sexta-feira, 6 de junho de 2008

Deus de toda a misericórdia - Conclusão 2


Conforme prometido, concluímos essa série de postagens sobre a Misericórdia. Com essa "segunda" conclusão, foram ao todo, nove textos dedicados ao tema. Mesmo tendo ainda muito o que falar sobre o assunto, creio ter dito o mínimo suficiente para que tivéssemos alguns poucos elementos para refletir e orar. Hoje, por fim, analisaremos a segunda parte de toda a parábola do Pai Misericordioso, ou seja, os versículos 25 a 32 que, agora, exponho abaixo:

25 O Filho mais velho estava nos campos. Quando, ao voltar, se aproximou da casa, ouviu músicas e danças. 26 Chamando um dos servos, perguntou-lhe o que era aquilo. 27 Este lhe disse: 'É teu irmão que chegou e teu pai matou o bezerro gordo por tê-lo visto voltar bem de saúde'. 28 Então ele se encheu de cólera e não quis entrar. O pai saiu para pedir-lhe que entrasse; 29 mas ele disse ao seu pai: 'já faz tantos anos que eu te sirvo sem ter jamais desobedecido às tuas ordens; e, a mim, nunca deste um cabrito sequer para festejar com meus amigos. 30 Mas quando chegou esse teu filho que devorou teus bens com prostitutas, mataste o bezerro gordo para ele!' 31 Então o pai lhe disse: 'Meu filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. 32 Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão tinha morrido e está vivo; estava perdido e foi reencontrado'.

A cena, em si, nos parece clara: o irmão mais velho volta do trabalho no campo e, ao saber que o pai fazia festa ao irmão que havia retornado, se enche de cólera. Devo confessar uma coisa a vocês: sempre que leio esse trecho do evangelho, fico um pouco triste comigo mesmo porque minha primeira reação é a de dar plena razão ao irmão mais velho. É isso mesmo... A princípio, ela sempre me pareceu justa. Mas toda vez que leio, sempre acabo pedindo que Deus modifique meu coração que ainda não aprendeu o que realmente significa misericórdia...

A observação feita pelo irmão mais velho tem, a princípio, certa coerência. Ele, de fato, sempre trabalhou para seu pai e nunca havia recebido uma festa como aquela que agora via ser realizada para seu irmão que tinha - digamos a verdade - abandonado a casa e a família. Porém, a resposta que o pai lhe dá, nos ajuda a abrir também os nossos olhos... Vamos analisá-la melhor?

"Meu filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu, mas..."

Nessa resposta, em primeiro lugar o pai o reconhece como filho! E isso é muito importante! Reconhece também que ele sempre esteve ao seu lado e, exatamente por isso, declara que tudo o que é seu é dele também. Em nenhum momento, portanto, desmerece o próprio filho e a herança que, por direito, é dele. Em outras palavras, o pai proclama a justiça contida nos atos do próprio filho. Porém, assinala ao filho que lhe faltava o principal: a misericórdia! Era isso que tornava o coração daquele pai diferente do coração de todos!

É muito importante compreender as palavras de Jesus no contexto em que elas foram pronunciadas para que entendamos o sentido de toda a parábola. Recordem-se que Ele procurava responder à murmuração que partia dos fariseus, expressa em Lc 15, 2: "este homem dá boa acolhida aos pecadores e come com eles!" É por causa desse comentário que as três parábolas são incluídas ao longo desse capítulo do evangelho de Lucas. E o que de tão grave assim existe nesse tipo de comentário? Minimamente, podemos falar de intolerância e profunda crueldade...

Para entender melhor, precisamos nos perguntar sobre quem eram os fariseus. Fariseu (em hebraico, פרושים) era o nome dado a um grupo de judeus muito observantes da Torá, surgido no século II a.C. Com a destruição de Jerusalém (aproximadamente, 70 d.C.) e com a perda do poder por parte dos saduceus - de quem eram principais opositores - passaram a exercer grande influência no judaísmo de então. Tudo indica que fossem extremamente legalistas. A figura do irmão mais velho nessa parábola, tem por intenção, retratá-los. Notem que, na fala desse personagem, existe a seguinte expressão: "já faz tanto tempo que eu te sirvo sem ter jamais desobedecido às tuas ordens" (Lc 15, 29). Essa afirmação revela a confiança que os fariseus tinham de serem salvos pela estrita obediência à Lei. E, acreditem, isso não é um mal em si... Porém, a fala que condena o personagem e, que portanto, denuncia o público para o qual essa parábola se destinava, é essa: "mas quando chegou este teu filho..." Observem que com a expressão "este teu filho", o irmão mais velho se recusa a reconhecê-lo como irmão pelo simples fato de não ter sido fiel até o fim, como ele. Pois bem... Era exatamente assim que os fariseus agiam: não reconheciam os pecadores como filhos de Deus e, portanto, irmãos, simplesmente pelo fato de não conseguirem ser fiéis como eles imaginavam ser.

Meus amigos, precisamos admitir que em nossas comunidades e grupos, hoje em dia, costumamos agir muitas vezes assim... Quantas vezes nos julgamos melhores e mais dignos de reconhecimento que as outras pessoas! Por detrás de ações dessa natureza existem - verdade seja dita - intolerância e a mais cruel falta de misericórdia...

Com isso, Jesus não está dizendo que não vale a pena ser fiel até o fim. Pelo contrário, a fidelidade é tudo o que temos de buscar até o último minuto de nossa vida! Mas de nada adianta vivê-la se não formos movidos por amor... E por que? Porque Deus é amor e "amor com amor se paga". Uma fidelidade cega não leva a lugar nenhum...

