorrer aos conselhos de um bom Pai espiritual, capaz de acompanhar cada um no conhecimento profundo de si mesmo e conduzi-lo à união com o Senhor, de modo que sua existência se conforme sempre mais ao Evangelho. Para ir em direção ao Senhor temos sempre necessidade de ajuda, de diálogo. Não podemos fazê-lo somente com as nossas reflexões. Eis o sentido eclesial de nossa fé.

Concluindo, podemos sintetizar assim o ensinamento e a experiência mística de Simão o Novo Teólogo: na sua incessante busca de Deus, apesar das dificuldades que encontrou e nas críticas das quais foi objeto, ele, no final das contas, se deixou guiar pelo amor. Soube viver ele mesmo e ensinar aos seus monges que o essencial para cada discípulo de Jesus é crescer no amor e assim crescer no conhecimento do próprio Cristo, para poder afirmar com São Paulo: "Não sou mais eu quem vivo, é Cristo que vive em mim". (Gl 2,20)

(tradução livre, exclusivamente para esse blog)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Seguir Jesus requer nadar contra a maré!

Caro amigo,

No último dia 23 de agosto, o Santo Padre dirigiu, como de costume, algumas palavras aos peregrinos presentes na Praça de São Pedro. Comentando o Evangelho da Missa daquele domingo, afirmou que seguir Jesus "enche o coração de alegria e dá sentido pleno à nossa existência, mas inclui dificuldades e renúncias porque com muita frequência se deve ir contra a corrente".

Penso que esta seja a grande graça que precisamos aprender a pedir a Deus em nosso dias. De modo especial, os jovens precisam ser agraciados com a coragem de testemunhar seu amor pelo Senhor, mesmo em situações onde isso implique ser "diferente" dos demais! Abaixo, segue o texto com as palavras de Bento XVI, na íntegra.

Com afeto salesiano,
P. Mauricio Miranda.


Palácio Apostólico de Castel Gandolfo
Domingo, 23 de Agosto de 2009

Queridos irmãos e irmãs!

Como podeis ver, a mão foi libertada do gesso, mas ainda está um pouco preguiçosa; deve estar ainda por algum tempo numa "escola de paciência", mas vamos em frente!

Sabeis que há alguns domingos a liturgia propõe à nossa reflexão o capítulo 6 do Evangelho de João, no qual Jesus se apresenta como o "pão vivo que desceu do céu" e acrescenta: "Se alguém comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a minha carne pela vida do mundo" (Jo 6, 51). Aos judeus que discutem asperamente entre si, perguntando-se: "Como pode Ele dar-nos a comer a Sua carne?" (v. 52) — e o mundo continua a discutir — Jesus reafirma em todos os tempos: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o Meu sangue não tereis a vida em vós" (v. 53); motivo também para nós de refletir se compreendemos realmente esta mensagem. Hoje, 21º domingo do tempo comum, meditamos a parte conclusiva deste capítulo, no qual o quarto Evangelista descreve a reação do povo e dos próprios discípulos, escandalizados com as palavras do Senhor, a ponto que muitos, depois de o terem seguido até então, exclamam: "Duras são estas palavras! Quem pode escutá-las?" (v. 60). A partir de então "muitos dos Seus discípulos retiraram-se e já não andavam com Ele" (v. 66), e acontece sempre de novo a mesma coisa, em diversos períodos da história. Poderíamos esperar que Jesus procure maneiras para se fazer compreender melhor, mas Ele não abranda as suas afirmações, aliás dirige-se diretamente aos Doze, dizendo: "Também vós quereis retirar-vos?" (v. 67).

Esta pergunta provocatória não se destina só aos ouvintes de então, mas atinge os crentes e os homens de todas as épocas. Também hoje muitos permanecem "escandalizados" diante do paradoxo da fé cristã. Os ensinamentos de Jesus parecem "duros", demasiado difíceis de aceitar e de pôr em prática. Então há quem rejeita e abandona Cristo; há quem procura "adaptar" a sua palavra às modas dos tempos desvirtuando o seu sentido e valor. "Também vós quereis retirar-vos?". Esta preocupante provocação ressoa no nosso coração e espera de cada um uma resposta pessoal; trata-se de uma pergunta feita a cada um de nós. Jesus não se contenta com uma pertença superficial e formal, não lhe é suficiente uma primeira e entusiasta adesão; ao contrário, é necessário participar toda a vida "no seu pensar e no seu querer". Segui-l'O enche o coração de alegria e dá sentido pleno à nossa existência, mas inclui dificuldades e renúncias porque com muita frequência se deve ir contra a corrente.

