Com afeto salesiano,
Pe. Mauricio Miranda.

Em Cluny, a observância da Regra de São Bento foi restaurada com a introdução de algumas adaptações já existentes em outros reformadores. De uma maneira especial, se queria garantir o papel central que a Liturgia deve ocupar na vida cristã. Os monges cluniacenses se dedicavam com amor e grande dedicação à celebração da Liturgia das Horas, ao canto dos Salmos, às procissões da devoção popular e àquelas solenes, mas, sobretudo, à celebração da Santa Missa. Promoveram a música sacra; quiseram que a arquitetura e a arte contribuíssem para a beleza e para a solenidade dos ritos; enriqueceram o calendário litúrgico de celebrações especiais como, por exemplo, no início de dezembro, a Comemoração dos fiéis defuntos, que também nós celebramos há alguns dias atrás; incrementaram o culto à Virgem Maria. Tanta importância dedicada à liturgia se deve ao fato de que os monges de Cluny acreditavam que ela era uma participação à liturgia do céu. Sentiam-se responsáveis por interceder junto ao altar de Deus pelos vivos e pelos mortos, já que um grande número de fiéis lhes pediam com insistência de serem recordados em suas orações. Justamente para isso é que Guilhermo, o Piedoso, havia desejado o surgimento de uma abadia em Cluny. No antigo documento da fundação do mosteiro, se lê: “Declaro que, com esta doação, seja construído um mosteiro em honra aos santos apóstolos Pedro e Paulo e que lá se reúnam monges que vivam segundo a Regra de São Bento (...), que se fomente um venerável refúgio de oração e se procure com toda força e íntimo ardor a vida celeste, e constantemente sejam elevadas ao Senhor orações, invocações e súplicas". Para conservar e alimentar esse clima de oração, a regra cluniacense valorizou a importância do silêncio, disciplina a qual os monges se submetiam com prazer, certos de que a pureza da virtude que desejavam conquistar, lhes exigia um íntimo e constante recolhimento. Não nos surpreende que bem cedo uma fama de santidade tomou conta do mosteiro de Cluny e que muitas outras comunidades monásticas quiseram imitar seus hábitos. Muitos príncipes e Papas pediram aos abades de Cluny que difundissem suas reformas, à medida em que se formava uma grande rede de mosteiros ligados àquela abadia, seja por meio de vínculos jurídicos propriamente ditos, seja por meio de uma ligação de natureza carismática. Se formava assim uma Europa do espírito nas várias regiões da França, Itália, Espanha, Alemanha e Hungria.
O sucesso de Cluny foi assegurado, antes de tudo, pela elevada espiritualidade que se cultivava ali, mas também por outras condições que lhe favoreciam o crescimento. Diverso de tudo que havia acontecido até então, o mosteiro de Cluny e suas comunidades foram reconhecidos independentes da jurisdição dos Bispos locais e subordinados diretamente à autoridade do Romano Pontífice. Isso implicava uma ligação especial com a sede de Pedro e, graças justamente à proteção e ao encorajamento dos Pontífices, os ideais de pureza e fidelidade, perseguidos pela reforma cluniacense, puderam se difundir rapidamente. Além disso, os abades eram eleitos sem nenhuma interferência da parte das autoridades civis, diferentemente do que acontecia em outros lugares. Pessoas realmente dignas se sucederam na condução de Cluny e na de suas comunidades monásticas: o abade Odão de Cluny, de quem falei em uma catequese há dois meses atrás, e outras grandes personalidades, como Emardo, Maiolo, Odilão e sobretudo Hugo, o Grande, os quais prestaram seu serviço por longo período, assegurando estabilidade à reforma iniciada e à sua difusão. Além de Odão, são venerados como santos Maiolo, Odilão e Hugo.
A reforma cluniacense produziu efeitos positivos não somente na purificação e no reflorescer da vida monástica, mas também na vida de toda a Igreja universal. De fato, o desejo de uma perfeição evangélica representou um estímulo no combate a dois graves males que atingiam a Igreja daquele período: a simonia, isto é, a aquisição de cargos pastorais por dinheiro e a imoralidade do clero secular. Os abades de Cluny, com sua autoridade espiritual, os monges cluniacenses que se tornaram Bispos, alguns deles até mesmo Papas, foram protagonistas dessa imponente ação de renovação espiritual. E os frutos não faltaram: o celibato sacerdotal voltou a ser valorizado e vivido e, na ascensão aos ofícios eclesiásticos, foram introduzidos procedimentos mais transparentes.