Na verdade, meus amigos, se não há amor, não se pode falar de verdadeira fidelidade. Uma pessoa pode guardar todos os mandamentos e preceitos da Escritura, mas pode fazer por medo de Deus, por conveniência, por necessidade de ser reconhecida pelos outros, enfim, por tantos motivos internos. Essa atitude, no entanto, só será fidelidade quando for, em si, uma resposta de amor ao amor que de Deus recebemos!

É... Não sei como se sente o seu coração. O meu se sente pequenino... Sinto que preciso aprender, a cada dia, a amar de verdade. Ainda não sei o que é isso... Sinto que preciso ser fiel por amor e, com misericórdia, ajudar os meus irmãos a o serem também! É essa graça que tenho pedido a Deus.

Por falar nisso, sabem que quanto mais crescemos no amor, mais vamos aprendendo o que significa, de verdade, a palavra pecado? É, é isso mesmo! E aí está uma outra palavra, assim como misericórdia, tão distorcida ou, até mesmo, esquecida em nossos dias.

Acho que vale a pena dedicar algumas postagens a ela também (hehe). Querem me acompanhar mais um pouco? Se toparem o desafio, a partir de manhã tentaremos entender, com novos olhos, o que é o pecado e o que ele tem a ver com tudo o que descobrimos até agora. Humildemente, tenho a certeza de que o Deus de toda a misericórdia continuará "navegando" conosco por essa simples página da web...

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Deus de toda a misericórdia - Conclusão


Com essa postagem, a oitava, concluímos nosso caminho inicial em direção ao Deus de toda a misericórdia. Espero que, se não atrapalhado, os textos tenham ajudado os leitores a meditarem um pouco mais sobre aquilo que considero como o mais importante a ser entendido a respeito de Deus: "Deus é Amor" (1 Jo 4, 8).

Hoje, continuando nossa pequena reflexão sobre a Parábola do Filho Reencontrado, ou como prefiro chamá-la, do Pai Misericordioso, vamos nos deter em Lc 15, 20-32. Vamos, dessa vez, analisar trecho a trecho:

20 E voltou ao seu Pai. Ainda estava longe, quando o pai o avistou e foi tomado de compaixão: correu, lhe abraçou e o cobriu de beijos."

Creio que o versículo 20 seja, senão o mais importante, certamente o mais bonito de toda a parábola porque procura descrever a intensidade do amor do Pai. Descreve antes de tudo, a atitude fundamental do filho: ele voltou para a casa do Pai! Essa é a atitude que temos que tomar sempre: voltar para o Pai a cada vez que, infelizmente, nos afastarmos dele.

Mas o mais impressionante, como disse, é o modo como Jesus apresenta a reação do pai dessa história. Notem que o filho "ainda estava longe, quando o pai o avistou e foi tomado de compaixão". Permitam-me ser um pouco detalhista na minha reflexão porque, nesse trecho, cada palavra traz consigo um profundo significado.

Ainda estava longe quando o pai o avistou

Nesse trecho existe uma sutileza literária que, se lido apressadamente, pode ser que nos passe despercebida. Se o filho foi avistado pelo pai, mesmo estando ainda longe, é porque na verdade, o pai jamais deixou de olhar em sua direção. A cena procura descrever aquele pai que não retira os olhos da estrada pela qual o filho saiu, porque tem a profunda esperança de que ele a qualquer momento poderá voltar. É como quando esperamos ansiosamente por alguém e levantamos a cabeça para olhar ao longe para ver se a avistamos o quantos antes! Eis aqui uma primeira verdade da qual Jesus deseja nos convencer: Deus jamais se afasta de nós! Ainda que respeite as decisões que tomamos e que nos afastam dele, Ele jamais se afasta de nós! Como peço a Deus que me convença a cada dia mais disso! Precisamos estar profundamente convencidos dessa verdade: Deus nos ama, anseia por nos ter sempre ao seu lado, respeita nossas decisões que nos afastam dele, mas deseja ardentemente que retornemos!

Foi tomado por compaixão

Como é forte essa expressão! O pai sentiu compaixão pelo filho que, mesmo estando longe, estava retornando. Como vimos nas primeiras postagens, compaixão não é a mesma coisa que "ter dó", mas é muito mais; significa aproximar o coração de tal forma do da outra pessoa que se consegue "sentir com os mesmos sentimentos" dela. É, de fato, uma aproximação tão grande de corações que aquele que sente compaixão, sabe exatamente o que se passa no coração do outro e, exatamente por isso, não o incrimina, mas o acolhe sem restrição. É isso que Deus sente por nós: verdadeira compaixão! É incapaz de nos incriminar... Entende as nossas motivações mais profundas. Sabe que erramos, porém compreende o por quê...

Mas a expressão é mais forte ainda... Ele não só sentiu compaixão, mas foi verdadeiramente "tomado" por ela. Ser "tomado" por algum sentimento, implica estar inteiramente entregue a ele... Em outras palavras, Jesus quer dizer que o pai não sentia apenas compaixão, mas era a própria compaixão! Louvado seja Deus por isso! É por isso mesmo que disse nas postagens anteriores que Deus não era apenas misericordioso, mas que era a própria misericórdia!

