domingo, 16 de março de 2008

"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?" (Mt 27,46b)

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor - Ano A - 2008




Evangelho (Mt 26, 14 - 27,66)


- O Senhor esteja convosco!
- Ele está no meio de nós.
- Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, † segundo Mateus.
- Glória a vós, Senhor!


Naquele tempo, um dos doze discípulos, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse: "O que me dareis se vos entregar Jesus?" Combinaram, então, trinta moedas de prata. E daí em diante, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus.

No primeiro dia da festa dos ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: "Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?" Jesus respondeu: "Ide à cidade, procurai certo homem e dizei-lhe: 'O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo, vou celebrar a Páscoa em tua casa, junto com meus discípulos"'. Os discípulos fizeram como Jesus mandou e prepararam a Páscoa.

Ao cair da tarde, Jesus pôs-se à mesa com os doze discípulos. Enquanto comiam, Jesus disse: "Em verdade eu vos digo, um de vós vai me trair". Eles ficaram muito tristes e, um por um, começaram a lhe perguntar: "Senhor, será que sou eu?" Jesus respondeu: "Quem vai me trair é aquele que comigo põe a mão no prato. O Filho do Homem vai morrer, conforme diz a Escritura a respeito dele. Contudo, ai daquele que trair o Filho do Homem! Seria melhor que nunca tivesse nascido!" Então Judas, o traidor, perguntou: "Mestre, serei eu?" Jesus lhe respondeu: "Tu o dizes".

Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a bênção, partiu-o, distribuiu-o aos discípulos, e disse: "Tomai e comei, isto é o meu corpo". Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lhes, dizendo: "Bebei dele todos. Pois isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados. Eu vos digo: de hoje em diante não beberei deste fruto da videira, até o dia em que, convosco, beberei o vinho novo no Reino do meu Pai". Depois de terem cantado salmos, foram para o monte das Oliveiras.



Então Jesus disse aos discípulos: "Esta noite, vós ficareis decepcionados por minha causa. Pois assim diz a Escritura: 'Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarão'. Mas, depois de ressuscitar, eu irei à vossa frente para a Galiléia". Disse Pedro a Jesus: "Ainda que todos fiquem decepcionados por tua causa, eu jamais ficarei". Jesus lhe declarou: "Em verdade eu te digo, que, esta noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes". Pedro respondeu: "Ainda que eu tenha de morrer contigo, mesmo assim não te negarei". E todos os discípulos disseram a mesma coisa.

Então Jesus foi com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse: "Sentai-vos aqui, enquanto eu vou até ali para rezar!" Jesus levou consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, e começou a ficar triste e angustiado. Então Jesus lhes disse: "Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo!" Jesus foi um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto por terra e rezou: "Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. Contudo, não seja feito como eu quero, mas sim como tu queres". Voltando para junto dos discípulos, Jesus encontrou-os dormindo, e disse a Pedro: "Vós não fostes capazes de fazer uma hora de vigília comigo? Vigiai e rezai, para não cairdes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca". Jesus se afastou pela segunda vez e rezou: "Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, seja feita a tua vontade!" Ele voltou de novo e encontrou os discípulos dormindo, porque seus olhos estavam pesados de sono. Deixando-os, Jesus afastou-se e rezou pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. Então voltou para junto dos discípulos e disse: "Agora podeis dormir e descansar. Eis que chegou a hora e o Filho do Homem é entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos! Vamos! Aquele que me vai trair, já está chegando".