Significativos também foram os benefícios oferecidos à sociedade pelos mosteiros inspirados na reforma cluniacense. Numa época em que somente as instituições eclesiásticas cuidavam dos indigentes, a caridade foi praticada com empenho. Em todas as casas, a hospedaria acolhia os viajantes e peregrinos mais necessitados, os padres e religiosos em viagem e, sobretudo, os pobres que vinham pedir comida e abrigo por algum tempo. Importantes também foram outras duas instituições, típicas da civilização medieval, promovidas por Cluny: as assim chamadas “tempos de Deus” e a “paz de Deus”. Numa época fortemente marcada pela violência e pelo espírito de vingança, com os "tempos de Deus" eram assegurados longos períodos de paz, em ocasião de determinadas festas religiosas ou de alguns dias da semana. Com a "paz de Deus" se pedia, sob pena de uma censura canônica, respeito às pessoas desamparadas e aos lugares sagrados.
Na consciência dos povos da Europa se incrementava, assim, aquele processo de longa gestação, que portaria ao reconhecimento, sempre mais claro, de dois elementos fundamentais para a construção da sociedade, isto é, o valor da pessoa humana e o bem primário da paz. Além disso, como acontecia com outras fundações monásticas, os mosteiros cluniacenses dispunham de amplas propriedades que, cultivadas, contribuíram para o desenvolvimento da economia. Ao lado do trabalho manual, não faltaram também algumas atividades tipicamente culturais do monaquismo medieval como as escolas para as crianças, o desenvolvimento das bibliotecas, os lugares destinados à transcrição de livros.
Desse modo, há mil anos atrás, quando era em pleno desenvolvimento o processo de formação da identidade européia, a experiência cluniacense, presente em vastas regiões do continente, ofereceu sua importante e preciosa contribuição. Chamou à atenção o primado dos bens do espírito; manteve viva a tensão em direção às coisas de Deus; inspirou e favoreceu iniciativas e instituições para a promoção de valores humanos; educou para um espírito de paz. Caros irmãos e irmãs, oremos para que todos aqueles que tem um autêntico humanismo no coração e trabalham pelo futuro da Europa, saibam redescobrir, valorizar e defender o rico patrimônio cultural e religioso destes séculos.
(tradução livre, exclusiva para esse blog)

Queridos irmãos e irmãs,
Na última catequese, apresentei as características principais da teologia monástica e da teologia escolástica do século XII, que poderemos de certo modo chamar "teologia do coração" e "teologia da razão". Entre os representantes de uma e de outra corrente teologia se desenvolveu um debate amplo e, muitas vezes, inflamado, simbolicamente representado pela controvérsia entre São Bernardo de Claraval e Abelardo.
Para compreender o confronto entre esses dois grandes mestres, é necessário recordar que a teologia é a procura de uma compreensão racional, na medida do possível, dos mistérios da Revelação cristã acolhidos pela fé - fides quaerens intellectum - a busca da inteligibilidade da fé, para usar uma expressão tradicional, concisa e precisa. Ora, enquanto São Bernardo, típico representante da teologia monástica, coloca o acento na primeira parte da definição, isto é, na fé, Abelardo, que é um escolástico, insiste sobre a segunda parte, ou seja, o intellectus, a compreensão por meio da razão. Para Bernardo, a fé em si mesma é dotada de uma certeza interior fundada no testemunho das Escrituras e nos ensinamentos dos Padres da Igreja. A fé é também reforçada pelo testemunho dos santos e pela inspiração do Espírito Santo na alma de cada um dos fiéis. Em caso de dúvidas e ambiguidades, ela é protegida e iluminada pelo exercício do Magistério da Igreja. Assim, Bernardo encontra dificuldades em concordar com Abelardo e, mais ainda, com todos os que submetiam a verdade da fé ao exame crítico da razão; um exame que comportava, na opinião dele, um grave perigo, o intelectualismo, a relativização da verdade, o questionamento das verdades da fé. Nesse modo de agir, Bernardo via uma audácia que beirava a crueldade, fruto do orgulho da inteligência humana, que pensa poder "capturar" o mistério de Deus. Em sua carta, entristecido, escreve assim: "A mente humana toma conta de tudo, não deixando mais nada à fé. Enfrenta aquilo que está acima de si mesma, examina aquilo que lhe é superior, invade o mundo de Deus, altera os mistérios da fé, em vez de iluminá-los; aquilo que é fechado e obscuro, não o abre, mas o esvazia, e o que não é viável por si mesmo, o desconsidera e se recusa a crer nele"
Para Bernardo, a teologia tem um único objetivo: promover a experiência íntima e viva de Deus. A teologia é, portanto, um auxílio para amar sempre mais e melhor o Senhor... Nesse caminho, existem diversos graus que Bernardo descreve com detalhes até o ponto mais alto, quando a alma do fiel se inebria nos vértices do amor. A alma humana pode alcançar ainda na terra aquela união mística com o Verbo Divino, união que Bernardo descreve como as "núpcias espirituais". O Verbo Divino a visita, elimina suas últimas resistências, a ilumina, a inflama e a transforma. Em tal união mística, a alma goza de uma grande serenidade e doçura, e canta a seu esposo um hino de alegria. Como eu recordei na catequese dedicada à vida de São Bernardo (21.10.2009), a teologia para ele só pode se alimentar da oração contemplativa, em outras palavras da união afetiva do coração e da mente com Deus.