Correu-lhe, o abraçou e o cobriu de beijos

Quanta delicadeza da parte de Jesus! Quanto detalhe para falar do Pai! É interessante compreendermos que para o público que escutava Jesus no momento em que contava essa parábola, essa pressa era uma atitude estranha! Jesus parece querer chocar mesmo... Era tomado de compaixão de uma tal forma que não se continha, saiu correndo ao encontro do filho... Era o filho que deveria correr ao encontro do pai, mas ele é surpreendido quando vê o pai correndo ao seu encontro! Meu Deus do céu! Como precisamos entender isso...

Mas Jesus ainda continua: "o abraçou e o cobriu de beijos". O abraço do pai é sinal de total acolhida. Imagine aqui aquele abraço que é capaz de envolver a pessoa, que chega a retirá-la do chão como um pai faz com seu filho pequenino... É assim que aquele pai abraçou seu filho! É assim que Deus nos abraça!

E os beijos? Os beijos são sinais do perdão concedido! Mas vejam! O filho não pediu perdão ainda! Sim, pois é... O pai não lhe deixou falar, já foi logo lhe acolhendo e lhe perdoando! E por que? Ah... Veja como a Palavra de Deus vai se explicando por si mesma: porque ele estava tomado de compaixão; não era preciso dizer nada porque o pai já sabia de tudo o que se passava em seu coração... Meus amigos, é assim que Deus nos perdoa! Observem que se os beijos são sinais de perdão, nessa cena havia um perdão sem limites: o pai o cobriu de beijos! Não eram apenas alguns beijos, não! Ele estava sendo coberto de carinhos e beijos! Jesus exagerou na descrição?! Não, claro que não... É exatamente assim que Deus nos perdoa...

21 O filho lhe disse: 'Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho...' 22 Mas o pai disse aos seus servos: 'Depressa, trazei a mais bela roupa e vesti-o; ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. 23 Trazei o bezerro cevado, matai-o, comamos e festejamos, pois este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reecontrado' E eles se puseram a festejar.

Muito interessante o versículo 21! Várias traduções ajuntam a esse versículo o trecho "trata-me como a um dos teus empregados", já que era assim que o filho havia prometido dizer ao pai (cf. Lc 15, 19). Mas o texto breve, mais provavelmente correto, ressalta a pressa do pai e o fato de que a sua acolhida impede o filho de chegar ao fim de sua humilhação...

E, imediatamente, o pai lhe reveste de roupa nova, anel no dedo e sandália aos pés. Cada um desses componentes traz consigo um profundo significado. Colocar uma roupa nova significa revestir-se de uma nova vida, recomeçar; o anel é o símbolo da autoridade que lhe é devolvida; as sandálias faziam parte do traje do homem livre em oposição ao modo como andavam os escravos (implica pois, libertação!) Em suma, meus amigos, o pai devolve ao filho a dignidade que ele havia perdido! É preciso dizer mais alguma coisa?!...

Mas não só isso! De fato, Deus não se deixa vencer em generosidade... O pai da parábola ainda dá como que um veredicto, proclama "oficialmente" a razão de toda a festa: "este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado".

Bem, creio que eu deva parar por aqui... Essa postagem já ficou grande demais! Nem sei se vocês terão a paciência de ler tudo isso... Desculpem-me, mas falar da misericórdia de Deus realmente me empolga e acabo não encontrando as palavras justas para tentar dizer tudo o que vai dentro do coração...

Dividimos todo esse trecho da parábola em dois para facilitar nossa reflexão, mas na verdade, analisando conjuntamente, tudo o que refletimos compõe a primeira parte dela. A segunda parte começa no versículo 25 e se estende ao 32. Precisaremos de mais uma postagem para falar desses versículos (uma espécie de conclusão - Parte 2... rs). Posso escrever mais amanhã? (hehe). É que seria uma pena se não fôssemos até o fim, já que é com essa parte da história que Jesus realmente responde à pergunta dos fariseus, formulada em Lc 15, 1-2.

Se não se importarem, nos encontramos amanhã...

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Deus de toda a misericórdia - Parte 7


Começo essa postagem pedindo desculpas por não ter atualizado o blog no dia de ontem. Não consegui sair do meio dos livros em preparação para os exames desse semestre. Mas hoje, retomo o caminho simples que temos feito em direção ao Deus de toda a misericórdia.

Dedicaremos dois dias para fixarmos nossa atenção na, talvez, mais bela das parábolas de Jesus. Antes de entrar no blog, li com atenção versículo por versículo dela. Confesso que me senti muito pequeno e incapaz de transmitir a riqueza de seu conteúdo. No entanto, sei que Deus possui seus próprios caminhos; tudo o que procuro fazer aqui é dar um primeiro passo, a Graça fará todo o percurso. Esse meio tecnológico da internet me dá a esperança de que, em algum lugar do mundo, alguém que entenda o português estará fazendo a experiência da misericórdia de Deus por meio dessas poucas palavras.

Aliás, recentemente, conversava com uma amiga minha que me contava um história verídica que muito me impressionou. Ela tem uma amiga brasileira que mora nos Estados Unidos e é casada com um soldado norte-americano que participou de uma dessas atividades de guerra no Oriente Médio. Um dia, essa sua amiga, se dirigindo ao banheiro para tomar um banho, deixou aberta uma página da internet com vários vídeos de músicas católicas brasileiras. Quando voltou ao quarto, encontrou seu esposo em frente ao computador, chorando. Ao lhe questionar sobre o que havia acontecido, ele lhe perguntou que coisa cantava aquela pessoa naquele vídeo em português, pois mesmo sem compreender nenhuma palavra, aquela canção o havia feito sentir uma sensação de conforto tão grande que não resistiu e chorou. Pois bem, a música era uma invocação ao Espírito Santo. Bem, não é preciso comentar nada. Deus realmente tem seus próprios caminhos...