Jesus ainda falava, quando veio Judas, um dos Doze, com uma grande multidão armada de espadas e paus. Vinham a mandado dos sumos sacerdotes e dos anciãos do povo. O traidor tinha combinado com eles um sinal, dizendo: "Jesus é aquele que eu beijar; prendei-o!" Judas, logo se aproximou de Jesus, dizendo: "Salve, Mestre!" E beijou-o. Jesus lhe disse: "Amigo, a que vieste?" Então os outros avançaram, lançaram as mãos sobre Jesus e o prenderam. Nesse momento, um dos que estavam com Jesus estendeu a mão, puxou a espada, e feriu o servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha. Jesus, porém, lhe disse: "Guarda a espada na bainha! pois todos os que usam a espada pela espada morrerão. Ou pensas que eu não poderia recorrer ao meu Pai e ele me mandaria logo mais de doze legiões de anjos? Então, como se cumpririam as Escrituras, que dizem que isso deve acontecer?" E, naquela hora, Jesus disse à multidão: "Vós viestes com espadas e paus para me prender, como se eu fosse um assaltante. Todos os dias, no Templo, eu me sentava para ensinar, e vós não me prendestes". Porém, tudo isto aconteceu para se cumprir o que os profetas escreveram. Então todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram.

Aqueles que prenderam Jesus levaram-no à casa do Sumo Sacerdote Caifás, onde estavam reunidos os mestres da Lei e os anciãos. Pedro seguiu Jesus de longe até o pátio interno da casa do Sumo Sacerdote. Entrou e sentou-se com os guardas para ver como terminaria tudo aquilo. Ora, os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um falso testemunho contra Jesus, a fim de condená-lo à morte. E nada encontraram, embora se apresentassem muitas falsas testemunhas. Por fim, vieram duas testemunhas, que afirmaram: "Este homem declarou: 'posso destruir o Templo de Deus e construí-lo de novo em três dias" Então o Sumo Sacerdote levantou-se e perguntou a Jesus: "Nada tens a responder ao que estes testemunham contra ti?" Jesus, porém, continuava calado. E o Sumo Sacerdote lhe disse: "Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Messias, o Filho de Deus". Jesus respondeu: "Tu o dizes. Além disso, eu vos digo que de agora em diante vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-poderoso, vindo sobre as nuvens do céu". Então o Sumo Sacerdote rasgou suas vestes e disse: "Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Pois agora mesmo vós ouvistes a blasfêmia. Que vos parece?" Responderam: "E réu de morte!" Então cuspiram no rosto de Jesus e o esbofetearam. Outros lhe deram bordoadas, dizendo: "Faze-nos uma profecia, Cristo, quem foi que te bateu?"

Pedro estava sentado fora, no pátio. Uma criada chegou perto dele e disse: "Tu também estavas com Jesus, o Galileu!" Mas ele negou diante de todos: "Não sei o que tu estás dizendo". E saiu para a entrada do pátio. Então uma outra criada viu Pedro e disse aos que estavam ali: "Este também estava com Jesus, o Nazareno". Pedro negou outra vez, jurando: "Nem conheço esse homem!"

Pouco depois, os que estavam ali aproximaram-se de Pedro e disseram: "É claro que tu também és um deles, pois o teu modo de falar te denuncia". Pedro começou a maldizer e a jurar, dizendo que não conhecia esse homem! E nesse instante o galo cantou. Pedro se lembrou do que Jesus tinha dito: "Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes". E saindo dali, chorou amargamente.

De manhã cedo, todos os sumos sacerdotes e os anciãos do povo convocaram um conselho contra Jesus, para condená-lo à morte. Eles o amarraram, levaram-no e o entregaram a Pilatos, o governador.

Então Judas, o traidor, ao ver que Jesus fora condenado, ficou arrependido e foi devolver as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos anciãos, dizendo: "Pequei, entregando à morte um homem inocente". Eles responderam: "O que temos nós com isso? O problema é teu". Judas jogou as moedas no santuário, saiu e foi se enforcar. Recolhendo as moedas, os sumos sacerdotes disseram: "E contra a Lei colocá-las no tesouro do Templo, porque é preço de sangue". Então discutiram em conselho e compraram com elas o Campo do Oleiro, para aí fazer o cemitério dos estrangeiros. É por isso que aquele campo até hoje é chamado de "Campo de Sangue". Assim se cumpriu o que tinha dito o profeta Jeremias: "Eles pegaram as trinta moedas de prata - preço do Precioso, preço com que os filhos de Israel o avaliaram - e as deram em troca do Campo do Oleiro, conforme o Senhor me ordenou!"