Abelardo, que é precisamente aquele que introduziu o termo "teologia" no sentido que nós o entendemos hoje, se põe em uma perspectiva diversa. Nascido na Bretanha, na França, este famoso professor do século XII, era dotado de uma inteligência vivíssima e a sua vocação era o estudo. Ele primeiro se ocupou com a filosofia e depois aplicou os resultados obtidos com essa disciplina à teologia, da qual foi mestre na cidade mais culta daquela época, Paris, e depois nos mosteiros onde morou. Ele foi um orador brilhante: suas palestras foram seguidas por uma multidão de alunos. De espírito religioso, mas com uma personalidade inquieta, a sua vida foi cheia de supresas: contestou seus professores, teve um filho com uma mulher culta e inteligente, Eloísa. Muitas vezes se meteu em polêmica com seus colegas teólogos, sofreu também condenações eclesiásticas, mas morreu em plena comunhão com a Igreja, a cuja autoridade ele se submeteu com espírito de fé. São Bernardo mesmo contribuiu para algumas condenações de algumas doutrinas de Abelardo no sínodo provincial de Sens, no ano de 1140, e também pediu a intervenção do papa Inocêncio II. O abade de Claraval contestava, como já dissemos, o método demais intelectualista de Abelardo que, ao seu parecer, reduzia a fé a uma mera opinião a respeito da verdade revelada. Os temores de Bernardo não eram infundados e eram condivididos por outros pensadores daquele tempo. Na verdade, o uso excessivo da filosofia enfraqueceu a doutrina trinitária de Abelardo e, dessa forma, a sua idéia de Deus. No campo moral, seus ensinamentos eram cheios de ambiguidade: ele insistiu em considerar a intenção do indivíduo como a única fonte para descrever a bondade ou a maldade dos atos morais, desconsiderando o significado objetivo e o valor moral das ações: um subjetivismo perigoso. Este é, como sabemos, um tema de grande atualidade para a nossa época, em que a cultura é muitas vezes marcada por uma tendência crescente do relativismo ético: somente o eu decide aquilo que é bom para si. Não podemos nos esquecer, porém, os grandes méritos de Abelardo que, tinha muitos discípulos e contribuiu de modo muito significativo para o desenvolvimento da teologia escolástica, destinada a expressar-se de modo mais maduro e seguro no século seguinte. Também não devemos subestimar algumas de suas idéias como, por exemplo, quando ele diz que tradições religiosas não-cristãs, estão preparadas para acolher a Cristo, o Verbo Divino.
O que podemos aprender nós, hoje, do confronto, de tons frequentemente fortes, entre Bernardo e Abelardo e, em geral, entre a teologia monástica e aquela escolástica? Primeiro de tudo, creio que nos mostra a utilidade e a necessidade de uma saudável discussão teológica na Igreja, especialmente quando os assuntos discutidos não foram definidos pelo Magistério que, por sua vez, continua sendo uma referência incontornável. São Bernardo, mas também Abelardo, sempre reconheceram sem exitação a autoridade. Além disso, as condenações que Abelardo sofreu nos recorda que deve haver um equilíbrio entre o que chamamos de princípios arquitetônicos dados a nós pela Revelação e que conservam, portanto, sempre uma prioritária importância, e aquelas interpretações sugeridas pela filosofia, ou seja, pela razão, e que têm um papel importante, mas instrumental. Quando este equilíbrio entre a arquitetura e os instrumentos de interpretação é esquecido, a reflexão teológica corre o risco de ser afetada por erros e é, então, que do Magistério se espera aquele necessário serviço à verdade que lhe caracteriza. Além disso, é bom salientar que dentre os motivos que levaram Bernardo a "tomar partido" contra Abelardo e solicitar a intervenção do Magistério, estava aquele de salvar os fiéis simples e humildes, que devem ser defendidos quando correm o risco de serem confundidos ou desviados por opiniões muito pessoais e por argumentos teológicos duvidosos, que podem comprometer a sua fé.
Gostaria de recordar, enfim, que o confronto teológico entre Bernardo e Abelardo terminou com uma plena reconciliação entre os dois, por meio da mediação de um de seus amigos, o abade de Cluny, Pedro, o venerável, de quem falei em uma das catequeses anteriores (14.10.2009). Abelardo mostrou humildade em reconhecer seus erros e Bernardo usou de grande bondade. Prevaleceu em ambos o que deve realmente estar no centro, quando nasce uma controvérsia teológica: salvar a fé da Igreja e fazer triunfar a verdade na caridade. Que esta seja, ainda hoje, a virtude com a qual se discute na Igreja, tendo sempre como meta a busca da verdade.
(tradução livre, exclusiva para esse blog)