A Parábola do Filho Reencontrado

O texto de que trata Lc 15, 11-32 é mais conhecido como a parábola do filho pródigo. Aqui no blog, nós o chamamos de a parábola do filho reencontrado, pois é esse o termo que temos usado para nossas reflexões (ovelha reencontrada e moedas reencontradas...). De fato, entre pródigo e reencontrado há uma diferença: o segundo possui um significado mais otimista, procurando valorizar o fato de que, nós, filhos de Deus, fomos reencontrados por Ele! Porém, creio que o nome mais fiel à mensagem central dessa parábola seja o de a "Parábola do Pai Misericordioso". De fato, o centro de toda a parábola não é o que faz o filho, e sim, como reage o pai ao longo de toda a história.

Para melhor compreender esse texto, vamos nos ater, hoje, somente a uma primeira parte dele. Abaixo, eu o reescrevo para que você o tenha bem presente na memória e no coração:

11 Ele disse ainda: Um homem tinha dois filhos. 12 O mais jovem disse ao seu pai: 'Pai, dá-me a parte de bens que me cabe'. E o pai fez para eles a partilha dos seus bens. 13 Poucos dias depois, o filho mais jovem, tendo juntado o dinheiro, partiu para uma região longínqua e aí gastou todos os seus pertences numa vida desregrada. 14 E quando acabou de gastar tudo, uma grande fome sobreveio naquela região e ele começou a passar necessidade. 15 Foi pôr-se a serviço de um dos cidadãos desse país que o enviou para os seus campos para cuidar de porcos. 16 Ele bem que gostaria de saciar-se com o que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada. 17 Então, caindo em si, disse a si mesmo: 'Quantos empregados de meu pai têm pão de sobra, enquanto eu, aqui, morro de fome! 18 Vou voltar ao meu pai e lhe direi: 'Pai, pequei contra o céu e contra ti. 19 Já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados'. (Lucas 15, 11-19)

O Pai deve ocupar o centro de nossas vidas!

Note que a narração começa dizendo que "um homem tinha dois filhos". Como dissemos, o personagem central da parábola é a figura do pai. Comumente, a figura do filho mais jovem é sempre colocada em destaque até porque a mensagem desse texto é tão forte e marcante que rapidamente nos identificamos com esse jovem. Porém, parece que Jesus quis que a atenção de seu público ouvinte estivesse fixada na figura do pai, dadas aquelas circunstâncias do ambiente e das pessoas para quem ele falava, que tratamos na parte 5 dessas postagens.

Quem é o filho mais jovem?

Quem pede ao pai a parte dos bens que lhe cabe é o filho mais jovem. A idade do filho, nesse caso, não possui nenhuma dimensão cronológica, ao contrário, quer relatar muito mais um modo de comportar-se diante da vida. O jovem da parábola demonstra que possui predisposição de viver a vida (e isso não é mal!), porém pensa haver sabedoria suficiente para enfrentar sozinho tudo o que ela lhe reserva. Qunatas vezes nós não achamos que podemos tomar nossas decisões sozinhos e de que não precisamos do Pai (de Deus) para nos dizer o que é certo ou errado fazer. E esse tipo de comportamento independe da idade que temos; a independência, confundida com soberba e auto-suficiência pode se manifestar, infelizmente, mesmo nas pessoas já bem adultas...

O que é que o filho pede? O que é que a vida lhe retira?

Veja que o filho também não pede nada de absurdo ao pai. Ele pede simplesmente a parte que lhe cabe da herança. Pede, portanto, aquilo que é, por direito, seu! No entanto, o gesto de pedir a parte da herança significa o ato de retirar das mãos do pai o controle sobre sua vida. É aquele ato de um sentido de independência irresponsável que nos leva a nos afastarmos de Deus. Entenda, meu irmão e minha irmã, que em momento algum Jesus nos diz que o pai se afastou do filho. O ato de se afastar e de ir para uma "região longínqua" é sempre do filho. Em outras palavras, significa dizer que nós é quem, por nossas atitudes, escolhemos nos afastar de Deus. Deus, por sua vez, respeita sempre nossa decisão ("e o pai fez para eles a partilha dos seus bens"), mas jamais se afasta de nós um momento sequer!

A narração continua e lemos que nessa "região longínqua", o filho "gastou todos os seus pertences numa vida desregrada". Muito interessante essa descrição. Veja que é o tipo de vida que ele levava que lhe retirou toda a herança que trazia consigo. E que herança é essa? Bem, é a parte dos bens do Pai que lhe cabia. É a Graça, meus irmãos! Trata-se da graça de Deus derramada em nossos corações. Infelizmente, muitas vezes é o estilo de vida que escolhemos viver que nos impede viver em estado de graça. As escolhas que fazemos ao longo da vida, se feitas numa atitude absolutamente independente de Deus, retiram-nos a Graça que conosco carregamos. Somos filhos de Deus, porém muitas vezes, vivemos como se não o fôssemos... E é assim que o jovem da parábola se percebe: "quantos empregados de meu pai têm pão de sobra, enquanto eu, aqui, morro de fome".

Até onde o filho realmente chegou?

