terça-feira, 17 de junho de 2008

O pecado - Parte 4


A partir daquela nossa regra de ouro (ser fiel à resposta de amor ao amor de Deus em todas as suas manifestações), podemos fazer mais uma pergunta muito interessante para avançarmos na compreensão do pecado e de suas conseqüências. E que pergunta é essa?

A gravidade do pecado

Certa vez ouvi uma pessoa dizendo que "pecado é sempre pecado, é tudo igual". Desconfiei disso assim que escutei. Na verdade, fui descobrindo que naquela frase havia erros e acertos. É certo dizer que "pecado é sempre pecado", já que o pecado é sempre uma negação do amor de Deus. Parece-me errado, no entanto, dizer que pecado "é tudo igual".

Em 1 João 5,17, lemos que "toda a iniquidade é pecado, mas nem todo o pecado conduz à morte." Note que nessa passagem, o autor sagrado estabelece uma diferença entre os pecados quanto à gravidade que possuem: uns conduzem diretamente à morte enquanto outros não (ao menos não de modo direto!)

Por isso a tradição da Igreja procurou expressar essa distinção quanto à gravidade classificando os pecados em "mortais" ou "veniais". Você deve se recordar de ter ouvido esses termos, ao menos alguma vez, não é mesmo? Vamos tentar entender a diferença e você verá que a experiência humana acaba confirmando essa distinção.

Que é o pecado venial?

Às vezes, nossas ações acabam ferindo o preceito do amor, sem porém atacá-lo em seus fundamentos. Quer um exemplo disso? Procure imaginar as vezes que ironizamos o que disse uma pessoa simplesmente porque não simpatizamos com ela. Se você pensar bem, existe aí uma falta contra o preceito do amor, já que não temos o direito de faltar com o respeito para com alguém só pelo fato de que não simpatizamos com seu modo de ser. Apesar de ser uma falta contra o amor ao próximo, ela não é capaz de exterminar o amor em suas raízes.

Por outro lado, o pecado venial, embora não fira gravemente o amor, vai enfraquecendo-o pouco a pouco. Por isso, é importante darmos atenção a ele já que, muitas vezes praticado, sem o devido arrependimento, pode nos dispor a cometer o pecado mortal.

E o pecado mortal?

Para que um pecado seja mortal, são necessárias três condições inseparáveis: a liberdade e consciência (como vimos na postagem passada), além de ter como objeto de sua ação uma matéria considerada grave. A matéria considerada grave, em geral, prescrita nos Dez Mandamentos da Lei de Deus.

O pecado mortal destrói o amor no coração do homem, desviando-o radicalmente de Deus. Ele, por sua natureza, é capaz de romper a aliança com Deus, não por querer de Deus, mas por conseqüência de sua própria gravidade. E justamente por isso, tal situação exige uma profunda conversão do coração e uma nova iniciativa da misericórdia de Deus que, normalmente se realiza no Sacramento da Reconciliação.

Bem, o que importa afirmar aqui é que, mesmo podendo julgar que um ato é, em si, uma falta grave, não devemos nos esquecer jamais que o julgamento sobre as pessoas deve ser confiado à justiça e à misericórdia de Deus.

Bem, ficamos por aqui.

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O pecado - Parte 3


À medida em que avançamos na compreensão do que é o pecado e de suas conseqüências, vamos sendo fortalecidos na luta que devemos travar contra ele se quisermos responder ao imenso amor de Deus que experimentamos a todo o momento.

Procuramos responder ao que é o pecado e ao por quê pecamos. Peço licença para retomarmos a idéia final da última postagem para recordar que, embora o pecado original tenha sido apagado em nós quando fomos batizados em Cristo, permanecem as conseqüências dele que se traduzem na inclinação que trazemos para o mal. Essa inclinação ao mal é chamada de concupiscência. É uma palavrinha meio difícil, não é mesmo? Mas, ao mesmo tempo, deve ser por nós muito bem conhecida, já que a usaremos daqui em diante todas as vezes em que nos recordarmos do assunto. Também relembro que a concupiscência em si mesma não é pecado, já que é apenas uma inclinação e que, sozinha, não pode nos levar a pecar. Pecamos porque, no fundo, atendendo a essa inclinação interior, optamos voluntariamente pelo pecado. Vamos dar mais um passo a frente?