Jesus foi posto diante do governador, e este o interrogou: "Tu és o rei dos judeus?" Jesus declarou: "É como dizes", e nada respondeu, quando foi acusado pelos sumos sacerdotes e anciãos. Então Pilatos perguntou: "Não estás ouvindo de quanta coisa eles te acusam?" Mas Jesus não respondeu uma só palavra, e o governador ficou muito impressionado. Na festa da Páscoa, o governador costumava soltar o prisioneiro que a multidão quisesse. Naquela ocasião, tinham um prisioneiro famoso, chamado Barrabás. Então Pilatos perguntou à multidão reunida: "Quem vós quereis que eu solte: Barrabás, ou Jesus; a quem chamam de Cristo?" Pilatos bem sabia que eles haviam entregado Jesus por inveja. Enquanto Pilatos estava sentado no tribunal, sua mulher mandou dizer a ele: "Não te envolvas com esse justo! porque esta noite, em sonho, sofri muito por causa dele". Porém, os sumos sacerdotes e os anciãos convenceram as multidões para que pedissem Barrabás e que fizessem Jesus morrer. O governador tornou a perguntar: "Qual dos dois quereis que eu solte?" Eles gritaram: "Barrabás". Pilatos perguntou: "Que farei com Jesus, que chamam de Cristo?" Todos gritaram: "Seja crucificado!" Pilatos falou: "Mas, que mal ele fez?" Eles, porém, gritaram com mais força: "Seja crucificado!" Pilatos viu que nada conseguia e que poderia haver uma revolta. Então mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão, e disse: "Eu não sou responsável pelo sangue deste homem. Este é um problema vosso!" O povo todo respondeu: "Que o sangue dele caia sobre nós e sobre os nossos filhos". Então Pilatos soltou Barrabás, mandou flagelar Jesus, e entregou-o para ser crucificado.

Em seguida, os soldados de Pilatos levaram Jesus ao palácio do governador, e reuniram toda a tropa em volta dele. Tiraram sua roupa e o vestiram com um manto vermelho; depois teceram uma coroa de espinhos, puseram a coroa em sua cabeça, e uma vara em sua mão direita. Então se ajoelharam diante de Jesus e zombaram, dizendo: "Salve, rei dos judeus!" Cuspiram nele e, pegando uma vara, bateram na sua cabeça. Depois de zombar dele, tiraram-lhe o manto vermelho e, de novo, o vestiram com suas próprias roupas. Daí o levaram para crucificar.

Quando saíam, encontraram um homem chamado Simão, da cidade de Cirene, e o obrigaram a carregar a cruz de Jesus. E chegaram a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer "lugar da caveira . Deram-lhe vinho misturado com fel para Jesus beber. Ele provou, mas não quis beber. Depois de o crucificarem, fizeram um sorteio, repartindo entre si as suas vestes. E ficaram ali sentados, montando guarda. Acima da cabeça de Jesus puseram o motivo da sua condenação: "Este é Jesus, o Rei dos Judeus". Com ele também crucificaram dois ladrões, um à direita e outro à esquerda de Jesus.

As pessoas que passavam por ali o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: "Tu que ias destruir o Templo e construí-lo de novo em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!" Do mesmo modo, os sumos sacerdotes, junto com os mestres da Lei e os anciãos, também zombavam de Jesus: "A outros salvou... a si mesmo não pode salvar! É Rei de Israel... Desça agora da cruz! e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que Deus o ama! Já que ele disse: Eu sou o Filho de Deus". Do mesmo modo, também os dois ladrões que foram crucificados com Jesus, o insultavam.


Desde o meio-dia até as três horas da tarde, houve escuridão sobre toda a terra. Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: "Eli, Eli, lamá sabactâni?", que quer dizer: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" Alguns dos que ali estavam, ouvindo-o, disseram: "Ele está chamando Elias!" E logo um deles, correndo, pegou uma esponja, ensopou-a em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara, e lhe deu para beber. Outros, porém, disseram: "Deixa, vamos ver se Elias vem salvá-lo!" Então Jesus deu outra vez um forte grito e entregou o espírito.