A figura que Jesus utiliza para descrever o estado em que se encontrava o filho depois de ter perdido a graça de Deus é, para os judeus que o escutavam, a mais forte que ele poderia escolher. Jesus fala que o filho foi trabalhar com os porcos. Para os judeus, isso significa o cúmulo da degradação de uma pessoa, pois o porco era considerado um animal impuro (cf. Dt 14,8) e, totalmente impuro era aquele que mantinha algum contato com eles. Porém, Jesus vai mais longe na descrição, pois diz que não somente trabalhava com os porcos, mas procurava comer o que lhes era dado como alimento! E, por fim, o máximo grau de degradação que uma pessoa poderia atingir. Há, ainda, mais um detalhe que não podemos deixar despercebido. Nós traduzimos a passagem por "Ele bem que gostaria de saciar-se com o que os porcos comiam". Na verdade, a palavra dos textos originais sugere que devamos traduzi-la não por "saciar-se", mas algo próximo a "encher a barriga". De qualque forma, o modo como o filho deseja comer não era humano, era tão "animal" quando a situação que ele vivia...

Só nessa imagem já encontramos uma bela razão para aqueles que se consideram indignos do amor de Deus, de reaverem no coração a certeza de que o Pai os ama profundamente. Ninguém de nós, por pior que seja, poderia chegar à semelhante situação descrita nessa parábola. Pessoa alguma chegou onde o jovem da parábola chegou, por mais "longe" que tenha ido...

Porém, o acento que Jesus quer dar, como veremos, não é na situação em que o jovem se encontra. Com muito maior riqueza de detalhes, ele descreverá a maneira como o Pai acolherá esse filho... Para nós, hoje, no entanto, basta saber que esse filho toma a decisão mais sensata que poderia tomar: retornar á casa do Pai. É bom compreender que a decisão de retornar é tão livre quanto a de ter saído de casa... Por isso temos insistido que a verdadeira mudança de vida parte de uma decisão do coração. Ninguém poderá fazer isso por nós! Nós temos que nos decidir a voltar para o Pai, todos os dias de nossa vida!

A decisão que o filho mais jovem toma é tão madura, tão concreta que ele mesmo admite não merecer mais ser chamado de "filho", ou seja, ele havia perdido essa dignidade, não se sentia mais filho. Era assim que ele pretendia se apresentar ao Pai! Pretendia, com toda a razão do mundo, pedir para ser tratado como um dos empregados da casa.

Hoje, paramos por aqui... Mas lhes convido a retomarem o texto mais uma vez e rezarem a partir dele. Não tenho dúvidas de que Deus deseja lhes falar, ao coração, aquilo que minha incapacidade não me permitiu dizer aqui.

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Deus de toda a misericórdia - Parte 6


Continuamos nosso exercício de fixar os olhos, a atenção e o coração no modo como Jesus procurava manifestar a misericórdia divina por toda a pessoa humana. É bom não perdemos de vista porque estamos trilhando esse caminho! É justamente para compreender o que Jesus continua querendo nos dizer hoje, já que ele "é o mesmo ontem hoje e sempre!" (Hb 13,8).

Na última postagem, refletimos sobre a parábola da ovelha reencontrada. Confesso que, eu mesmo, relendo a postagem, admiti que faltam tantos outros detalhes importantes para se compreender a grandeza daquele trecho. Porém, é assim mesmo... Jamais conseguiremos falar tudo a respeito da misericórdia de Deus: ela é infinita!

Prossigamos nosso caminho. Hoje, analisaremos a parábola seguinte (Lc 15, 8-10). Lembro-lhes que o fazemos em clima de profunda oração. Esse blog não quer ser apenas um canal de comunicação de idéias, ele quer levar vocês a falarem com Deus, a transformarem tudo que lêem em diálogo com o Senhor.

A parábola da moeda reencontrada

Essa pequeno trecho é posto pelo evangelista, logo depois da párobola da ovelha reencontrada. Ambas devem ser lidas num conjunto, já que querem tratar sobre o mesmo assunto. Mas se é o mesmo assunto, por que então duas parábolas? Pois bem... Deus não se deixa vencer em amor, não mede esforços para nos convencer disso. Está, nesse capítulo de Lucas, lançando mão de várias comparações para nos explicar com que intensidade nos ama, com que desejo nos quer junto dele, independente da nossa história e condição atual.

Por isso, para entendermos bem a parábola de hoje, devemos lê-la "em sintonia" com a de ontem. Vamos começar?

8 Ou ainda, qual a mulher que, tendo dez moedas de prata e vindo a perder uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura com cuidado até encontrá-la? 9 E quando a encontrou, ela reúne as suas amigas e vizinhas e lhes diz: 'Alegrai-vos comigo, pois reencontrei a moeda que tinha perdido!' 10 É assim, eu vos digo, que há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converta.
(Lc 15, 8-10)


Um aceno

Antes de entrarmos diretamente no texto, vale a pena fazermos um aceno ao tema do pecado que está sendo abordado tanto na parábola de ontem como na de hoje. Se notarmos bem, procurei abordar a misericórdia de Deus, ao menos até a parte 4, sem tocar no assunto do pecado, mas pecado e misericórdia estão intimamente ligados. Jesus, a plena manifestação da misericórdia do Pai, é "aquele que tira o pecado mundo" (João 1,29).

Infelizmente nós andamos perdendo a exata noção do pecado e de suas graves conseqüências na nossa vida e na de todos. A verdade é tão somente essa! Achamos que pecar não é tão grave assim. Em nossas conversas, nas músicas que escutamos, nos apelos das publicidades espalhadas por aí, muitas vezes ouvimos dizer no "gosto bom" que o pecado tem...