Quando pecamos?

Várias pessoas nos perguntam como saber se o que fizeram pode ser considerado pecado. Existe uma regrinha de ouro que poderá nos ajudar de modo muito prático, a começarmos a responder a essa e a outras perguntas: de um modo geral, todas as vezes que ferimos o preceito do amor, poderemos considerar que pecamos.

No entanto, para que algo seja considerado pecado são necessárias duas condições fundamentais e inseparáveis: a liberdade e a consciência. Se uma dessas condições faltarem na situação analisada, podemos afirmar que não ali não existe o pecado ou sua gravidade foi em muito diminuída... Vamos, rapidamente, analisar estas duas condições?

A liberdade

Definir o que é liberdade não é muito fácil. Costuma ser um desafio para os grandes filósofos e pensadores. Porém, para que tenhamos uma idéia mínima sobre o assunto, podemos dizer que ela seja um dom precioso de Deus pelo qual somos aptos a praticar atos deliberados, ou seja, a decidir e escolher por conta própria.

Todo o pecado possui em sua raiz o uso da liberdade. Por isso dizemos que nada pode levar o homem a pecar se ele realmente não o quiser. Existem coisas que podem influenciá-lo, mas jamais obrigá-lo a pecar. E por que podemos dizer que sem liberdade não há pecado? Porque ninguém que tenha feito algo à força pode ser considerado culpado.

A consciência

Eis outro termo muito difícil de definir. Aqui, nós estamos utilizando-o apenas no sentido de ter conhecimento da gravidade do fato. Que quer dizer isso? Significa afirmar que um fato só pode ser considerado pecado quando aquele que o cometeu tem consciência (ou seja, conhece) a gravidade do erro cometido. E por que podemos dizer que sem conhecimento da gravidade não há pecado? Porque ninguém que tenha feito algo sem saber que era errado pode ser considerado culpado.

Mas atenção aqui! Existem algumas normas que, por sua natureza, tem o dever de ser conhecidas, cuja violação não admite a desculpa da falta de conhecimento delas. Vamos dar exemplos? O primeiro que lhe apresento é um tanto forte, mas creio que explique bem o que queremos dizer: ninguém pode alegar que não é culpado por ter matado alguém simplesmente pelo fato de que não sabia ou nunca lhe disseram que isso fosse um grave erro! Outro exemplo mais corriqueiro: não posso dizer que não tenho culpa por infringir alguma lei civil que não tinha conhecimento (note bem: todo cidadão tem o dever de conhecer as leis que regem a sociedade!).

Bem, encerramos a postagem de hoje, alertando que não se trata de ficarmos durante todo o dia tentando, em cada mínima coisa que fazemos, descobrir se agimos livremente e com real conhecimento da gravidade dos fatos. Aquilo que procuramos aprender aqui quer apenas nos ajudar a compreender como agimos e quando acabamos pecando. No dia-a-dia, continua valendo aquela regrinha de ouro: jamais ferir o preceito do amor! A pergunta que devemos nos fazer todos os dias é: estou sendo fiel à minha resposta de amor ao amor de Deus em todas as suas manifestações?

Ficamos por aqui. A gente se vê amanhã!

Deus abençoe sua vida!

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.

domingo, 15 de junho de 2008

11º Domingo do Tempo Comum - Ano A - 2008

Evangelho (Mateus 9,36 –10,8)

— O Senhor esteja convosco!
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, † segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, 36vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: 37”A Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” 10,1 Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade. 2 Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu Irmão João; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus. 5 Jesus enviou estes Doze, com as seguintes recomendações: "Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! 6 Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: 'O Reino dos Céus está próximo'. 8 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!"

— Palavra da Salvação.
— Glória a Vós, Senhor.


É muito bom observarmos qual o caminho que o Senhor tem feito conosco, pela liturgia dominical, desde que, depois do Tempo Pascal, entramos novamente no Tempo Comum. Se formos atentos, veremos que Ele vem formando em nós um coração de discípulos. Estamos numa verdadeira escola de discipulado! No 8º Domingo do Tempo Comum, primeiro depois dessa retomada após a Páscoa, ele nos exortou a buscarmos em primeiro lugar o Reino de Deus que o demais nos será dado por conseqüência. Quando celebramos o 9º Domingo, ouvimos do Senhor que era preciso construir nossa vida de discípulos a partir dele, ouvindo sua palavra e a colocando em prática. No domingo passado, Ele nos advertiu que de nada adianta observarmos seus mandamentos se não o fizermos por amor, já que o Senhor quer de nós misericórdia e não sacrifício.