"Também vós quereis retirar-vos?". Pedro responde à pergunta de Jesus em nome dos Apóstolos, dos crentes de todos os séculos: "Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna; e nós acreditamos e sabemos que és o Santo de Deus" (v. 68-69). Queridos irmãos e irmãs, também nós podemos e queremos repetir a resposta de Pedro neste momento, conscientes da nossa fragilidade humana, dos nossos problemas e dificuldades, mas confiantes no poder do Espírito Santo, que se exprime e se manifesta na comunhão com Jesus. A fé é dom de Deus ao homem e é, ao mesmo tempo, entrega livre e total do homem a Deus; a fé é escuta dócil da palavra do Senhor, que é "farol" para os nossos passos e "luz" para o nosso caminho (cf. Sl 119, 105). Se abrirmos com confiança o coração a Cristo, se nos deixarmos conquistar por Ele, podemos experimentar também nós, como por exemplo o santo Cura d'Ars, que "a nossa única felicidade nesta terra é amar Deus e saber que Ele nos ama". Peçamos à Virgem Maria que mantenha sempre despertada em nós esta fé impregnada de amor, que a tornou, humilde jovem de Nazaré, Mãe de Deus e mãe e modelo de todos os crentes.

Bento XVI

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Os escândalos na Igreja

Como mostrar aos jovens a riqueza da Igreja católica, se são veiculadas na imprensa notícias de consagrados
que dão falso testemunho?
(Max, 27 anos, São Paulo, SP)

Caro Max!

Obrigado pela visita ao blog e pela pergunta!

Pode parecer estranho, mas creio que a resposta que você procura possa ser encontrada na sua própria pergunta. Para tanto, é necessário aprofundar a compreensão acerca do mistério da Igreja. As Sagradas Escrituras abordam a realidade da Igreja fazendo uso de diversas imagens, dentre as quais, quero ressaltar a da Igreja enquanto povo de Deus. Na segunda carta de Pedro, encontramos uma das mais belas e profundas descrições de tão grande mistério da fé:

"Mas vocês são uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade, para que proclamem as maravilhas daquele que lhes chamou das trevas para sua luz admirável; vocês que não eram povo, mas agora são o povo de Deus, que não tinham alcançado misericórdia, mas agora a alcançaram." (2 Pedro 2,9)

A Igreja é o povo de Deus! Desse povo, fazem parte, todos os batizados. Tomando as expressões que você utilizou em sua pergunta, podemos afirmar que a "riqueza da Igreja" não pode ser medida tão somente pelo verdadeiro ou "falso testemunho" dos consagrados. Se consideramos a Igreja como povo de Deus, sua beleza está em cada batizado e na assembléia de todos eles! Nesse sentido, para mostrar ao jovem a "riqueza da Igreja", devemos levá-lo a descobrir-se Igreja também, como parte fundamental desse povo!

Mas a "riqueza da Igreja" vai para além do fato de constituir-se como um povo. Não é um povo como os outros. Somos uma raça eleita, nação santa e um povo de particular propriedade de Deus! Isso tudo porque, embora pecador, o povo de Deus é resgatado pelo sangue redentor de Cristo. Nisso sim está a nossa verdadeira riqueza!

E os contra-testemunhos noticiados pela imprensa? Bem, se não são notícias meramente sensacionalistas, construídas sobre mentiras e deturpações, devem ser levadas em consideração por contradizerem os princípios do Evangelho do qual somos anunciadores. No entanto, não podemos esquecer que o povo de Deus é santo e pecador; isso não significa dar asas a certo permissivismo (o pecado deve ser combatido com todas as nossas forças!), mas reconhecer que apesar de seu não merecimento, o povo de Deus é santo porque salvo pelos méritos de Cristo. O Papa Bento XVI falou aos peregrinos na Praça de São Pedro, na audiência de 13 de junho de 2007: "qual é a nossa atitude em relação às vicissitudes da Igreja? É a atitude de quem se interessa por uma simples curiosidade, talvez procurando o que é sensacional e escandaloso a qualquer preço? Ou é a atitude cheia de amor, e aberta ao mistério, de quem sabe por fé que pode encontrar na história da Igreja os sinais do amor de Deus e as grandes obras da salvação por ele realizadas? Se for esta a nossa atitude, não podemos deixar de nos sentir estimulados a dar uma resposta mais coerente e generosa, a um testemunho mais cristão de vida, para deixar os sinais do amor de Deus também às gerações futuras."

Se o pecado persiste também no seio da Igreja, somos convidados a ampliar o anúncio de que "onde grande é o pecado, maior é a graça!" (Rm 5, 20). Caro amigo, continue anunciando a grande riqueza da Igreja; sua riqueza está na misericórdia de Deus que supera toda a violência do pecado, sua riqueza é Cristo!

Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.
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