Embora seja um erro grave ignorar o pecado, podemos explicar o fato das pessoas, hoje em dia, chegarem a tal ponto de vista. No mundo e tempo em que vivemos, aquilo que não se pode ver, é como se não existisse. Não é assim que muitas pessoas dizem: "o que os olhos não vêem, o coração não sente"? Pois é. Mas isso é uma grande mentira... Isso é a perda do sentido espiritual da vida e, na verdade, perda do sentido de Deus...

Mas nós teremos a oportunidade, mais a frente, de refletirmos sobre o pecado. Quis, no entanto, fazer esse aceno aqui para que compreendêssemos qual a grandeza do apelo que Jesus nos faz por meio dessas duas parábolas.

Deus não quer que nenhum de nós se perca!

Na parábola anterior, era uma ovelha que tinha sido reencontrada. E qual não foi a alegria do pastor ao vê-la retornar ao rebanho! Na parábola de hoje é uma moeda de prata. A moeda corrente, no Império Romano de então, era o denário. Um denário equivalia, em média, ao salário de um dia de trabalho de um trabalhador. Isso significa dizer que um denário era tudo o que um trabalhador precisava para sobreviver ao longo de um dia. Para uma dona de casa que tinha apenas dez denários, a perda mesmo que seja de um só, é muito significativa!

Isso explica porque Jesus utiliza esse tipo de comparação para falar da relação que Deus estabelece conosco. Para o Senhor, nós temos um valor incomensurável. Ele não nos quer perder por nada, mesmo que seja apenas um de nós. Não é isso que lemos em Gen 18, 23-33 quando Deus garante a Abraão que, enquanto houvesse qualquer justo em Sodoma, a cidade não seria destruída? Não é com estas palavras que Jesus se dirige ao Pai, momentos antes de ser entregue aos judeus: "quando eu estava com eles, eu os guardava em teu nome que tu me deste; eu os protegi e nenhum deles se perdeu..." (Jo 17,12)? Caro amigo, se convença disso: Deus não quer perder você! Ele sabe de você! Para Deus, você não é mais um número em meio a tantos... Você é único, amado de modo particular por ele!

Compreender isso é fundamental! É justamente a respeito desse amor incondicional de Deus por você que Jesus deseja lhe convencer no dia de hoje! Não me canso de repetir porque Deus não cansa de se expressar assim: você é amado por Deus!

Quero aqui, fazer uma breve pausa, lhe convidando a rezar a partir dessa linda passagem do livro do Profeta Isaías. É mais uma vez, Deus manifestando seu amor a nós, de maneira que não reste qualquer dúvida de que somos realmente amados por Ele!

1 Mas agora, assim fala o Senhor que te criou, Jacó, que te formou, Israel: não tenhas medo, pois eu te resgatei, te chamei pelo nome, tu és meu. 2 Se passares pelo meio das águas, estarei contigo; se fores através dos rios, eles não te afogarão. Se caminhares pelo fogo, não serás queimado e a chama não te consumirá, 3 pois eu, o Senhor, eu sou o teu Deus, o Santo de Israel, teu Salvador. Eu dei o Egito em resgate por ti, Kush e Sebá em troca de ti, 4 porque és precioso aos meus olhos e eu te amo; dou, pois, homens em troca de ti, populações inteiras em troca da tua pessoa. (Isaías 43, 1-4)


A alegria do reencontro

O pastor de ovelhas se alegrou quando reencontrou aquela que que se tinha desgarrado. A dona de casa se alegrou, após procurar "com cuidado", por achar a moeda que se havia perdido. Observemos que só nessas duas parábolas, ao longo de sete versículos (Lc 15, 3-10), a palavra alegria aparece cinco vezes! De fato, Jesus quer dizer que há verdadeira alegria no coração de Deus quando nós nos decidimos por Ele, quando dia após dia, procuramos dizer não ao pecado por entendermos que o amor de Deus pode nos preencher de modo pleno!

Essa alegria que brota do reencontro com o Senhor terá a sua "explosão", ou seja, sua mais explícita manifestação com a próxima parábola, com a qual se encerra Lucas 15. A essa tão importante parábola, nós dedicaremos as nossas duas próximas postagens.

A gente se encontra amanhã!

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.

domingo, 1 de junho de 2008

9º Domingo do Tempo Comum - Ano A - 2008

Evangelho (Mateus 7,21-27)

— O Senhor esteja convosco!
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, † segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 21"Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus. 22Naquele dia, muitos vão me dizer: 'Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres?' 23Então eu lhes direi publicamente: 'Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós, que praticais o mal'.24Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha. 25Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha. 26Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe em prática, é como um homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. 27Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos sopraram e deram contra a casa, e a casa caiu, e sua ruína foi completa!"

—Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor!



Caros amigos

Caminhamos, juntos com o Senhor, por esse maravilhoso Tempo Comum. Digo maravilhoso porque, de fato, ele não tem nada de diferente... O especial dele é o próprio Deus falando a partir das coisas simples da vida, do dia a dia... E como é bom viver assim: escutar todos os dias Deus que fala conosco e nos esforçamos para por tudo em prática!

Aliás, se quiséssemos resumir tudo aquilo que Ele hoje fala ao nosso coração por meio da liturgia do 9º Domingo, poderíamos tomar o seguinte versículo: "quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática".