Acompanhar o caminho que Ele tem nos levado a percorrer, nos leva a compreender o sentido de nossa caminhada dentro da Igreja: estamos sendo formados por Ele. Posso dizer sem medo de errar: o Senhor está investindo em nós, está investindo em você, meu amigo! E por que, para que? São essas pergunta que Ele deseja responder nesse 11º Domingo do Tempo Comum.

Cansados e abatidos como ovelhas que não tem pastor

Eis o por quê o Senhor esta investindo em nós, formando dentro de nós um coração de discípulos. Naquele tempo, Jesus olhava para o povo e percebia que estavam cansados e abatidos como ovelhas sem pastor, sem alguém que cuide delas. Observe que a situação dos nossos dias não é diferente... Quanta gente cansada e abatida pelas lutas da vida, pensando em desistir porque já não encontra força ou sentido para continuar? Quantos afastados de Deus e de sua Igreja que já desistiram de procurá-lo porque não encontram quem o anuncie? Quantos os que ainda se encontram dentro de sua Igreja, mas não conseguem abrir os olhos e o coração porque aquilo que escutam não tem sido capaz de transformar-lhes o coração que já se endureceu?

É olhando para tudo isso que o Senhor nos convida a pedir que o Pai envie mais pastores para cuidar de um povo abatido e cansado. Mas também para isso, o Senhor está investindo em você! Sim, em você mesmo! Existem lugares onde o padre ou o religioso consagrado não pode chegar, mas você sim! Existem pessoas que há muito tempo já não têm contato algum com padres ou religiosos consagrados, mas se encontram todos os dias com você! Já pensou nisso? Já procurou compreender que em muitas ocasiões o Senhor conta apenas com você, com sua palavra e seu testemunho? É por causa disso tudo que Ele está formando um coração de discípulo dentro de seu peito... E mais! Um verdadeiro discípulo faz novos discípulos! Há muita gente com grande potencial para anunciar o Senhor, mas que sequer o conhecem ainda... O despertar de muita gente depende do nosso anúncio, do nosso testemunho, do nosso discipulado. Não podemos ficar parados! Precisamos ser criativos no lugar onde o Senhor nos coloca (empresas, escolas, faculdades, igrejas, entre os amigos do bairro, dentro do ônibus ou no metrô entre os desconhecidos...) para saber fazer chegar sua boa notícia a todos!

Depois de compreendermos o por quê o Senhor nos está formando discípulos seus, resta-nos perguntar para que. Então: para que é mesmo?

Jesus chamou os doze e deu-lhes poder

Isso mesmo... A resposta ao para que é para nos dar poder. Mas calma aí! Esse poder não tem o significado que geralmente atribuímos a essa palavra. Qual é seu significado então? Bem, quem recebe poder da parte de alguém, recebe a autorização de falar e agir em nome dele. Eis o poder que Deus confere a seus discípulos. Ele forma em nós um coração de discípulos para nos enviar em seu nome aos cansados e abatidos!

Importante frisarmos a expressão "em seu nome"! Nós não vamos em nosso nome, levando nossas idéias ou mesmo "nosso jeito" de compreender. Não! Nós vamos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, levando uma boa notícia que não é nossa, mas de Deus, do jeito que Ele deseja que seja comunicada! Somos discípulos dele! É claro que, nos mantendo fiéis ao conteúdo da boa notícia, podemos ser criativos na forma. Eu me explico: eu, por exemplo, não sei se saberia falar dessas coisas para um grupo de skatistas. Primeiro que eu não pratico esse esporte e acabo não me encontrando com eles, depois porque entre eles existe um tipo de linguagem que só entende quem está com eles. Pois bem! O Senhor quer skatistas entre os seus discípulos. Você que é skatista já sabe qual sua missão como cristão em meio aos seus amigos! E assim por diante...

A liturgia desse domingo nos apresenta o grupo de apóstolos como modelo de fé e ação. De fato, nossa Igreja se diz apostólica por causa disso: está embasada no ensinamento dos apóstolos e possui em seus pastores (os bispos) seus legítimos sucessores. Portanto, todo o nosso serviço de evangelização (mesmo o menor deles) nós o fazemos em comunhão com os nossos pastores. É a Igreja inteira, em comunhão com seus pastores, em missão pelos "quatro cantos" do mundo!