E eis que a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram. Os túmulos se abriram e muito corpos dos santos falecidos ressuscitaram! Saindo dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, apareceram na Cidade Santa e foram vistos por muitas pessoas. O oficial e os soldados que estavam com ele guardando Jesus, ao notarem o terremoto e tudo que havia acontecido, ficaram com muito medo e disseram: "Ele era mesmo Filho de Deus!" Grande número de mulheres estava ali, olhando de longe. Elas haviam acompanhado Jesus desde a Galiléia, prestando-lhe serviços. Entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

Ao entardecer, veio um homem rico de Arimatéia, chamado José, que também se tornara discípulo de Jesus. Ele foi procurar Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que lhe entregassem o corpo. José, tomando o corpo, envolveu-o num lençol limpo, e o colocou em um túmulo novo, que havia mandado escavar na rocha. Em seguida, rolou uma grande pedra para fechar a entrada do túmulo, e retirou-se. Maria Madalena e a outra Maria estavam ali sentadas, diante do sepulcro.



No dia seguinte, como era o dia depois da preparação para o sábado, os sumos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos, e disseram: "Senhor, nós nos lembramos de que quando este impostor ainda estava vivo, disse: 'Depois de três dias eu ressuscitarei!' Portanto, manda guardar o sepulcro até ao terceiro dia, para não acontecer que os discípulos venham roubar o corpo e digam ao povo: 'Ele ressuscitou dos mortos!' pois essa última impostura seria pior do que a primeira". Pilatos respondeu: "Tendes uma guarda. Ide e guardai o sepulcro como melhor vos parecer". Então eles foram reforçar a segurança do sepulcro: lacraram a pedra e montaram guarda.

- Palavra da Salvação!

- Glória a Vós, Senhor!



Caro amigo

O Tempo da Quaresma chega no seu ponto mais alto com o início da Semana Santa. Todo nosso esforço quaresmal de jejum, oração e penitência recebe sentido na celebração da Páscoa do Senhor, momento para o qual nos preparamos por meio dessa Semana tão especial.

Todo o nosso esforço penitencial encontra seu sentido na celebração da Páscoa. Quando nos arrependemos e somos perdoados de nossos pecados, renascemos para uma vida nova em Cristo. A vida nova em Cristo, nós a adquirimos pelo preço de sua Cruz e de sua Ressurreição.

O Mistério Pascal - Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor - é, portanto, o centro de toda a nossa vida. Tudo o que somos e vivemos deve ser lido à luz da Páscoa do Senhor.


Domingo de Ramos


A Semana Santa se inicia com o Domingo de Ramos, dia em que recordamos a entrada do Senhor em Jerusalém. Ele que, como todo o povo de Israel, subia a Jerusalém para a celebração da Páscoa, preparava na verdade a sua própria Páscoa... Enquanto os homens de seu tempo, seguindo os preceitos litúrgicos da época, iam oferecer um cordeiro sem mancha em sacrifício para o perdão dos pecados, Ele, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, preparava-se para oferecer-se a si mesmo por amor a nós, para nos resgatar do pecado e nos comunicar Sua Vida.

Por esse motivo, o Evangelho do Domingo de Ramos narra a Paixão de Nosso Senhor. De fato, toda sua vida se orientou para aquele momento. Tudo o que aconteceria a partir de sua entrada em Jerusalém seria decisivo: a instituição da Eucaristia, a Paixão e Morte do Senhor e sua Gloriosa Ressurreição dos Mortos. Esses acontecimentos, nós os celebraremos, respectivamente, no Tríduo Pascal: Quinta Santa, Sexta Santa e Sábado Santo. O Domingo de Páscoa, por excelência, nos recordará que Ele é vitorioso, vive e está no meio de nós...!

Desencontros...