Se desejamos trilhar um verdadeiro caminho de conversão em direção a Deus, se queremos ser todo inteiro dele, viver de modo verdadeiro como filhos de Deus, temos que ter a coragem de dar dois passos fundamentais:

1. Ouvir sua Palavra

Isso é uma questão de decisão! Não é apenas escutar, como escuto muitas vozes que falam ao mesmo tempo sem dar, no entanto, atenção à nenhuma... É ouvir! É dar toda minha atenção àquele que fala comigo! É dar absoluta importância ao que está sendo falado para mim. Não há outro caminho, meus amigos! Isso é uma questão de decisão! Precisamos dizer: eu quero ouvir o Senhor, eu preciso ouvir meu Deus! E, claro, pedir o auxílio de seu Espírito Santo para que a cada dia sejamos ouvintes mais atentos! Mas mesmo para que o Espírito nos ajude, devemos partir de uma decisão do coração: "Fala, Senhor, que o teu servo escuta! (cf. 1 Sm 3,10).

2. Por aquilo que se ouve de Deus em prática

Aqui está, no entanto, o mais difícil. É sobre isso que Jesus nos avisa quando diz: "Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos Céus, mas o que põe em prática a vontade do meu Pai que está nos céus".

É preciso esforçar-se para traduzir em atos aquilo que ouvimos de Deus. Aceitar o que se ouve é convencer-se de que precisamos agir de acordo com aquilo. Não por medo ou movido por qualquer outro sentimento, mas porque acreditamos ser o melhor para nós aquilo que vem de Deus. Em outras palavras, por amor a Ele!

Sei bem que isso não é tarefa fácil. Sinto-o na minha própria vida. Por isso é que nunca poderemos dizer que estamos convertidos, mas sim que estamos num processo perene de conversão. Desconfio de "conversões instantâneas"... Sei que Deus pode fazer o que quer, mas também percebo que Ele prefere agir em companhia com a ação humana, ou seja, não faz nada sem a nossa contribuição! Claro que existe sim aquele momento "divisor de águas" em nossa vida, em que a partir dali nos decidimos seguir o Senhor, mas esse momento precisará ser reafirmado a cada dia!

Em outras palavras, significa dizer que por em prática a Palavra de Deus implica um esforço cotidiano, por toda a vida, até o momento de nossa morte! É viver uma vida inteira se esforçando para isso! Por isso não conseguiremos se, realmente, não for uma decisão do mais profundo do nosso coração!

Mas não estamos a sós nessa vida! Ele caminha conosco e nos ajuda dia a dia, confirmando essa nossa decisão. Da mesma forma que Ele sempre fala conosco, também nos fortalece para que decidamos viver tudo quanto dele escutamos. Dentre os diversos modos pelos quais Ele se faz presente, quero destacar a Eucaristia. É, sobretudo, pela Eucaristia que Ele nos fortalece para que sejamos fiéis a cada dia, corajosos o bastante para traduzirmos em atos de vida o seu querer.

Quando compreendemos isso, jamais deixamos de ir à Missa... Ela passa a ser para nós, opção fundamental para que a decisão tomada no coração continue a vigorar! A única maneira de não voltar atrás em nossa decisão é recebendo Aquele por quem nós nos decidimos: Deus! Isso é construir nossa vida sobre bases seguras...

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.

Deus de toda Misericórdia - Parte 5


Uma diferença

Começamos esse quarto passo com uma mudança necessária. Até a parte 3, nossas postagens eram intituladas como "Misericórdia de Deus", já que até então, a misericórdia estava sendo entendida como um atributo de Deus, ou seja, uma qualidade dele. Mas esta não nos parece ser a forma mais própria para tratarmos do assunto. Isso porque se a misericórdia é uma qualidade, podemos aplicá-la a qualquer pessoa da mesma forma que a aplicamos a Deus. Assim então, como podemos dizer que Deus é misericordioso, também podemos afirmar que Maria e João, por exemplo, também o são do mesmo jeito. E isso não é bem verdade...

Em outras palavras, ao invés de dizermos que Deus age com misericórdia, o melhor é afirmarmos que Ele é a própria misericórdia em ação. Só aprendemos o que é agir com misericórdia, quando fazemos a experiência dela, quando fazemos a experiência de Deus. O mais certo, então, nos parece dizer que não estamos falando da "misericórdia de Deus", e sim, do Deus de toda a misericórdia.

No entanto, gostaria que você respondesse essa questão: no fundo, essa diferença faz diferença? Eu penso que muita. E você?

A Parábola da ovelha reencontrada

Como havíamos dito, estamos procurando fixar nossos olhos em Jesus (cf. Hb 12,2). Ele é a plena manifestação da Misericórdia. Combinamos que dedicaremos essas próximas quatro postagens para a leitura do capítulo 15 do Evangelho de Lucas. Hoje, portanto, vamos analisar a parábola da ovelha reencontrada (Lc 15, 3-8).

Todo o Evangelho de Lucas pode ser chamado de o Evangelho da Misericórdia, pois procura mostrar Jesus como o Filho de Deus, Salvador de todos os homens, particularmente atento aos pequenos, aos pecadores e aos pagãos. O evangelista apresenta Jesus como Mestre de vida, com todas as suas exigências, mas também com o seu acolhimento e a sua graça. De modo especial, o capítulo 15 desse Evangelho é uma concreta obra de misericórdia. Nele, Jesus conta três parábolas que procuram deixar do modo mais claro possível a grande verdade da qual Ele quer nos convencer: Deus é Misericórdia!