Bem... Você já viu que eu gosto de escrever, não é mesmo? (rs) Haja visto o tamanho das postagens! Por isso não poderia terminar essa reflexão sem fazer mais uma pergunta (hehe). Já vimos o por quê, o para que o Senhor forma em nós um coração de discípulos. Se entendemos isso, temos que nos perguntar o 'como' faremos isso. Vamos lá?

Anunciai: O Reino dos Céus está próximo

Eis a mensagem central daquilo que devemos testemunhar com nossa vida. A palavra ´'próximo' nesse contexto significa que o Reino está no meio de nós, está ao nosso alcance! Quanta gente precisa descobrir essa verdade...! E somos nós, que fazemos a experiência do Reino, que temos que anunciá-la!

De fato, há muita gente que não consegue mais perceber a novidade de Deus presente no dia-a-dia de sua vida. Não sentem mais sua presença amiga e, por isso, perderam o sentido da vida. Daqui que posso compreender porque tanta gente quando questionada como vai a vida, responde com um "empurrando com a barriga"... Meu Deus! Não há maneira mais sem graça de viver que essa: "empurrando com a barriga". Não! Somos chamados a experimentar Deus presente junto de nós, devolvendo-nos o sentido da vida e o gosto de viver! Por isso esse é o ponto central de nossa mensagem: o Senhor está no meio de nós, está ao nosso alcance!

É interessante esse "está ao nosso alcance"... Se está ao nosso alcance, por que então Ele não nos alcança? Porque falta uma parte fundamental nessa relação: a nossa. Precisamos nos decidir por ele, buscá-lo, dar nosso passo em direção a Ele! É para isso que precisamos fazer com que muitos corações despertem: "Buscar-me-eis e me encontrareis; procurar-me-eis do fundo do coração e eu me deixarei encontrar por vós - diz o Senhor" (Jeremias 29, 13-14a).

E os sinais que acompanharão esse nosso anúncio de vida eterna são estes: expulsaremos espíritos maus, curaremos todo tipo de doença e enfermidade, ressuscitaremos os mortos, purificaremos os leprosos etc. Tudo isso para dizer que seremos portadores de vida, vida plena, vida de Deus ao coração de muitos!

Meu caro amigo, esse convite é irrecusável!
Olhe a seu redor nesse instante... Certamente você já poderá ver por onde começar!
Tá esperando o que?! Eu aceito o convite e topo o desafio! E você?

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.

sábado, 14 de junho de 2008

O pecado - Parte 2



Depois de uma semana, retomamos nosso caminho de reflexão sobre o pecado. Recordo-me que terminamos nossa primeira postagem sobre o assunto colocando-nos em diálogo com o Senhor. Nós lhe pedimos a graça de nos libertar de todo e qualquer medo de Deus, de acolher e experimentar seu imenso amor e de reconhecer que pecamos, ou seja, o desprezamos, faltando com a nossa necessária resposta ao amor de Deus por nós. Podemos agora, creio, dar um passo avante em nossa reflexão.

Afinal, por que pecamos?

À medida em que procuramos responder ao amor de Deus, vamos sentindo a necessidade de dizer não ao pecado. Porém, experimentamos que isso não é tão fácil assim. Talvez você já tenha percebido que não basta dizer não ao pecado para que não sinta mais vontade de cometê-lo. A primeira percepção daquele que se decide por lutar contra o pecado na própria vida é de que isso exige um esforço contínuo de vigilância sobre si mesmo. E por que? Porque todo ser humano traz consigo uma inclinação natural ao pecado com a qual terá que travar uma luta constante.

Interessante que essa experiência que fazemos coincide com aquilo que Deus nos revelou sobre o pecado. O relato da história de Adão e Eva no paraíso (cf. Gn 3) procura, de modo figurado, nos explicar uma verdade de fé fundamental: Deus fez o ser humano bom, mas ele se deixou seduzir pelo Mal e, por isso, perdeu a graça da santidade original. A Escritura também descreve as conseqüências dramáticas deste primeiro pecado (cf. Gn 4). A esse primeiro pecado, nós o denominamos como "pecado original". Se por iniciativa de Deus, o ser humano vivia na graça da santidade original, pelo uso de sua própria liberdade, o mesmo ser humano cometeu o pecado original que, outra coisa não é, senão a recusa da graça de Deus.