Se nos permitirmos mergulhar no 'espírito' do Evangelho de hoje, veremos que ele é a narração da fraqueza e debilidade humanas que cedem à ação do mal no mundo e nos corações: vemos não somente Judas que entrega seu Senhor num beijo, mas acompanhamos também Pedro que jura não conhecê-lo por medo e que acaba chorando amargamente sua traição... Deparamo-nos frente a cegueira das autoridades que participam do julgamento de Jesus e a forma covarde como Ele, inocente, é açoitado e maltratado até a morte de Cruz, de onde, recebeu cusparadas e xingamentos de toda sorte. De fato, não há como negar que o Evangelho retrata de forma plena a ação da iniqüidade, o alcance do mal na história humana...

É uma verdade, sim, que o mal continua agindo no mundo. O 'mistério da iniqüidade' continua em ação. Diante dele, muitas vezes, nos deixamos desanimar e sentimos nossas forças se esgotarem. Cala no coração a frase que Jesus diz no alto da cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes" (Mt 27, 46b). Jesus, na verdade, repete a mesma frase presente no Salmo 22(21), 1. Ele assim o faz para se apropriar daquilo que o coração do salmista sente: o abandono... Dessa forma, Jesus assume o sofrimento humano para si, dando-lhe pleno sentido.

Meu irmão, não sofremos por acaso... Claro que nenhum de nós busca sofrer, mas não devemos nos negar a viver momentos difíceis que a vida nos apresenta. Quando sofremos, de certa forma, nos aproximamos da Paixão do Senhor. O sofrimento pelo qual passamos, quando associado à Cruz do Senhor, ganha um novo sentido... Deus nos fala muito por meio das situações doloridas pelas quais atravessamos, porque ninguém entende mais do coração humano que o próprio Deus...


Um grande encontro de amor


Por outro lado, diante de tanto sofrimento e humilhação, Jesus vai nos dando uma grande manifestação de amor. Um amor verdadeiramente humano (no sentido pleno da palavra porque tudo o que é realmente humano, é divino), capaz de tudo suportar e de permear toda a situação vivida de intenso e profundo significado redentor.

Não há como ler o Evangelho desse Domingo, sem se sentir profundamente amado, apesar de se fazer, ao mesmo tempo, a experiência do pecado que nos atinge. A narração da Paixão do Senhor nos dá essa graça: à medida que nos faz experimentar o amargor do pecado no fundo do nosso ser, também nos vai enchendo o coração da certeza de que somos amados! E mais! Vai nos convencendo de que esse amor é tão grande e tão forte que vence tudo, mesmo a mais cruel traição. Um amor que vai nos convencendo que, ainda em nossos dias, o Amor não é amado... E por isso também, desperta em nós o vivo desejo de amá-lo acima de tudo...

Mas a certeza de tudo isso, os discípulos a terão na Manhã da Ressurreição. Ali sim, eles dirão com toda a certeza, aquilo que nós cantamos, por meio de um antigo refrão, no Domingo de Páscoa:

"Meu coração me diz:
O Amor me amou e se entregou por mim!
Jesus Ressuscitou!

Passou a escuridão, o sol nasceu.
A vida triunfou!
Jesus Ressuscitou!"


Convido você a viver intensamente esses dias... Mas faça diferente! Viva essa Semana Santa como se fosse a primeira da sua vida, como se tudo que fosse ouvir e celebrar tivesse a graça do impacto do primeiro anúncio, aquele enche nosso coração de alegria e devolve o sentido à nossa vida.

Quero convidá-lo a viver essa Semana Santa também como se fosse a última... Sim, a última de sua vida! Procure celebrar de coração indiviso, vivendo cada palavra, cada minuto as coisas de Deus. Procure sentir e traduzir em vida cada palavra que sai da boca de Deus! E como não fazer a experiência da Misericórdia de Deus? Confessemo-nos nessa Semana, como se fosse a primeira e a última oportunidade... Peçamos, juntos, a graça de renascer para uma vida nova, a partir da Páscoa do Senhor! Vamos, junto, eu e vocês, pedir que Ele nos ensine que sua Páscoa, nós a vivemos todos os dias, pois a cada manhã somos tocados pelo Ressuscitado e convidados por Ele, com Ele e n'Ele a renascer....

Boa Semana Santa!
Que Ele fale ao nosso coração! Que Ele nos faça renascer...

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.


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