1 Os coletores de impostos e os pecadores se aproximavam dele para o ouvir. 2 E os fariseus e os escribas murmuravam dizendo: 'Este homem acolhe os pecadores e come com eles!' 3 Então, ele lhes disse esta parábola: 4 'Quem dentre vós, se tiver cem ovelhas e perder uma, não deixa as outras noventa e nove no deserto para ir à procura da que se perdeu, até encontrá-la? 5 E quando a reencontrou, ele a acomoda cheio de alegria sobre os ombros, 6 e, de volta à casa, reúne os amigos e vizinhos e lhes diz: 'Alegrai-vos comigo, pois eu reencontrei a minha ovelha que estava perdida!' 7 Eu vos digo que é assim que haverá alegria no céu por um só pecador que se converta, mais do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão'.


Nesse pequeno trecho, os versículos 2 e 3 parecem servir como uma importante introdução para que o leitor compreenda para quem e em que situação Jesus está falando. A informação que temos é que os "coletores de impostos e os pecadores se aproximavam dele para o ouvir" e que os fariseus não gostavam nada disso. De fato, tanto os coletores de impostos como os pecadores públicos eram condenados pelo grupo religioso dos fariseus. Para eles, era inconcebível que Jesus, que se apresenta como o alguém que vinha da parte de Deus, pudesse se encontrar e se relacionar com aquele "tipo de gente"... Eis aqui um primeiro dado que deverá nos acompanhar por toda nossa reflexão ao longo de Lc 15: Jesus conversa com os fariseus, aquele grupo que não conseguia entender como alguém que dizia vir da parte de Deus pudesse se reunir com grandes pecadores. Na verdade, por trás desse questionamento, estava a concepção de que Deus não pode querer bem um pecador...

Jesus inicia a conversa contando uma pequena parábola, uma história de um provável pastor com suas cem ovelhas. E por que Jesus conta essa história? Porque esse cenário fazia parte da vida de todos os seus ouvintes. Jesus tomava exemplos do cotidiano para lhes falar das coisas de Deus; isso porque desejava convencê-los de que Deus não estava distante da vida deles, pelo contrário, estava muito próximo, interagia com eles! Jesus falava das coisas do cotidiano também para que sua mensagem fosse captada com a maior exatidão possível: é Deus que quer se fazer compreender pelos homens. Acredite, meu irmão, Deus continua agindo assim até os dias de hoje... É assim que ele continua fazendo comigo e com você...

Na história, o pastor perde uma das cem ovelhas e sai depressa a procura dela, deixando as demais no deserto. Ora, o deserto era o lugar de pastagem comum dos rebanhos na Palestina. Não é que aquele homem deixa as ovelhas em qualquer lugar. Não! Ele as deixa onde elas deveriam estar para, então, sair a procura daquela que se desgarrou do rebanho. E Jesus pergunta aos ouvintes quem deles não faria o mesmo. A resposta era uma só (e todos eles sabiam disso): todos fariam o mesmo! Nenhum pastor de rebanho deseja perder suas ovelhas, mesmo que seja apenas uma.

Isso me faz recordar um jovem que conheci. Ele tinha um casal de gatos em casa, dos quais ele gostava muito. Um dia, a gata deu cria à quatro filhotes. Eram uma beleza! Lindos mesmo! Esse meu conhecido tinha a intenção de distribuir os filhotes com amigos, mas queria cuidar deles até que estivessem um pouco menos indefesos. Criava essa "grande família" num amplo quintal. Um dia, porém, qual não foi o susto que levou quando percebeu que um dos pequenos gatos havia sumido! Não deixou ele os três filhotes com à mãe e saiu a procura do que tinha se perdido? E como foi difícil achar aquele filhote que tinha entrado no "quartinho das bagunças" que ficava no fundo do quintal e se enfiado em meio às caixas cheias retalhos de roupa! (rs) Recordo-me que esse meu amigo não sossegou enquanto não o encontrou! E quando, enfim, o avistou em meio às caixas, gritou de alegria: achei, está vivo! E saiu logo contando a novidade a todos os da casa!

Em Lucas 15,7, Jesus nos explica que "é assim que haverá alegria do céu por um só pecador que se converta..." Em outras palavras, Jesus estava querendo dizer aos fariseus que era natural que Deus também procurasse aqueles que estavam perdidos. Por isso ele, Jesus, se reunia com os coletores de impostos e pecadores. Isso continua valendo hoje em nossa vida!

Por esse mesmo motivo é que, na postagem anterior, eu lhe disse que não importa qual seja o estado atual de sua vida, muito menos aquilo que realizou no passado. O que realmente importa agora é saber que Deus está te procurando para te tirar "das garras do lobo que devora as ovelhas", para te livrar de "ficar sufocado em meio as retalhos de pano velho no fundo do quintal". E devo lhe dizer ainda mais: Deus não vai parar de tentar enquanto ele não conseguir!

Você pode ainda dizer que "se Deus fosse Deus mesmo, ele conseguiria..." Aí está o bonito da história... É que Jesus só vai explicar porque Deus não "força a barra" quando contar a última das parábolas desse capítulo. Vamos aguardar "as cenas do próximo capítulo"? Enquanto aguardarmos, permita que Deus vá te convencendo apenas do pouco que hoje você pôde aprender: Deus não mede esforços para te alcançar, nunca desiste de você! E faz verdadeira festa quando você volta pra casa...

Com afeto salesiano
P. Mauricio Miranda.