As figuras de Adão e Eva representam, na verdade, todo o gênero humano. O pecado por eles cometido diz respeito a toda a natureza humana. Isso significa dizer que pelo fato de sermos humanos, somos atingidos profundamente por esse pecado. O pecado original, portanto, é o único que não o cometemos por livre e espontânea vontade, mas o herdamos por natureza, nascemos atingidos por ele.

Porém, quando somos batizados, pela graça de Cristo nos tornamos uma nova criatura. A graça que experimentamos no batismo apaga o pecado original e nos faz voltar à comunhão com Deus. No entanto, as conseqüências de tal pecado permanecem em nós. Mas como assim? É como quando cometemos qualquer outro pecado e somos perdoados; o perdão apaga a culpa que tínhamos, mas as conseqüências dela permanecem. Assim, se você, por exemplo, ofendeu gravemente alguém e se arrependeu, Deus absolve a sua culpa, mas a ofensa a tal pessoa está feita, deverá ser reparada por você... Da mesma forma acontece com o pecado original: ele é apagado pela graça de Cristo recebida no batismo, mas suas conseqüências permanecem em nós. Tais conseqüências se refletem na inclinação para o mal que experimentamos dentro de nós.

Ah, agora as coisas vão ficando mais claras! Essa inclinação para o pecado que todos nós trazemos dentro de nós é a conseqüência do pecado original? Exatamente! É por isso que nos sentimos muitas vezes divididos entre o bem e o mal, queremos o bem, nos sentimos inclinados ao mal: é a força dessa inclinação agindo em nós. E é justamente contra ela que nós devemos lutar se quisermos vencer a batalha contra o pecado. Lutar contra essa inclinação é atacar o pecado em sua raíz...

Mas, para concluir, precisamos responder à pergunta inicial: "por que pecamos?" Pois então. Só essa inclinação não é capaz de nos fazer pecar, ela é apenas uma tendência, uma propensão. Nós pecamos porque não resistimos a ela e acabamos, livre e conscientemente, optando pelo mal. O pecado, resumindo, é sempre uma ação livre e consciente, ou seja, pecamos por opção mesmo...

Bem, imagino que você esteja se fazendo outras perguntas. Mas por hoje é só, já temos bastante coisa para refletir... A gente se vê na segunda-feira, por aqui.

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.

domingo, 8 de junho de 2008

10º Domingo Tempo Comum - Ano A - 2008

Evangelho (Mateus 9, 9-13)

— O Senhor esteja convosco!
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, † segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, 9 partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: "Segue-me!" Ele se levantou e seguiu a Jesus. 10 Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. 11 Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: "Por que vosso Mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?" 12 Jesus ouviu a pergunta e respondeu: "Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. 13 Aprendei, pois, o que significa: 'Quero misericórdia e não sacrifício'. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores".

—Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor!



Nós que temos a grande graça de participar, senão diariamente, ao menos todos os domingos da Santa Missa, corremos ao mesmo tempo, um grande perigo, se não compreendemos qual o sentido dessa nossa participação. Muitas pessoas, por exemplo, acabam caindo num ritualismo estéril, ou seja, acreditam que agradam a Deus simplesmente pelo fato de "cumprirem um dever". E não só... Algumas se julgam melhores que as outras justamente por isso, considerando como "perdidos" àqueles que não vivem a mesma observância...

Talvez você esteja achando estranho o modo como comecei a reflexão desse 10º Domingo do Tempo Comum. Não estou dizendo que não é importante e necessário cumprir nossos "deveres" religiosos. Estou afirmando que se não compreendermos o real sentido do que fazemos, corremos um sério risco de "trocar os pés pelas mãos". Estou explicando que o cumprimento de preceitos não garante a salvação a ninguém, nem nos faz ser melhores que os outros, já que o próprio Senhor nos adverte quando diz que "nem todo o que me diz 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos Céus"

Para compreender melhor a força das palavras do Evangelho que acabamos de ler, é necessário recordar que a figura dos coletores de impostos era muito ligada a dos ladrões, pessoas sem nenhum escrúpulo que, em nome dos romanos, roubavam e enganavam a muitos. Essa categoria de pessoas e a dos pecadores públicos eram objetos de grande desprezo da parte de todos, justamente porque eram considerados impuros.

Jesus parece chocar os "observantes dos preceitos da lei" quando convida o conhecido cobrador de impostos para segui-lo... Mas não só, pois choca também quando se coloca à mesa com toda a sorte de pecadores! Aqui é necessária uma outra explicação: no mundo oriental, sobretudo na Palestina, a refeição era um momento de alta intimidade entre as pessoas; ao aceitar o convite de um pecador, ou seja, de alguém absolutamente impuro, Jesus infringia diretamente os preceitos das leis rabínicas. Por esse motivo os fariseus se colocam contra ele de modo tão incisivo.

Se você tem acompanhado as outras postagens do blog, sobretudo as últimas sobre a misericórdia e o perdão, sabe bem que os fariseus eram estritos observantes da lei e, pensavam alcançar dessa forma, a salvação. Para eles, salvos eram os puros, ou seja, aqueles que guardavam a pureza dos ritos prescritos. Para manterem-se puros, portanto, era necessário afastar-se daqueles que não o eram. Não havia outra saída a não ser a segregação...

É nesse contexto que Jesus lhes diz: "quero misericórdia e não sacrifício", citando Oséias 6,6. Por isso, hoje, nós também precisamos estar atentos sobre quantas vezes colocamos o "preceito" acima da prática do amor e do perdão. Volto a afirmar que Jesus em momento algum está dizendo que os preceitos não são importantes e não devam ser cumpridos, porém ensina que eles são estéreis se não estão a serviço do amor.

Isso vale tanto para o julgamento que infelizmente fazemos dos outros, mas também para o auto-julgamento. Não são poucas as pessoas que buscam cumprir todos os preceitos por medo ou movidas por outra motivação que não o amor como resposta ao amor de Deus que nos ama primeiro. A essas pessoas, não posso concluir essa postagem sem lhes dizer que Deus sabe que não seremos perfeitos da noite para o dia e, exatamente por isso, tem paciência conosco. Que coisa Deus, então, pede de nós? Que sejamos constantes em nossa resposta de amor. Aí sim... Quando entendermos nossa prática religiosa como resposta de amor, poderemos ser fiéis a ela, atentos observantes do preceito do amor. E só assim aprenderemos a não julgar aqueles que ainda não conseguiram compreender isso... Seremos pacientes com eles assim como Deus o é com a gente...

Peçamos a Deus a graça a Deus redescobrirmos o sentido de toda a nossa vivência religiosa: resposta de amor ao amor que de Deus experimentamos. Dessa forma, nossas orações pessoais, nossos rosários, nossas meditações bíblicas, nossas confissões, nossas missas, mesmo nossos atos de caridade para com o próximo, enfim, toda a nossa prática religiosa, terá um novo sabor, terá um gosto de amor a Deus vivido de verdade!

Boa semana a todos!

Com afeto salesiano

P. Mauricio Miranda.

sábado, 7 de junho de 2008

O pecado - Parte 1




Dedicar várias postagens ao tema do pecado é, sem dúvida alguma, um ato de coragem. Sabe por que? Porque não creio que exista uma palavra mais fora de moda do que esta, hoje em dia... Imagine você alguém entrando pela primeira vez nesse blog e avistando, logo de cara, a primeira postagem com o título "O pecado". É bem provável que não tenha nem vontade de ler pensando que se trata de uma lista de proibições e condenações do tipo "não faça isso que Deus castiga..." No caso de um blog assinado por um padre, pode ser que a coisa só complica mais... rs

O fato é que as pessoas, em geral, perderam a real noção do pecado e de seu alcance, preferindo viver como se ele não existisse ou distorcendo completamente o seu sentido. Assim, encontramos, de um lado, aqueles que pregam a filosofia do "libera geral" que, de livre - digamos a verdade - não tem nada. E, do outro lado, estão aqueles que distorcem o significado da palavra, acreditando ser possível provar "o doce sabor do pecado"; a julgar pelo modo como acabam vivendo, parece que estão sempre com indigestão...

Tentaremos resgatar, aqui, o sentido dessa palavra. Não lhe peço que acredite imediatamente nas coisas que verá escritas aqui, mas procure lê-las com atenção, refletir com o coração e tirar suas próprias conclusões. Bem, mais uma coisa não posso esconder de você... Você não está sozinho diante do computador. Tem um grande Amigo (cf. João 15,15) que lhe acompanha nessa leitura. Se ao longo dela, você perceber que Ele lhe sopra algumas palavras "ao pé do ouvido", pare imediatamente e procure escutá-lo, está bem? Então, vamos lá!

Por que depois de tantas postagens sobre a Misericórdia, começamos a falar do pecado? É que ambos os assuntos estão intimamente ligados um ao outro. Falar de um é necessariamente tratar de outro. Espero que com essas postagens de agora, você consiga compreender o por quê!

Mas o que é o pecado?

Não é possível responder a essa pergunta sem que antes tenhamos feito uma real experiência do amor de Deus. Por isso muitas pregações que fazemos não alcançam o resultado desejado. Começamos pelo lado errado! Queremos que as pessoas entendam o que é o pecado sem antes levá-las a descobrir a maior e mais bela verdade de nossas vidas: todos somos amados por Deus!

Evangelho significa "boa notícia de Deus". Não podemos nos esquecer que somos portadores de uma grande e alegre novidade da parte de Deus à vida das pessoas. A primeira coisa da qual Deus deseja nos convencer não é que somos pecadores, mas sim, que somos seus filhos amados. Fazer a experiência desse amor é fundamental! Permitir que esse amor nos devolva o sentido da nossa vida é o único e grande querer de Deus!

E sabe por que? Porque quanto mais experimentamos o amor de Deus, mais vamos sentindo a necessidade de amá-lo também. Não há outra forma de corresponder a tanto amor senão amando-o também! É, então, quando descobrimos que "amor com amor se paga" e, enfim, procuramos transformar tudo o que somos e vivemos numa grande resposta de amor!

A partir disso, podemos definir o pecado como sendo o ato pelo qual nos negamos a responder ao amor de Deus por nós. Como vimos, "Deus é Amor" (I Jo 4,8) e, portanto, toda a falta de amor é, em si, um desprezo à pessoa de Deus.

Isso, além de triste, é extremamente grave! Quando digo extremamente grave, minha intenção não é lhe deixar com medo porque Deus não quer que tenhamos medo dele, mas a gravidade está no fato de que estamos sendo profundamente mal-agradecidos a um amor totalmente gratuito... Como podemos continuar querendo agir assim?!

De fato, quando deseja nos convencer do pecado, Deus introduz o medo em nosso coração, pois quem ama não pode sentir medo. Compreender o pecado como uma imensa falta de amor a Deus significa reconhecer que temos sido extremamente ingratos, com uma ingratidão que fere o coração de Deus e também o nosso...

Por isso lhe convido a dar um primeiro passo de libertação! Isso mesmo! Convido-lhe a libertar-se do medo de Deus, do medo de ir para o inferno, do medo de ser castigado, enfim, de todo e qualquer medo que tenhamos de Deus ou das coisas que se referem a Ele. Definitivamente, Deus não quer que tenhamos medo! O que nos leva a nos decidir por não mais pecar não é o medo que sintamos, mas a convicção de que o pecado é uma ofensa grave ao amor de Deus por nós.
"No amor não há temor,
pois o amor perfeito joga fora o temor porque o temor implica castigo
e quem teme não é perfeito no amor.
Nós, porém,
amamos porque Ele nos amou primeiro."
(I Jo 4,18-19).

Quero concluir essa postagem de hoje, sugerindo que você reflita um pouco sobre sua falta de amor. Todos nós pecamos. "Se dissermos: 'Não temos pecado', enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Mas ao contrário, se confessamos os nossos pecados, Ele que é fiel e justo, perdoará os nossos pecados e nos purificará de toda a injustiça" (I Jo 1,8-9).

Termine essa postagem fazendo uma breve oração com suas próprias palavras. Comece pedindo desculpas a Deus por não responder como deveria ao grande carinho que Ele tem por você. Se ainda sente medo dele, peça que o liberte disso e que dê a seu coração um renovado amor, um amor capaz de sacrificar-se, se preciso for, para nunca desprezá-lo, para nunca esquecer o grande e verdadeiro amor de sua vida: Deus.

Boa conversa com Ele...

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.